A exploração do lítio em Portugal e o telemóvel do Conan

Nas últimas semanas têm-se multiplicado as iniciativas para debater o problema da exploração do lítio em Portugal. Em 5 de Maio, realizou-se uma sessão pública em Beijós, Carregal do Sal, com a presença da deputada do BE, Maria Manuela Rola, e de Maria do Carmo Mendes, activista do movimento pela preservação da Serra da Argemela. Uma semana depois, dia 11, Boticas foi palco do colóquio “Exploração do lítio em Portugal – impactos da corrida ao petróleo branco”, promovido pela Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Boticas, de Maria do Carmo Mendes e de activistas da rede Contraminacción, contra a mineração a céu aberto na Galiza. Neste colóquio foi lançada pela UDCB a ideia de criar uma rede nacional para unir todas as organizações e movimentos que se encontram em luta nas várias regiões ameaçadas pela prospecção e exploração do lítio a céu aberto.
Na terça-feira, dia 14, o jornal Público deu destaque, em duas páginas, ao “Movimento nacional em marcha contra o lítio”, com referências a um comunicado da Zero que defende que

Dos 26 pedidos de prospecção e pesquisa publicados nos último 16 meses, nove deles estão localizados em áreas protegidas com destaque para o Parque Natural do Douro Internacional, o Parque Natural do Tejo Internacional e a Reserva Natural da Serra da Malcata.
Nesta quarta-feira, dia 15, foi a vez da Quercus e da AZU – Associação Ambiente em Zonas Uraníferas tomarem uma posição conjunta, divulgada numa Conferência de Imprensa, em Viseu, com a participação do presidente da Junta de Freguesia de Beijós, de activistas do Movimento do Concelho de Nelas, de outros activistas da defesa do ambiente no distrito de Viseu e do Núcleo de Viseu da Associação Olho Vivo.
O presidente da AZU, António Minhoto, começou por fazer o historial do passivo ambiental deixado pelas explorações mineiras (na mina de urânio da Quinta do Bispo, em Mangualde, onde se encontram muitas toneladas de resíduos perigosos, só agora é que vai arrancar a primeira fase da reabilitação ambiental) e também das pedreiras abandonadas sem controlo ambiental.
Paulo Carmo, presidente da Quercus, afirmou não ser contra a exploração do lítio, mas sim contra o licenciamento pelo governo desta forma de exploração a céu aberto e em áreas protegidas, que classificou como “um dos maiores atentados ambientais dos últimos anos” e manifestou a solidariedade da Quercus com as populações em luta, a quem já disponibilizou os serviços jurídicos para acções judiciais em Portugal ou na UE. Disse ainda que o Estado está a leiloar o território a pretexto de melhorar a mobilidade, o que não é verdade, porque “há alternativas aos veículos eléctricos, como os carros a hidrogénio que já circulam no Japão”.
A AZU e a Quercus anunciaram um Encontro/Colóquio, a realizar a 15 de Junho, perto da Serra de Argemela, com o objectivo de criar uma Plataforma Nacional que ligue todos os movimentos em luta contra a mineração a céu aberto do lítio.

Em nome da Associação Olho Vivo, defendi, em primeiro lugar, a necessidade de unir (sem disputas de protagonismo) todos estes movimentos de resistência das populações, partilhando experiências e formas de luta contra a mineração a céu aberto do lítio (na América do Sul, o lítio é extraído maioritariamente de lagos salgados), de modo a proteger a paisagem natural e humana do território e os agroecossistemas.

A UNESCO, em 2018, considerou como Património Agrícola Mundial, Montalegre e Boticas, ambas na mira de projectos de exploração do lítio. Até o Parque Nacional da Peneda-Gerês esteve ameaçado por um projecto de prospecção e pesquisa de lítio, apresentado por uma empresa australiana à Direcção-Geral de Energia e Geologia, mas a contestação popular obrigou-a a desistir do local.

Em segundo lugar, defendi a necessidade de convocar cientistas para dar sustentação teórica à luta contra este “tsunami” de mineração, com o lítio a servir de “cavalo de Tróia” de uma mais vasta exploração sem controlo, e criar um argumentário à prova de mistificações, sobretudo quando em confronto com empresários ou agentes da Administração do Estado, como sejam as promessas de criação de postos de trabalho (sempre exagerados) ou a “compra” da anuência das autarquias a troco da comparticipação de 1,5% nos “royalties” previstos na legislação, fraca compensação pela destruição do território que levará apenas a mais êxodo rural, à desertificação humana e física do interior.

A verdade é que temos de ter respostas científicas. Se não houver alternativas ao lítio, quem é que abdicará do seu telemóvel ou do seu computador (com baterias a iões de lítio)?… Quem é o primeiro a partir o telemóvel, como na letra do Conan?… Como é que estão a decorrer as investigações sobre as baterias de sódio, elemento abundante na água do mar, logo, muito mais barato? Ou as baterias de hidrogénio, a partir da electrólise da água, com painéis solares a fornecerem a energia? E qual é o ponto da situação das investigações sobre a fusão nuclear, fonte de energia com autonomia quase ilimitada (o deutério extrai-se dos oceanos) e segura para o ambiente, já que não produz detritos radioactivos? As reservas de lítio para uso como combustível na fusão nuclear dariam para 30 mil anos (segundo Carlos Varandas, do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear e presidente da Agência Europeia para o Reactor Internacional Experimental Termonuclear – ITER, que será construído no Sul de França), o que daria tempo para descobrir outras alternativas ou colonizar outros planetas. Isto se conseguirmos sobreviver às alterações climáticas e ao aquecimento global provocado pelos gases com efeito de estufa (Portugal e a UE obrigaram-se a cortar 50% das emissões até 2030) que colocam a Europa (e o Mundo) em estado de “emergência climática”, como disse Marisa Matias, considerada a eurodeputada portuguesa que mais trabalhou em defesa do Ambiente, tendo Ana Gomes sugerido que seria a melhor primeira-ministra para Portugal. Com Marisa e o BE, não duvido, ficaríamos mais protegidos contra a ganância dos empresários “garimpeiros”, com o controlo pelo Estado dos meios de produção em sectores fundamentais como a água, as telecomunicações, a banca, o transporte ferroviário e a energia. O que é de todos!

Outros artigos deste autor >

Nascido em Viseu, no 1º de Maio de 55; comerciante e professor (não praticante) de EVT; vice-presidente da Olho Vivo – Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos e activista do Núcleo de Viseu desta ONG. Foi deputado municipal do BE, na AM de Viseu, de 2009 a 2017. É cronista em blogues e jornais regionais. Esporadicamente publica cartoons e faz recitais de poesia. É membro do CORO AZUL – grupo vocal da Associação Gira-Sol Azul.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Related Posts
Fotografia Vencidos da Vida
Ler Mais

OS VENCIDOS DA VIDA

No final do século XIX, várias personalidades importantes da vida portuguesa, desapontadas com a situação política portuguesa, passaram…
Skip to content