Precisamos de uma nova visão do envelhecimento que potencie a vida activa e a inserção na vida social e da vontade política para agir em conformidade.

É sabido que a percentagem de pessoas idosas em Portugal tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Para esta realidade contribuiu o aumento da esperança de vida graças, nomeadamente, aos cuidados assegurados pelo Serviço Nacional de Saúde, bem como a emigração de jovens no período em que a direita esteve no poder.
No entanto, as respostas às necessidades físicas e psíquicas deste sector da população continuam longe de proporcionar a sua qualidade de vida e autonomização. Acresce que os fracos rendimentos e o isolamento de um grande número de pessoas idosas continuam a constituir um verdadeiro flagelo social.
Em 2018, a GNR sinalizou 45.563 idosos a viverem sozinhos ou isolados em todo o país, a maioria deles nos distritos de Vila Real, Guarda, Viseu, Beja, Bragança, Faro e Portalegre.

Este levantamento pecará, certamente, por defeito, mas, desde logo, resulta claro que o isolamento se faz sentir de forma mais preocupante no interior.

A verdade é que as alternativas sociais perspectivadas até ao momento continuam a basear-se na institucionalização das pessoas em lares a rebentar pelas costuras e que, para além de não darem vazão à crescente procura, não representam uma solução que garanta a necessária qualidade de vida.
Independentemente das razões que levam o idoso à institucionalização, é-lhe exigido o abandono do seu espaço, obrigando-o a integrar-se num meio que lhe é limitativo e que, em muitos casos, assume o controlo de muitos aspectos da sua vida. De facto, estudos feitos a várias instituições que acolhem idosos mostram que as mesmas, para além de retirarem toda a privacidade aos seus utentes, promovem uma extrema dependência e inatividade, que, por sua vez, potenciam uma maior incapacidade física e mental.

Face a esta realidade, têm surgido projectos de coabitação sénior em Portugal que, à semelhança do que acontece em muitos países europeus, promovem “aldeias” sénior em zonas rurais ou urbanas. Nestes locais, as pessoas desfrutam de habitação própria, mas vivem em regime colaborativo, numa espécie de “república”, usufruindo de espaços de atividade e convívio comuns e do apoio de equipas multidisciplinares.

Esta é, a meu ver, a melhor alternativa para quem mantém autonomia e considera importante continuar “senhor/a da sua vida” e com actividade social, pelo que deveria ser abraçada pelo Estado, por forma a garantir o acesso à qualidade de vida de todas as pessoas, independentemente do seu extrato económico e social, ou contexto familiar.
Num interior desertificado, esta oferta constituiria, também, uma forma de dar vida a muitas aldeias e vilas e de fixar jovens técnicos que revigorariam o seu tecido social. Por outro lado, a alocação de meios financeiros à assunção desta opção não representaria um aumento de custos, já que iria libertar muitas verbas canalizadas para a institucionalização precoce.
Precisamos de uma nova visão do envelhecimento que potencie a vida activa e a inserção na vida social e da vontade política para agir em conformidade!

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Maria da Graça Marques Pinto nasceu em 1950.
Foi eleita para a Assembleia Municipal de Viseu em 2005 e integrou listas do BE para a Câmara Municipal e para o Parlamento.
Foi membro da Coordenadora Distrital de Viseu, da Comissão Política e da Mesa Nacional do BE.
Atualmente faz parte da Comissão concelhia de Viseu do Bloco de Esquerda.

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