Porque sou de esquerda?

Se me perguntarem porque sou de esquerda…
Manifestação dos professores em Viseu (7/2/2023). Foto Interior do Avesso
Manifestação dos professores em Viseu (7/2/2023). Foto Interior do Avesso

Se me perguntarem porque sou de esquerda responderei que me é cada vez mais insuportável e revoltante a ideia de que uns, a grande maioria, estão condenados ao olvido, à invisibilidade, a ganharem a vida em empregos de merda que apenas os destroem enquanto paradoxalmente “ganham a vida”, a confundirem-se na multidão de rostos do quotidiano até desaparecerem de vez, a resignarem-se a nada esperarem para além de sobreviverem, a empurrar os dias com a barriga, enquanto outros, pela lotaria da existência, podem singrar ao lado do vencedores, dos que triunfaram, dos que subiram na hierarquia social, dos burgueses enfim.

A vida é a singularidade absoluta que acontece nesse intervalo entre o nascimento e a morte, e nenhum sistema social, económico e político deve sobrepor-se ao livre gozo dessa experiência radical e total que, como é óbvio, deve ou devia estar igualitariamente acessível a todos e todas. O debate político fundamental nunca se fica pela superfície das coisas, pelos assuntos mundanos, é mesmo um debate metafísico, um debate sobre aquilo que andamos para aqui a fazer e sobre qual a melhor maneira de passarmos essa oportunidade sem par que é o termos sido agraciados pela existência, essa verdadeira graça.

E a paixão pela liberdade deve sempre ser mais forte do que a paixão pela propriedade ou a paixão pela ordem ou pelo governo. E talvez todas as revoluções não principiem apenas com a revolta contra a ordem que nos foi outorgada, o “papel social” a que nos devemos conformar, mas, vinculada a esta sublevação, o desejo de não nos contentarmos apenas, e como nos canta o enorme Sérgio Godinho, “a paz, o pão, a saúde, a habitação…”.

Para além de tudo isto que nos é vital para podermos fazer tudo o resto, não nos contentamos com menos do que aquilo a que temos direito e que é o direito a tudo! E afinal só haverá “liberdade a sério quando houver….”.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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