É preciso falar-se sobre o que significa Resistir no interior

É preciso falar-se sobre o que significa Resistir no interior, lutar contra o conservadorismo e a importância do ativismo no mesmo e na abertura de mentalidades, uma vez que sou da opinião de que se deve falar mais sobre ativismo no interior, do poder que os jovens e as pessoas do interior têm na mudança e construção do mesmo. 

Ao longo dos anos temos vindo a observar o poder da resistência, de como esta pequena e simples palavra tem um significado tão grande, de como é capaz de mudar tanto os tempos como as vontades. Sou da Guarda, uma cidade pequena do interior, e ter crescido lá foi crescer no meio de tabus, daquelas ideias das quais não se fala, que são dos outros e que, para muitos, não têm cabimento nenhum. Onde mudar mentalidades, ideias, formas de estar e viver é uma luta constante, mas que é sobretudo necessária. 

O maior inimigo da mudança foi sempre o conservadorismo, o ficar preso ao passado e não se aperceber que os tempos avançam, e que também no interior é preciso mudar e progredir. Nós jovens sempre estivemos muito atentos a isso, a essa mesma forma diferente de pensar, temos sempre uma palavra a dizer, não nos calamos, e ainda bem que assim o é. Porque apenas assim é que caminhamos para a frente e não para trás. Mais do que falar de jovens, temos que os incluir no debate, promovendo a sua participação política e social na esfera pública, de modo a que estes consigam fazer passar as suas ideias e façam parte da construção do interior. 

É preciso resistir e construir o interior através de políticas sociais, que combatam o conservadorismo e tragam novas formas de pensar, novas mentalidades. 

Desta forma, algo que é importante a falar é do quanto necessário é a existência de Ativismo. São muitos os movimentos que pelo interior já existem, mas que ainda não são ouvidos pelas autarquias. Continuam a ser ignorados quando o objetivo principal é a proteção ambiental do nosso território e das nossas pessoas, sendo que os jovens são necessários, a sua fixação é urgente para que o interior não envelheça mais do que já está. 

Claro que essa fixação passa pela criação de condições de emprego, em que se aposte no empreendedorismo jovem e em novas formas de trabalho e negócio. Muitos jovens que vão estudar para fora, mas que têm o desejo de voltar para casa têm ideias inovadoras, que são viáveis no interior, que o iriam promover, mas a falta de apoios e o desacreditar por parte do executivo municipal naquilo que não é a forma típica tradicional faz com que estes jovens fujam para o litoral, e quem acaba por perder, uma vez mais, é o interior.

Porém, mais importante do que tudo isto, temos que falar aqui da abertura a questões sociais que fazem com que as ruas se tornem seguras para todas e para todos. Como vos disse há pouco cresci numa cidade rodeada de tabus, sendo um desses tabus o falar-se de feminismo tanto em casa como na escola.. As mulheres que fazem ativismo no interior são aquelas que se encontram na linha da frente de muitas das lutas ambientais com que trabalhamos, pois são elas que trabalham a terra, vivem da e na terra, são elas que se dão a cara e levantam a voz por exemplo na questão da mineração a céu aberto, querendo lutar por proteger as nossas zonas rurais, a sua gente, a nossa paisagem, a nossa agricultura, as nossas águas. 

Também a questão LGBTQIAP+ está automaticamente ligada ao feminismo, sendo esta mais um “não assunto” no interior. Continuamos a declarar cada vez mais cidades zonas livres, mas são necessárias ações que as concretizem, porque a homofobia não desaparece apenas por se declarar uma moção a dizer que “agora já aceitamos”, a homofobia vai-se combatendo através de ações de sensibilização, através de conversas com aquelas e aqueles que sentem na pele todos os dias o significado de preconceito, falar sobre o assunto e não empurrar para debaixo do tapete, provar que temos algo a dizer e que iremos continuar a resistir. 

Para isso é também necessário que as Juntas de Freguesia, as Assembleias Municipais e as Câmaras Municipais estejam lado a lado dos movimentos e coletivos que trabalham estas questões, pois sem estes últimos o interior irá continuar parado no tempo, ao invés de avançar. 

Para construir políticas mais inclusivas para o interior, políticas que resistem ao crescimento da extrema direita, da homofobia, do machismo, do negacionismo ambiental, é imperativo que se lembrem do interior sempre, não apenas quando necessário, é imperativo que as autarquias dos concelhos do interior estejam sempre junto das suas pessoas e que façam uma política que as sirva, que as oiça e que lhes dê espaço de fala. É acima de tudo acreditar na importância do ativismo, das pessoas que deles fazem parte, que apoiem os jovens que acreditam nas suas lutas e vão para a frente com elas. Porque mais do que dizer, é preciso fazer-se, ser-se proativo e acima de tudo resistir. Só assim iremos conseguir construir um interior que seja para todas e para todos, que não nos obrigue a sair e a não querer voltar, porque somos nós, as pessoas do interior que sabem o que é melhor para as suas terras e estamos muito mais acordados, muito mais vivos do que nunca. 

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Beatriz Realinho, de 20 anos, natural da Guarda. Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa, que irá tirar o mestrado em Estudo sobre as Mulheres: As Mulheres na Sociedade e na Cultura, na mesma instituição.

Faz parte de diversos movimentos e coletivos sociais, ambientais, LGBTQIAP+ e Feministas, sendo coautora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”. Atualmente encontra-se como candidata independente pelo Bloco de Esquerda à Junta de Freguesia da Guarda.

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