ESTAMOS A MATAR FILHOS E NETOS E CONTINUAMOS ALEGREMENTE A SUICIDAR-NOS!

Não, não estou louco, nem sou alarmista ou pessimista. Pelo contrário, sou optimista e acredito que ainda poderemos ir a tempo de inverter o rumo da Humanidade na direcção vertiginosa para o abismo. Os cientistas andam há décadas a alertar-nos para a inevitabilidade de uma extinção em massa da humanidade, caso não consigamos suster, nos próximos anos (anos e não séculos!) as alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global.
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Não, não estou louco, nem sou alarmista ou pessimista. Pelo contrário, sou optimista e acredito que ainda poderemos ir a tempo de inverter o rumo da Humanidade na direcção vertiginosa para o abismo. Os cientistas andam há décadas a alertar-nos para a inevitabilidade de uma extinção em massa da humanidade, caso não consigamos suster, nos próximos anos (anos e não séculos!) as alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global. Mas alguns dirigentes das superpotências industriais fazem orelhas moucas (quando não se assumem mesmo como negacionistas, como Trump, que retirou os EUA dos Acordos de Paris, já por si pouco exigentes.) ou fingem, hipocritamente, que tomam algumas medidas paliativas, enquanto deixam quase tudo na mesma corrida irracional para o fim do Mundo. E todos nós temos uma quota parte de responsabilidade e, logo, a obrigação de exigir mudanças a quem governa, mas também de as praticar no nosso dia-a-dia! Usar o carro apenas o indispensável e andar mais de transportes púbicos, de bicicleta ou a pé! Poupar água. Comer menos carne. Comprar produtos locais. Reduzir o consumo. Reutilizar. Reciclar. Denunciar atentados ambientais ou à segurança alimentar e exigir o respeito pela Natureza, pelos animais, pela saúde pública, em suma, exigir políticas que ponham o bem estar e a saúde das pessoas à frente dos lucros do capitalismo, selvagem por natureza, desde os do agro-negócio aos das petrolíferas ou aos das armas.

Olhemos à nossa volta! A Serra da Estrela esteve a arder durante quase quinze dias, o que pode ter provocado danos irreversíveis na biodiversidade do Parque Natural, com espécies únicas e raras da fauna e flora, para além do impacto na vida das populações serranas. Em Espanha, os incêndios florestais não dão descanso aos bombeiros. Na Sierra de La Culebra, em Zamora, incluída na Reserva da Biosfera da Meseta Ibérica, um incêndio esteve por extinguir durante mais de dois meses seguidos, com várias ignições provocadas por raios durante tempestades, tendo ardido cerca de 25 mil hectares de floresta. Morreram um bombeiro florestal e um criador de ovelhas. Não muito longe, na Itália e na França tempestades com precipitações inusitadas e ventos de 220 km/h também fizeram vítimas (só na Córsega um furacão matou 6 pessoas). No Verão do ano passado, na Europa Central, morreram, mais de 100 pessoas na Alemanha e 23 na Bélgica, sem contar milhares de desaparecidos, devido a inundações provocadas por chuvas torrenciais. Estes fenómenos climáticos “esquisofrénicos”, que continuarão de forma cada vez mais frequente e dramática, devem-se às alterações climáticas, nomeadamente ao aumento do aquecimento global de 1,2 graus centígrados desde o início da era industrial. Este ano, ondas de calor na Europa Mediterrânica (Portugal, Espanha, França, Itália e Croácia), com temperaturas acima dos 40ºC e em algumas localidades perto dos 50ºC (Pinhão com 47ºC) e noites tropicais, provocam incêndios, tempestades e o aumento de mortalidade em idosos (o calor já matou mais de mil pessoas na Europa). Galiza e Extremadura espanhola com 44ºC. Até os ingleses começam a sofrer (e a morrer!) com o calor inusitado de 40ºC. O calor retém a poluição no ar provocando problemas respiratórios. Os rios estão a secar, incluíndo os maiores rios do Mundo, como o Tejo (em zonas do distrito de Santarém já se atravessa o rio a pé), o Loire (o rio mais longo da França), o Reno (a principal artéria fluvial da Europa, crucial para a indústria alemã, além de afectar outros cinco países), o Danúbio (onde alguns navios já não conseguem navegar), o rio Pó (o maior de Itália), o Yangtze (o maior rio da Ásia) e os seus afluentes ou o Colorado (o rio dos EUA que abastece de água cerca de 40 milhões de pessoas).

A água doce escasseia em todo o mundo. Portugal não é excepção. Segundo o Instituto do Mar e da Atmosfera (IPMA), mais de metade do território continental (55,2%) está em seca severa e o restante (44,8%) em seca extrema. Como já aconteceu em 2017, com 51 camiões cisterna a trasladarem, diariamente, água da albufeira da Aguieira para a de Fagilde, para abastecimento às populações de Viseu, Mangualde, Nelas e Penalva do Castelo, também este ano, o mesmo está a acontecer em Castro Marim, Santiago do Cacém e em seis municípios de Trás-os-Montes. Os lençóis freáticos estão a esgotar-se! Há menos de 10% de água no solo, o ponto de emurchecimento dos vegetais. A seca aflige os agricultores de Norte a Sul de Portugal.

Agora, olhemos um pouco mais longe. A seca e a guerra na Ucrânia, com a interrupção (recentemente desbloqueada) das exportações de cereais e de fertilizantes a partir da Ucrânia e da Rússia, põem em risco a alimentação de 400 milhões de pessoas. A ONU previa, com dados de 2021 (antes da invasão da Ucrânia!), a fome para perto de 200 milhões de pessoas.

Com a criminosa invasão da Ucrânia e as sanções à Rússia a fazerem de boomerang nos preços dos adubos e cereais e na superinflação, a fome já ameaça de morte 44 milhões de pessoas. Segundo, David Wallace-Wells, autor do livro “A Terra Inabitável” (em cujo prefácio o físico Carlos Fiolhais escreveu: “um grito de alerta: Humanos, tereis de mudar de vida se quereis evitar o fim bastante próximo.”), 2.100 milhões de pessoas (¼ da população mundial) não têm acesso à água potável. 71% do planeta está coberto de água, mas só pouco mais de 2% é água doce e só 1% desta está acessível, com a restante aprisionada em glaciares. Ou seja, “apenas 0,007% da água do planeta está disponível para abastecer e alimentar os seus 7 mil milhões de pessoas” (note-se que o livro é de 2019, mas em 3 anos a população mundial já chegou aos 8 biliões e a ONU calcula que em 2050 seremos quase 10 biliões, e em 2100 chegaremos aos 11,2 biliões, quase o dobro dos 5,5 biliões de 2000). “Globalmente, 70 a 80% da água doce é usada na produção alimentar e agricultura.” Espanha está a resolver o problema com 700 estações de dessalinização de água. Portugal só tem uma na Madeira. Com os glaciares a derreterem a uma velocidade assustadora (na Antártida, nos últimos 25 anos já perderam o dobro do gelo que estava previsto, o que acelera a subida do nível do mar em todo o globo, e nos Himalaias perderão 40% do seu gelo até 2100!), a ONU calcula que em 2050 cerca de 5 biliões de pessoas (metade da população mundial) poderão ter dificuldades no acesso à água doce. O futuro já era: em 2018, na Índia, morreram 200 mil pessoas por causa da falta de água ou de água contaminada.

E se pensam que enquanto pudermos respirar podemos sempre pensar formas de sobreviver, atentem no alerta do citado livro. “Os nossos pulmões necessitam de oxigénio, mas ele é apenas uma fracção do que respiramos (…) que tende a diminuir quanto mais dióxido de carbono há na atmosfera. (…) Com o dióxido de carbono a 930 partes por milhão (mais do dobro do que temos hoje), a nossa capacidade cognitiva fica reduzida em 21%”. Ora, um estudo “em salas de aulas de escolas primárias dos EUA mostrou que já existe dióxido de carbono em 1000 partes por milhão, sendo que quase ¼ das avaliadas no Texas registaram valores acima dos 3000” (o que poderá explicar a quantidade de idiotas apoiantes de Trump!) Está também provado que a poluição do ar provoca “um aumento das doenças mentais em crianças e a probabilidade de demência em adultos.”

Decidi partilhar com os leitores estas reflexões, depois de ter revisitado o multipremiado filme “Interestelar”, de Christopher Nolan (2014), em que uma equipa de astronautas é enviada com a missão de descobrir planetas onde seja possível colonizar a humanidade condenada à extinção na Terra. Ficção científica. Mas relembro que já o físico teórico Stephen Hawking, falecido em 2018, no seu livro “Breves Respostas às Grandes Perguntas” e no documentário “Expedition New Earth”, da BBC, previa que “talvez em 100 anos tenhamos que estabelecer colónias humanas entre as estrelas”, porque “estamos a ficar sem espaço na Terra” que “pelas leis da Física e da probabilidade” pode ser “aniquilada por asteróides, engolida pelo Sol ou destruída por mudanças climáticas. Ficar aqui é arriscar ser destruído! (…) Não estou negando a importância de combater a mudança climática e o aquecimento global, diferentemente de Trump (…). Agora só temos um planeta e precisamos de trabalhar juntos para protegê-lo!”

Mas não se preocupem com o futuro. Até pode ser que o mundo acabe já amanhã. Basta que os soldados ucranianos continuem a disparar contra a central nuclear de Zaporizhia, tomada pelas forças russas que ali estacionam material militar, ou que o criminoso Putin faça uso do arsenal nuclear com que já ameaçou a soberania da Ucrânia e o imperialismo rival dos EUA, o patrão da NATO que também anda a brincar com o fogo.

Não será o fim do Mundo; quando muito, o fim da Humanidade. Até as bomba atómicas que os EUA lançaram de forma criminosa sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945 (já depois da rendição da Alemanha nazi, embora o Japão ainda resistisse), arrasaram casas e mataram mais de 220 mil pessoas instantaneamente e nos dois meses seguintes, fora as que foram morrendo mais tarde, de cancro e outras lesões provocadas pelas radiações, mas não conseguiram destruir a árvore milenar ginkgo biloba, um dos organismos vivos mais antigos do planeta. Pode ser que uma qualquer espécie mais inteligente, oriunda de outra galáxia, aqui venha parar, aproveite melhor a Natureza que restar e construa uma civilização mais solidária e justa do que a que nós estamos a destruir. Haja fé! E continuemos deitados, calados “a esperar o que acontece”…, como a nêspera comida pela Velha *.

* Referência ao poema de Mário Henrique Leiria, “Rifão Quotidiano”.

Carlos Vieira e Castro

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Nascido em Viseu, no 1º de Maio de 55; comerciante e professor (não praticante) de EVT; vice-presidente da Olho Vivo – Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos e activista do Núcleo de Viseu desta ONG. Foi deputado municipal do BE, na AM de Viseu, de 2009 a 2017. É cronista em blogues e jornais regionais. Esporadicamente publica cartoons e faz recitais de poesia. É membro do CORO AZUL – grupo vocal da Associação Gira-Sol Azul.

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