Foto por Falk2, CC BY 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/3.0>, via Wikimedia Commons

A intervenção do Ministro Pedro Nuno Santos, na sessão de lançamento do Plano Ferroviário  Nacional (PFN) no passado dia 19 de Abril, foi para mim um marco histórico. Não me lembro, na  nossa história recente, de ter ouvido um ministro com a pasta dos Transportes ser tão assertivo  e realista sobre o que queremos da nossa ferrovia. 

Este PFN e a forma como será discutido – qualquer um pode, e deve, enviar os seus contributos  através do seu site oficial – já são por si só inéditos, e vêm no seguimento de dois anos incríveis  para o sector ferroviário: reabertura de oficinas, recuperação de dezenas de carruagens e  locomotivas abandonadas, reabertura para breve da Linha da Beira Baixa, electrificação da Linha  do Minho… A lista vai longa, neste período marcado por uma reversão de décadas de laxismo e  destruição da ferrovia portuguesa desde o 25 de Abril. 

Na sua intervenção, Pedro Nuno Santos relembrou o objectivo de conectar todas as capitais de  distrito de comboio; relembrou, friso, pois esta meta já foi anunciada na proposta de Orçamento  de Estado para 2021, no final do ano passado. 

Vila Real é uma das três capitais de distrito sem ferrovia – sendo as outras Bragança e Viseu – e  o autarca vilarealense não deixou de prestar declarações sobre a hipótese do regresso dos comboios à cidade. Que é a reparação justa por 30 anos de abandono da Linha do Corgo, e que  a via deve estar a par dos padrões de excelência da rede rodoviária actual. Palavras justas, se  não estivessem revestidas de uma profunda hipocrisia, que a nível pessoal me deixaram  perplexo e indignado. 

Desde 2012 que elaborei um estudo de viabilidade da reabertura da Linha do Corgo entre a  Régua e Vila Real. Um estudo que demonstra a gritante desfasagem da realidade do que a  extinta REFER apontou como custo de reabertura, e que aponta para a viabilidade económica e  financeira do projecto, ao alargar as suas fontes de proveitos, e pela forma como a Economia  local e o próprio Estado beneficiariam, com a criação de emprego e aumento de receitas  comerciais e impostos. Estudo o qual já discuti na imprensa e rádios locais, e que se encontra  publicado e explicado em detalhe no meu canal na rede social YouTube

Em inúmeras ocasiões solicitei uma reunião com este autarca para apresentar este estudo, até  porque, quando o abordei através do Movimento Cívico pela Linha do Corgo, grupo que fundei  em 2010, o ainda candidato ao seu primeiro mandato na Câmara de Vila Real dizia-se a favor da  reabertura deste troço ferroviário. E, contudo, em quase 8 anos de mandato, nunca fui recebido  pelo mesmo, conseguindo apenas duas reuniões absolutamente inócuas com outros tantos  vereadores, um dos quais me explicou de forma paternalista que o autarca não defende a  reabertura da Linha do Corgo, porque o Governo também não o fazia, o que seria assim um, e  cito, “suicídio político”. Entretanto, o canal ferroviário na cidade vai sendo transformado numa  ecopista, num desperdício de dinheiros públicos sem critério e contra producente. 

Dizer que tudo isto é desconcertante é pouco. Se o comboio pode voltar a Vila Real, no sentido  de haver fundos para isso e ser uma meta essencial para alcançar objectivos como a  descarbonização da Economia, promoção da coesão territorial, e devolução aos trasmontanos  do direito à mobilidade sustentável e inestimável do caminho-de-ferro? Pode; aliás, deve. Uma  Linha do Corgo reaberta e modernizada tornará por exemplo ainda mais rentável a Linha do  Douro, a qual corre também o sério risco de assistir a uma reabertura histórica até Barca d’Alva. 

Com a construção prevista de uma linha de Alta Velocidade entre Lisboa e o Porto, encurtando  a viagem entre ambas para pouco mais de uma hora, Vila Real, mesmo levando meia hora de  viagem até à Régua por comboio (tempo que qualquer outro transporte terrestre leva  actualmente), ficará a 3h30 da capital – de autocarro são 5h. 

É duro ser-se cidadão, ser-se munícipe, e ser-se olimpicamente ignorado pelo Poder local, que  ao sabor da oportunidade ora é a favor, ora é contra, ora é totalmente indiferente. Venha de lá  o serviço ferroviário por favor, senhores e senhoras mais esclarecidos que isto. 

Não escrevo segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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Trasmontano, natural de Vinhais (nascido no Rio de Janeiro) em 1984. Frequentou dos 10 aos 14 anos o Colégio Salesiano de Poiares da Régua, onde viajou frequentemente na Linha do Tua, nascendo aí o seu interesse pela sua salvaguarda. Licenciado em Gestão pelo ISCTE (2002-2007), e com pós-graduação em Turismo pela ESHTE (2008-2010).
Fundou o Movimento Cívico pela Linha do Tua em 2006, estando sempre na linha da frente da luta contra a barragem do Tua, escrevendo vários comunicados e artigos de opinião, entre participações em debates. Em Dezembro de 2010 fundou o Movimento Cívico pela Linha do Corgo, com menos actividade que no MCLT. Deixou ambos os movimentos em meados de 2015, mas nunca se afastando da divulgação e defesa destas vias-férreas, a par da da Linha do Sabor, sobre a qual criou um estudo de reabertura, publicado no livro "A Linha do Vale do Sabor - Um Caminho-de-Ferro Raiano do Pocinho a Zamora".
Foi Assessor de Gestão no Metro de Mirandela entre 2009 e 2012, promovendo algumas mudanças, mas sendo sempre boicotado em vários esforços pela Administração.
Em 2010 ficou em 3º lugar no concurso nacional de empreendedorismo "Realiza o teu Sonho", da Acredita Portugal, com um projecto de Turismo Ferroviário na Linha do Tua. A CP nunca quis reunir para conhecer o projecto.
Tem publicado no seu canal no YouTube alguns estudos de reabertura de troços ferroviários, nomeadamente da Linha do Corgo entre a Régua e Vila Real.

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