À Conversa sobre Livros com Richard Zimler

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.
Leituras Queer - conversa sobre livros
Leituras Queer

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. De forma a partilhar novos mundos que os livros encerram, questionamos:

  • Qual o livro que mais o marcou/influenciou pessoal e profissionalmente?

Talvez seja Luz em Agosto, de William Faulkner. Quando decidi escrever um primeiro romance – que mais tarde viria a ser O Último Cabalista de Lisboa – analisei pormenorizadamente como é que a narrativa deste livro me cativou sem o autor recorrer aos truques do costume, por exemplo, cenas gratuitas de sexo ou corridas de carros. Em consequência, sem o saber, o Faulkner tornou-se meu professor de escrita!

  • Algum autor/a com que se identifica mais e que segue há mais tempo?

Identifico-me bastante com a Willa Cather, uma autora americana dos anos 20, 30 e 40 do século passado. Embora tenha escrito os seus livros há mais de 80 anos, o estilo é perfeitamente atual. E muito natural – sem pretensões e hermetismos. Os romances dela são sempre inteligentes e comoventes. O meu favorito, e um dos romances meus favoritos de todos os tempos, é Minha Antonia, que foi finalmente traduzido para português há 2 anos.  É sobre uma jovem da Boémia que se muda para uma zona rural dos EUA, juntamente com a família, no fim do século XIX, e as grandes dificuldades que enfrentam.

  • Qual a leitura que acompanha e recomendaria aos nossos leitores?

Acabei de ler The Road Back, de Erich Maria Remarque. Infelizmente, não há edição portuguesa. O romance mais conhecido de Remarque é A Oeste Nada de NovoThe Road Back é quase uma sequela. É sobre um grupo de soldados traumatizados pela Primeira Guerra Mundial que voltam para as suas terras e famílias depois do armistício. Encontram um país que não está preparado para compreender as suas dificuldades e oferecer apoios – uma Alemanha indiferente ao seu sofrimento. Ficam revoltados e desorientados. É um livro triste e perturbador, e muito bem escrito.

  • Desde 1996 que o Richard publica um vasto número de livros. Entre os seus romances, uma coletânea de contos e livros para crianças, qual a obra que lhe deu mais gozo escrever?

O meu romance mais recente – A Aldeia das Almas Desaparecidas – ainda está muito presente na minha cabeça, talvez porque me tenha levado 4 anos a completar. Penso frequentemente nos personagens principais. Adoro o narrador, o jovem Isaaque, e a sua avó castelhana, a Flor. Foi, de facto, um prazer “viver” tanto tempo com eles. Embora seja um livro muito sério, deu-me muitas oportunidades para criar cenas de humor, sobretudo nas conversas entre o Isaaque e a Flor. E algumas oportunidades também de explorar a vida secreta de alguns homossexuais que são amigos do Isaaque. Também foi um prazer escrever sobre uma aldeia da Beira Alta de que gosto muito, Castelo Rodrigo.

Richard Zimler nasceu em 1956 em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque. Fez um bacharelato em Religião Comparada na Duke University e um mestrado em Jornalismo na Stanford University. Trabalhou como jornalista durante oito anos, principalmente na região de São Francisco. Em 1990 foi viver para o Porto, onde lecionou Jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto. Tem atualmente dupla nacionalidade, americana e portuguesa. Desde 1996, publicou doze romances, uma coletânea de contos e sete livros para crianças. A sua obra encontra-se traduzida para 23 línguas. Para mais informações sobre o autor, visite o site http://www.zimler.com

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“Queer” = bizarro, excêntrico, estranho, não conforme. O termo serviu por mais de um século para associar a homossexualidade a doença, crime, pecado e exclusão social. Hoje, o conceito é usado como designação e/ou identificação da luta pessoal e/ou coletiva que critica e resiste às noções essencialistas de identidade.

Leituras Queer pretende ser um espaço de reflexão, partilha e divulgação de obras Queer e Feministas em português. Um espaço que, tornando visível as vidas Queer pretende desconstruir o tabu; a homofobia; os estereótipos e invisibilidade que continuam a ser alimentados num contexto internacional de ódio, conservadorismo e medo.

Este é um projeto que pretende empoderar, estimular o pensamento para novas práticas mais disponíveis para o diálogo horizontal e para a aprendizagem mútua.

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