O diabo (dos grandes) está nos pormenores (dos pequenos)

Assembleia da República – Foto de Hugo Cadavez | Flickr
Portanto, o PS queria maioria absoluta, não a atingiu, fez birra e recusou repetir um acordo escrito para nova governação minoritária. Durante este mandato, não executou medidas e verbas dos seus Orçamentos do Estado (OE), recusou acordos à esquerda, votou mais vezes ao lado da direita, e numa altura em que é fundamental o investimento público e reforço de sectores básicos, quando mais são necessárias políticas que reflictam e se reflictam na qualidade de vida dos portugueses, o PS volta a recusar acordos à esquerda e apresenta um OE contrário àquilo que o próprio PS defendeu recentemente. A esquerda, não se revendo, novamente, num OE que lesa os portugueses, e que tem medidas dignas de governos de direita, rejeita o OE (o governo recusa, inclusive, reiteradamente, rever, remover e/ou reverter medidas da Troika), contudo, na sede de poder a direita vota contra um OE que contém medidas em que a própria direita se revê.

Posto isto, o PS tem tanta sede à maioria absoluta que (ainda) nem sequer caiu o governo, nem foi dissolvido o parlamento e já António Costa clama pela supracitada maioria. A direita tem tanta sede ao poder (nem se importam de ponderar acordos com extremistas difusores de ódio e perigosas teorias conspiratórias), que vota contra medidas em que se revê, e que ou já apoiou ou até mesmo implementou, apenas para tentar fazer cair o governo, apelidar os outros de irresponsáveis e apresentar-se como a ‘salvadora envolta na bruma’.

No entanto, o que passa pela Comunicação e Redes Sociais é que a culpa é dos partidos que sempre estiveram abertos ao diálogo, mas (apesar da sua importância para a estabilidade parlamentar) foram desprezados e enjeitados como irrelevantes, e cujas propostas orçamentais visam a estabilidade social e económica dos portugueses e reforço do SNS (que malvados são estes perigosos radicais vermelhos que pensam nas pessoas!).

Esta mentalidade de que a culpa é dos partidos que por defenderem os seus ideais e os programas pelos quais são eleitos, ao invés de andarem ao sabor de interesses privados, é um belo exemplo da iliteracia política do eleitor comum; um belo exemplo da lengalenga do “todos iguais”; um belo exemplo do porquê de irritarem mais as migalhas disponibilizadas aos pobres do que as isenções e fugas fiscais de ricos, amigos, compadres, filhos e enteados; um belo exemplo do porquê de o ódio e o interesse dos privados ter assento parlamentar.

Quando leio declarações risíveis como “PCP e BE deviam acabar!”, “Nunca pensei ver o BE votar ao lado do Chega…”, pergunto-me:

– Os partidos, que se mantêm fiéis aos seus eleitores e que defendem medidas de interesse nacional, e não de interesse pessoal e privado, deveriam acabar porque não se subjugaram ao governo, mostrando que antes preferem sofrer de pé as possíveis consequências da iliteracia que leva a estes comentários, do que vergar, trair os eleitores, ideais e programas que os levaram ao parlamento e que todos os dias defendem?

– Os partidos de esquerda votaram ao lado da direita, ou uma vez mais (como aconteceu em 2011 e a sua ânsia de ser governo) a direita prefere a crise política, votando contra medidas que pretende implementar, apenas como veículo para chegar ao poder (que não lhes sai da boca desde que deixaram de ser governo)?

– É a esquerda que vota ao lado da direita, ou a direita que, novamente, vota, estrategicamente, ao lado da esquerda, usando a iliteracia política para se arrogar de salvadora que vai “além da Troika” e que, ‘enquanto houver um cêntimo para penhorar, não há português (pobre!) que se deixe escapar’?

A verdade, enquanto uns mantêm a fidelidade ao seus valores e eleitores, outros fazem truques de malabarismo e ilusionismo para entreter e enganar o povo, e até os há que nem escondem ao que vêm, é que é sempre o mexilhão quem se lixa. Sendo mais preocupante quando o mexilhão se lixa a si próprio. E a culpa não é da esquerda (perigosa e irresponsável!, como muitos querem fazer crer, escondendo a sua verdadeira irresponsabilidade e os interesses que se movem nos seus bastidores), a culpa é da iliteracia política, usada, por muitos, com o orgulho de onde saem, ainda mais, declarações risíveis, como a do pai de um amigo meu, aquando do governo “Passista”, “Podem-me tirar tudo que continuo a votar neles!” (e Trás-os-Montes, sumptuosamente, continua a votar neles, esses eles que mais nos roubam, que mais nos abandonam, que mais nos mentem e menos nos representam).

A verdade é que a culpa não é (só) dos partidos, porém, de quem não percebe que a iliteracia política é motivo de grave preocupação e não de gargalhar esponjado no chão. A culpa é de quem com medo dos rumores calculistas de diabos hipotéticos, escancara as suas portas aos demónios que nem escondem querer-lhes sugar e endividar, ad aeternum, as almas.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Português de Mal e acérrimo defensor da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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