Na passada terça-feira, dia 16 de fevereiro, tornou-se público o relatório: “Estado de ódio: o extremismo de direita na Europa 2021”, realizado por três associações não governamentais do Reino Unido, Suécia e Alemanha que, num trabalho conjunto, mostram-nos como a pandemia, o isolamento social e a crise económica vieram mostrar ser um terreno fértil para o crescimento da extrema-direita em 32 países da Europa ao longo do ano de 2020. 

Esta pesquisa mostra-nos a forma como a pandemia, um fenómeno de calamidade e ameaça global, veio favorecer estes movimentos e posições mais extremadas assentes em teorias da conspiração. Com uma origem pouco clara, sem meios próprios de prevenção e de superação rapidamente favoreceu discursos de conspiração populistas aliados aos discursos de ódio emanados pelos grupos de extrema-direita. 

É neste ambiente atípico de calamidade e de desconhecimento do que nos rodeia junto com o medo e incerteza da eficácia das medidas de restrição adotadas, se erguem teorias conspiratórias contra os procedimentos de resposta pandémica, desde o uso de máscaras sociais, os confinamentos, as agendas de vacinação geradores de sentimentos de insatisfação e frustração com que a extrema-direita se vai alimentando. 

Através dos novos meios de comunicação social, da internet e das redes sociais, a propagação de teorias da conspiração e notícias falsas sobre a Covid-19, mostra ter um palco gratuito e extremamente facilitado. Estes espaços online em que atualmente grande parte da população tem acesso mostraram ser um dos recursos de eleição da extrema-direita para propagandear desinformação sobre a pandemia assim como a normalização de comportamentos de ódio, racistas, xenófobos e anti-LGBTI+, na esfera pública. 

Através do ataque a grupos mais vulneráveis conseguem atrair um público diverso e também disperso, regional e internacionalmente, favorecendo a criação de novos movimentos e a extensão da extrema-direita social. Segundo o relatório, para compreender a extrema-direita contemporânea e os perigos que esta representa, com as suas políticas de ódio e de divisão social, não basta dirigir o olhar para as nossas ruas, para a nossa comunidade ou país, mas mais olhar para a sua realidade além fronteiras: 

If we want to understand the dangers posed by the politics of hatred and division we can no longer just look at our street, our community or even our country, we must think beyond political parties, formal organisations and even national borders.” 

Quer para o bem como para o mal, hoje, estamos conectados globalmente, o que implica novos e redobrados esforços no que toca ao combate às forças da extrema-direita e suas narrativas de motivação ao terrorismo. 

Não só em 2020, mas ao longo dos últimos anos têm surgido por todo o mundo várias teorias da conspiração, claro está, desajustadas da realidade. Uma das que ganhou especial popularidade na Europa no último ano e que também chegou a Portugal, foi a teoria Qanon. Com origem nos EUA, defensora de Donald Trump enquanto salvador da pátria e da luta contra o mal, esta conspiração tem sido adaptada à realidade particular de cada país, tendo na realidade portuguesa defendido argumentos como a intenção do atual governo PS em querer estabelecer uma ditadura de extrema-esquerda no país; de Bill Gates ser responsável pela pandemia; da rede 5G estar relacionada com o coronavírus e sua propagação; ou da eficácia e função das vacinas se não o envenenamento de quem é administrado. 

Em Portugal 

Também em Portugal, a extrema-direita tem beneficiado com o ambiente de instabilidade e frustração social instalado pela pandemia Covid-19. Desde o fim do Estado Novo em 1974, Portugal, não tinha um partido de extrema-direita com representação parlamentar. Em 2019, André Ventura, líder do partido Chega, viria a romper com esse padrão de estabilidade democrática de 45 anos. Entre discursos assumidamente racistas, contra a comunidade cigana, LGBTI+-fóbicos e xenófobos, foi criando um ambiente propenso à violência com recurso ao ódio no país. 

Entre as propostas de política partidária que o partido Chega nos apresenta: a castração química a pessoas que tenham cometido crime de pedofilia, a remoção dos ovários a mulheres que tenham abortado, a perseguição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo defendendo valores de família tradicionais ou ainda a proibição da liberdade política de inspiração marxista, revelando uma intolerância aos principais partidos de esquerda portugueses. 

A narrativa anti-imigração e a crítica à receção de refugiados têm também sido tópicos ecoados pela extrema-direita portuguesa, fazendo associações entre terrorismo, a religião islâmica e os refugiados ou ainda mostrando querer remover imigrantes do acesso ao SNS português. 

Com o recurso a discursos de ódio e de agitação social, o partido tem mostrado ganhar notoriedade entre a camada eleitoral portuguesa. Em outubro de 2020, nas eleições regionais dos Açores, através da coligação com o Partido Social Democrata, reuniu condições de governo elegendo dois deputados e desta forma mostrando o primeiro passo para uma coligação governamental de extrema-direita a nível nacional. No espaço de um ano, segundo o relatório, o partido chega vê um aumento do percentual de eleitores de 1.29% em 2019 para 7.5% em 2020. 

Já em janeiro de 2021, no resultado das eleições presidenciais, André Ventura mostra ocupar um preocupante terceiro lugar, garantido com meio milhão de votos e com apenas uma diferença de 1% de Ana Gomes, a candidata antifascista que ficara em segundo lugar. 

Intitulando-se como um presidente de não todos os portugueses, mas apenas dos “portugueses de bem”, elevando o seu discurso de ódio e sectarista contra os grupos marginalizados do país, André Ventura mostrou beneficiar da cobertura mediática nacional que naturaliza o seu discurso de ódio e consequentemente levará a um maior número de episódios de violência racista encabeçados pela extrema-direita no país. 

Não nos esqueçamos da manifestação da extrema-direita com máscaras brancas e tochas, ao estilo da organização terrorista americana Ku Klux Klan, em frente à sede da SOS Racismo em Lisboa. Da vandalização de escolas, universidades e centros de refugiados. Do assassinato a Bruno Candé, em plena luz do dia nas ruas de Lisboa, pelo locutor racista que lhe teria dito para regressar à sua “Senzala”. Pela morte do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk por três agentes da polícia do Serviço de Estrangeiros e Fronteira no aeroporto de Lisboa, em março de 2020 e sem que até ao momento se tenham apurado as razões do crime. 

O que aqui se pretende reforçar, junto com a leitura deste completo relatório sobre a violação dos Direitos Humanos na Europa, é a necessidade de medir forças num momento tão particular como o da pandemia Covid-19 que, por medo e frustração sentida, vem dar paulatinamente razão a discursos de preconceito e distinção social em prol de um individualismo que ataca os valores da democracia e dos direitos sociais universais. Portugal, após mais de 40 anos de ditadura, de quase mais dias de ditadura que de democracia, volta a entrar nas teias do fascismo com o crescimento de movimentos de extrema-direita. Não permitamos que a história se repita. Sejamos vigilantes de radicalismos e discursos de ódio que contaminam os princípios democráticos do Estado Social, num tempo de ameaça. 

Permitam-me terminar com um pequeno poema de Sophia de Mello Breyner, 

Data 

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo da ameaça 

Sophia de Mello Breyner, do livro “Coral e Outros Poemas”

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Daniel Santos Morais, 26 anos, Mestre em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Licenciado em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Partilha a sua vida entre Coimbra e Viseu.

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