Confinamento(s)

Prisão

Em tempo de ditadura, vivi duas experiências de confinamento com diferentes características. Em comum o facto de terem ambas a ver com uma escolha, dar um contributo para pôr fim a outros “confinamento(s)”, a ausência de Liberdade, de Pão e de Paz. Por Graça Marques Pinto (Magaça).

Durante a ditadura vivi duas situações de confinamento: a prisão e a clandestinidade. Embora de tipo diferente, estas experiências ensinaram-me a encontrar estratégias para combater o isolamento, a ausência de liberdade de movimentos e a saudade do convívio com as pessoas mais queridas. No período em que fui presa política, nove meses, passei por duas situações distintas. Numa primeira fase, o isolamento numa cela exígua, de onde só saía numa carrinha celular para ser sujeita a frequentes “interrogatórios” (leia-se torturas), na António Maria Cardoso, que duravam vários dias, e a passagem ao chamado “regime normal”.

No primeiro mês de prisão conjugaram-se vários fatores para que a sensação de solidão fosse particularmente dolorosa. Não tinha livros ou qualquer outro material para me ajudar a passar o tempo enquanto aguardava que a qualquer hora me viessem buscar para os interrogatórios, pelo que me aproximava das grades para acompanhar o movimento das pessoas que viviam num bairro de lata, à frente de Caxias. Era um precioso contributo para manter alguma sanidade mental.

Durante esse mês de interrogatórios, o meu estado de saúde física e mental foi-se degradando e fui internada, sob prisão, no Hospital da Ordem Terceira, junto à sede da PIDE/DGS, confinada ao quarto. Aí a situação era bem melhor. Para além de não estar sujeita a interrogatórios, logo que comecei a conseguir ler, as enfermeiras introduziam, sub-repticiamente, livros no meu quarto e partilhávamos vivências, o que gerou alguma cumplicidade.

Quando regressei a Caxias, levaram-me para uma cela com quatro beliches, ocupada apenas pela Maria João Lobo. Éramos bastante jovens, o que contribuiu, grandemente para amenizar a situação. Passávamos o tempo a engendrar formas de romper o confinamento e quebrar o regulamento prisional, mesmo no que concerne às tarefas diárias, como a limpeza da cela. Recordo aqui algumas que reconstituí com a ajuda da João:

“Em determinado momento, mandaram-nos limpar a cela dizendo que nos trariam os artigos de limpeza que pedíssemos. No dia seguinte, entregaram-nos um pacote de cera e uns panos para limparmos o chão. A cera foi toda gasta nessa grande limpeza. O chão ficou com uma camada grossa de gordura, baço e cheio de pegadas! As guardas ficaram horrorizadas. O pacote não era para gastar num dia mas sim para durar vários meses. Deram-nos então vários panos para puxar lustro e aproveitamos para colocar um debaixo de cada pé e patinarmos de um lado para o outro num chão que parecia uma pasta de manteiga!

Aproveitávamos os ‘recreios’ para levar connosco uma toalha e para aprendermos exercícios de judo, que seguíamos por um livro que a minha mãe nos levou. Claro que nada aprendemos, até porque o chão era em pedra e nos magoaríamos, mas, pelo menos, era uma hora de risos e brincadeira.

Apenas uma vez nos deixaram ir para o recreio que tinha dois ou três tanques para lavar a roupa. Era Verão e, nesse dia, vestimos por baixo da roupa os fatos de banho. Assim que lá chegamos enchemos os tanques e metemo-nos dentro a chafurdar e a atirar água uma à outra. Mandaram-nos sair dos tanques e dissemos que estávamos a lavar a roupa à nossa maneira”.

A João ajudou-me a aventurar-me em atividades como fazer croché, para que nunca tive qualquer vocação, e cheguei a confecionar individuais e uma cobertura para o bule de chá que enviei à família. No tempo diminuto em que tínhamos acesso a uma pequena placa elétrica que era entregue na cela, aprendi a confecionar cocadas que enviávamos para aos familiares, quando era possível. É certo que chegavam danificadas pela minuciosa vistoria dos carcereiros que procuravam hipotéticas mensagens. Mas chegavam. Por seu turno, a família e companheir@s de prisão faziam chegar-nos pequenas lembranças, como esculturas feitas de pão.

No plano da “intervenção política”, o desafio maior era comunicar através de pequenas pancadas na parede com outr@s pres@s polític@s. Por vezes, simulávamos uma altercação, elevando o tom de voz para que as guardas não ouvissem as pancadas na parede que, de acordo com o alfabeto, construíam palavras e, depois, pequenas frases. Tratava-se de obter informações sobre o nome e situação de outr@s companheir@s.

Conforme me lembrou a João,

“A meio de uma noite fomos acordadas por gritos no nosso piso e por correrias de pessoas – guardas, enfermeiros ou médicos – que passavam pelo corredor em direção a uma das celas. Esta abria-se e só ouvíamos uma mulher que gritava e dizia todo o tipo de palavrões o que nos deixava algo espantadas, por não ser propriamente o tipo de comportamento espectável de um preso político! Contudo, nunca pusemos em dúvida que o fosse. Estávamos em Caxias – só podia ser uma presa política que, por qualquer razão, estivesse a ser torturada naquele momento e naquele lugar. De todas as celas começaram a ouvir-se murros nas portas e toques repetidos e insistentes nas campainhas. Empurrámos a mesa de encontro à porta e, subindo, gritei pelos buracos que ficavam junto ao teto ‘coragem camarada’. Veio uma das guardas que abriu o postigo e que nos disse para estarmos caladas pois não era nada do que julgávamos. Claro que continuámos a bater na porta e a tocar a campainha até finalmente deixarmos de ouvir os gritos. Afinal ela estava a gritar ‘Tirem-me de ao pé das comunistas’. Era uma mulher próxima do regime, que tinha sido enviada para Caxias para não contar o que sabia. Só nos dias seguintes tivemos mais informações, pelas guardas e pelos nossos familiares, sobre o que se passou naquela noite. A rapariga durante o dia tinha pedido às guardas um espelho que não devolveu e, durante a noite, disse que o tinha partido e que tinha engolido bocados de vidro. A situação só acabou quando as guardas encontraram o espelho intacto e escondido em qualquer lugar da cela. Claro que no dia seguinte ela saiu de Caxias mas nada sabemos do que lhe aconteceu”.

Pequenos gestos assumiam, neste contexto, uma dimensão maior, a afirmação de que não nos dobravam. A minha mãe fez-nos chegar umas tshirts pintadas por ela com uma figura feminina que segurava um molhe de trigo e papoilas – alusão à Catarina Eufémia – uma mensagem subliminar de que não estávamos sozinhas e que a luta, lá fora, continuava. Foi com um sorriso rasgado que as vestimos, para nos deslocarmos ao parlatório onde tinham lugar as visitas. No confinamento em situação prisional, a sobrevivência anímica passa também por pequenas rebeldias. Era a forma de afirmarmos a nossa dignidade.

A segunda situação de confinamento, a clandestinidade, foi de cariz diferente. Aceitei, com convicção, o desafio de ser funcionária clandestina do PC para dar apoio à União dos Estudantes Comunistas no início de 1973. Senti-me muito orgulhosa da confiança que em mim depositavam. As condições de vida não eram fáceis, afastamento da família e amig@s, uma série de regras conspirativas a que tínhamos de obedecer para evitar que descobrissem quem éramos de facto, por trás de um nome e personagem falsos que tínhamos que construir todos os dias. Qualquer deslize que levantasse suspeitas poderia comprometer-me a mim e a outr@s camaradas.

As saídas eram as imprescindíveis e por pouco tempo para aquisição de bens alimentares e simulação de uma vida normal. Mas havia um companheiro e depois a minha filha Rita, que nasceu na clandestinidade, e as reuniões clandestinas na casa e a convicção de que estava a contribuir para a transformação do meu País e do Mundo. Também este confinamento me trouxe aprendizagens valiosas. Concentrar-me diariamente em pequenas, mas importantes, tarefas que asseguravam o funcionamento do aparelho clandestino.

Tinha um pequeno rádio e fazia transcrições das emissões da Rádio Portugal Livre, nomeadamente, no que concerne às vítimas da guerra colonial. Aprendi a dactilografar e a imprimir comunicados numa impressora artesanal e silenciosa, com stencils. A valorizar a pontualidade, a fazer a gestão dos parcos recursos na planificação de despesas, a cumprir escrupulosamente as regras conspirativas, para não me pôr a mim e restantes camaradas em perigo. Neste segundo confinamento, o que senti como mais doloroso foi o afastamento da família. Nas poucas cartas trocadas, enviadas através da rede de camaradas, não podia sequer fazer alusão à situação de clandestinidade (era suposto estar no estrangeiro) e não foi possível falar da gravidez e do nascimento da minha filha Rita. Depois do 25 de Abril “plantei-me” em casa com a minha filha nos braços, recebida pelos meus pais e irmãos com grande alegria.

Em tempo de ditadura, vivi duas experiências de confinamento com diferentes características. Em comum o facto de terem ambas a ver com uma escolha, dar um contributo para pôr fim a outros “confinamento(s)”, a ausência de Liberdade, de Pão e de Paz.

Graça Marques Pinto
28.04.2020

Durante as próximas duas semanas, entre o final de abril e a primeira quinzena de maio, o esquerda.net irá publicar um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento. Todos os testemunhos do projeto “Confinamento(s) em tempo de ditadura”, organizado por Mariana Carneiro, ficarão disponíveis aqui:
Confinamento(s) em tempo de ditadura

Outros artigos deste autor >

Maria da Graça Marques Pinto nasceu em 1950.
Foi eleita para a Assembleia Municipal de Viseu em 2005 e integrou listas do BE para a Câmara Municipal e para o Parlamento.
Foi membro da Coordenadora Distrital de Viseu, da Comissão Política e da Mesa Nacional do BE.
É ativista na SOS Racismo.

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