Fernando Ruas, ao contrário do poeta, não é um “fingidor”. Tingido, certamente, mas fingido é que não. Ruas diz ao que vem. Na apresentação pública dos candidatos do PSD às 25 freguesias do concelho, Ruas prometeu, em jeito de ameaça: “Desengane-se quem ache que o alcatrão e o betão acabaram”. E não resistiu a mais um remoque ao seu “ódio de estimação”, apesar de finado: “Vamos ver com atenção os dinheiros que a Câmara tem e, naturalmente, entre fazer algo como o carnaval do Rio que acaba na quarta-feira [clara alusão à prioridade dada por Almeida Henriques à cultura] ou obra, eu não tenho dúvida em deitar mão ao que é fundamental. Eu tenho particular apetência por obras. Gosto de as fazer. Sou apaixonado por obra pública.

Ora, embora já tenha manifestado a minha discordância com a forma como Almeida Henriques e o seu “António Ferro”, Jorge Sobrado, conduziram a política cultural da Câmara Municipal, sem a necessária transparência e equidade (visível na Incubadora e no Museu da Cidade), a verdade é que tiveram o mérito de apoiar e dar trabalho a muitos dos agentes culturais locais. Este, aliás, deve ser um desígnio de qualquer autarca. Por isso, nunca me ouviram fazer coro com as vozes críticas à política de “festas e festinhas” de Almeida Henriques. “Nem só de pão vive o Homem!” As artes são fundamentais para o reconhecimento da identidade cultural e a auto-estima das populações e para a valorização do Interior, para além do retorno económico que geram.

Quanto às obras, se é certo que o malogrado edil do PSD, em oito anos, não concretizou praticamente nenhum dos grandes projectos que propagandeara, F. Ruas, em 24 anos, não cumpriu o lema inicial de “levar o Rossio às aldeias”. Se o tivesse feito não diria agora, para justificar a obsessão pelo betão e pelo alcatrão: “De certeza que quando fizermos o périplo pelas freguesias as primeiras reivindicações que os candidatos vão fazer é a estrada, as ligações, etc.”

Na verdade, Ruas fez estradas: as entradas na cidade com quatro faixas, para permitir a circulação dos novos moradores obrigados a procurar casa na periferia, já que o centro se encontrava despovoado, com cerca de 200 habitações em ruínas, algumas com janelas manuelinas, já o autarcossáurio ia no quarto mandato. Há vinte anos Viseu viu crescer a sua população para 93 mil habitantes, sendo que 11 mil acresceram só numa década, em grande parte devido às instituições de ensino superior públicas e privadas. As jovens gerações abandonaram as aldeias onde nasceram, já despovoadas pela emigração, onde as condições de vida eram precárias, para irem morar nos novos bairros suburbanos. Alguns, autênticos “cimentérios”, como Marzovelos onde o único espaço verde digno desse nome, em frente ao Hotel Montebelo, da Visabeira, foi por duas vezes ameaçado pela Imobiliária desta grande empresa de Viseu, com a construção de um Centro Comercial. Valeu a luta dos moradores e da Associação Olho Vivo. Esta organizou um abaixo-assinado que levou a Visabeira e a Câmara a anunciarem uma permuta de terrenos. Entretanto, o PDM foi revisto, mas o espaço continuou como urbanizável.

Bem pode F. Ruas declarar que com ele Viseu continuará a “crescer de forma horizontal”. Bem ao lado da sua moradia (de construção horizontal, de facto), na Quinta do Bosque, ali, em terrenos da Visabeira, erguem-se torres de habitações de luxo. Construção horizontal temos no Bairro Municipal, mas Ruas decidiu demolir aquelas casas térreas, com jardim à frente e horta nas traseiras, por considerar ser “um desperdício de espaço numa zona central da cidade” (Desperdício de espaço para casa de pobres, mas não para vivendas como a sua). Mais uma vez, valeu a organização dos moradores e a Associação Olho Vivo que pediu a classificação do Bairro, tendo a Direcção-Geral do Património Cultural recomendado à autarquia a sua classificação como Património de Interesse Municipal. Apesar disso, Ruas fez questão de demolir duas fileiras de casas, antes de acabar o último mandato, em mais um atentado ao património da cidade. Lembro que também foi o Núcleo de Viseu da Associação Olho Vivo que em 2001 denunciou, em Conferência de Imprensa, a substituição dos candeeiros de ferro forjado, da escola de Mestre Malho, nas ruas do Centro Histórico, que Ruas acabaria por repor. E o mesmo aconteceu, em 2011, com os belíssimos candeeiros desenhados por Arnaldo Malho, “O poeta do ferro” no dizer de Aquilino, que tinham desaparecido das paredes da Sé, da Igreja da Misericórdia e no Largo da Misericórdia. Perguntei pelo seu paradeiro na Assembleia Municipal e fiquei perplexo com a ignorância de Ruas acerca do património da cidade que geria há duas décadas, ao revelar que não fazia ideia nenhuma de que candeeiros se tratava. Nem ele, nem nenhum dos seus vereadores.

Na sessão da Assembleia Municipal de Viseu de 26.09.2016, o presidente da Junta de Freguesia de Viseu, Diamantino Santos, que no mandato anterior, como autarca da ex-freguesia de Coração de Jesus, tanto se empenhara em defender as mais polémicas decisões de Fernando Ruas, como a de demolir o Bairro Municipal, mal aquele saiu de cena denunciou uma enorme mentira do autarca que durante 24 anos chefiou os executivos municipais, a propósito das obras na Escola da Ribeira: “Não existia projecto nenhum para a Escola da Ribeira!

Já todos sabíamos, porque Almeida Henriques já o tinha dito, mas vindo de quem veio, este eco tão transparente denunciando as mentiras do anterior executivo do PSD não deixou de nos surpreender.

Com efeito, Fernando Ruas, em 2006, disse que tinha cerca de dois milhões para a ampliação e requalificação da Escola da Ribeira, e em 2012, o seu vice, Américo Nunes, voltou a anunciar a requalificação, 3 meses antes de ser lançado o concurso público no Diário da República, para a construção do Centro Escolar da Ribeira, de que até apresentaram uma maqueta, mas nunca fizeram qualquer obra, e, pelos vistos, nem sequer deixaram qualquer projecto na Câmara.

Ruas bem pode declarar o seu amor pelas obras públicas, mas a história dos seus mandatos mostra que não é um amante lá muito fiel.

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Nascido em Viseu, no 1º de Maio de 55; comerciante e professor (não praticante) de EVT; vice-presidente da Olho Vivo – Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos e activista do Núcleo de Viseu desta ONG. Foi deputado municipal do BE, na AM de Viseu, de 2009 a 2017. É cronista em blogues e jornais regionais. Esporadicamente publica cartoons e faz recitais de poesia. É membro do CORO AZUL – grupo vocal da Associação Gira-Sol Azul.

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