Podemos colocar o problema do seguinte modo: qual é a forma positiva da classe trabalhadora? Como e quando ela se inscreve na vida política enquanto classe e/ou sujeito político? Perante este problema coloca-se um “ou…ou…” peculiar que tenderá, pelo menos ideologicamente, a capturar os destinos do proletariado enquanto sujeito político (se é que o proletariado é de facto um sujeito político).

A verdade é que o proletariado ou se constitui – retomando uma tradição hermenêutica que podemos remontar pelo menos a Sartre – como classe de forma negativa enquanto objeto da exploração burguesa, ou na sua forma depurada digamos de tipo bolchevista, da qual Lenine surge na linha da frente enquanto seu ideólogo. Quer dizer, quando o proletariado se faz representar positivamente enquanto classe, na verdade não é o proletariado que lá está, mas uma representação sublimada deste, expressa historicamente na figura do partido – do partido único leninista. A universalidade não faz parte do conceito do proletariado, ainda que o conceito de classe tenda a se fechar num determinado universal, em representar concetualmente um determinado conjunto de objetos. Porque o proletariado, como Rancière nos lembra, é somente aquele que se reproduz, que reproduz a sua liberdade, isto é a sua não-pertença, a sua não-parte relativamente à distribuição político-policial de todas as partes, o excedente constitutivo de toda a sociedade, o resíduo de toda a possibilidade político-policial. Na sua capacidade, na sua potência de reprodução ilimitada concentra-se todo o seu excesso relativamente à ordem constituída, todo o seu poder. Não só a capacidade de reprodução da força do trabalho que serve de alimento à exploração burguesa, como a capacidade positiva de continuar a reproduzir o excesso, isto é, a imaginação, a resistência, a subversão, o próprio poder físico, a força. Quando o proletariado se constitui em classe, enquanto sujeito político, nesse gesto político não se permite em esgotar toda a sua multiplicidade, toda a sua resistência à constituição de uma unidade artificial, de um corpo comum (Zizek).

O que nos falta é ultrapassar esse limiar que distingue as relações sociais em classes, que as constitui em classes antagonistas. Porque a burguesia não existe senão por meio da exploração da classe trabalhadora e da sua relação com a propriedade. Do mesmo modo que a classe trabalhadora, enquanto classe, enquanto categoria universal, não existe senão por via da sua condição de explorado, de oprimido e de expropriado. Esse limiar não é um conceito meramente idealista, derivado de alguma tradição “humanista” que visasse ressuscitar a solidariedade interclassista à maneira dos sociais-democratas ou fazer a demonstração cristã do éden na terra enquanto eticidade (Hegel). Se é certo que este gesto de transgressão revolucionária – a derradeira revolução – depende exclusivamente da rutura com esse “limiar”, com essa fronteira que faz da história a história da luta de classes, este gesto necessariamente precisa de se inscrever materialmente, precisa de romper com o Estado e com a propriedade (seja pública, seja privada). É só um limiar, e, no entanto, é tudo, é o mundo, é a vida.

É este limiar, este bloqueio simbólico e estrutural, esse “barramento”, que faz das nossas sociedades realidades opressivas, existencialmente distorcidas, existencialmente limitadas. Onde o encontro com o outro é constitutivamente distorcido pelas hierarquias, pela desigualdade na distribuição da riqueza, pela exploração de uma classe por outra, pela diferença de género, pelo racismo, por todo o tipo de categorizações sociais que definem todo a espécie de interpelação ideológica (Althusser).

Falamos de um limiar, de uma barreira ideológica e material, que está inteiramente presente e que marca as relações sociais rotineiras. Não de uma força inelutável, de um poder transcendente, de uma necessidade de ordem metafísica. Um limiar que se reconhece muitas vezes como sintoma, seja quando questionamos a autoridade (não importa a sua fonte de legitimação), seja quando procuramos fazer reconhecer a igualdade face ao outro que no-la recusa, seja por esses momentos em que somos tomados por malcriados, insolentes ou subversivos. Porque transgredir o limiar é transgredir essa barreira que reproduz a ficção da desigualdade, e o limiar é tão ténue e precário quanto a possibilidade da violência anárquica, da violência ilimitada, da guerra de todos contra todos. Retomando Thomas Hobbes o medo da morte violenta é a primeira e última fronteira do limiar.

Contrariamente às teses da metanarrativa da teoria crítica a transformação revolucionária não requer o auxílio da violência sagrada, de um poder transcendente que vem desfigurar a contingência, a instanciação temporal do real. O tempo dos homens e das mulheres capturado pelo poder é o tempo cristalizado que a tradição revolucionária (digamos clássica) acaba por contribuir para a sua perpetuação, porque amarra os limites de todo o projeto de transformação radical do social aos limites da contingência, dessa instanciação temporal. Para a tradição revolucionária clássica não há revolução possível sem esse operar sobre a contingência (a instanciação do real). Mas o limiar habita desde logo e desde sempre as relações entre os homens e mulheres, é imanente a estas relações, é um nada que é tudo e um tudo que é nada, que precisa de apenas uma deslocação, uma rutura, que desfaça a ordem do mundo ou a restaure. Porque o mundo cristalizado, o mundo da instanciação contingente do social, é o mundo às avessas, o mundo ideológico, da reprodução sintomática de uma falsa unidade que escamoteia a radicalidade do antagonismo social ou de uma falsa universalidade que escamoteia a reprodução continuada do múltiplo do qual o proletariado é o seu sujeito.

O propalado discurso populista (de direita ou de esquerda) é o discurso de ritualização do limiar, daquilo que cinde o mundo em dois, o “nós” e o “eles”. É claro que o “eles” já somos nós subtraído o limiar, essa força política que distorce a composição do real social. Mas o que constitui o limiar senão as relações de propriedade e a sua superestrutruração ideológica? A fórmula política do fascismo representa a derradeira e extrema tentativa de forçar a unidade política (nacional) recalcando a dimensão do limiar. O comunismo é a ideia de uma comunidade política sem o limiar, sem esse dano (o famoso tort de Rancière) que faz da divisão social o antagonismo radical, a luta existencial pelo mundo, pela exploração dos recursos naturais e humanos, pela ordem social, política e económica, pela classe que deve levar a cabo essa tarefa, em suma, pela figura histórica que a exploração do homem pelo homem deve historicamente assumir.

O processo revolucionário não é um processo excecional na história da humanidade, nem a solução final para a acumulação das contradições socioeconómicas. O processo revolucionário não inaugura nenhuma nova era, nenhuma nova contingência, que o futuro necessariamente acabara por extinguir, o processo revolucionário não desembocará necessariamente numa nova composição do mundo. O processo revolucionário não tem uma matriz escatológica, não é a realização de nenhum poder transcendente nem pertence à ordem do sagrado. O processo revolucionário é imanente à vida e está em permanente constituição ontológica. Não há sujeitos com missão revolucionário predeterminados historicamente, o que há é o modo como os sujeitos se relacionam face ao limiar, e se tomam para si a coragem para o superar ou não. O limiar define a forma das relações sociais e tal definição vai determinar o que há de substancial nessas relações: primeiro a assimetria, a desigualdade, depois o ressentimento, o medo. A forma-capitalista dá origem à destruição ambiental, às desigualdades socioeconómicas, às guerras…

O limiar está aí pela vez da igualdade radical, da igualdade política. É o que faz do empregado um empregado e de um patrão um patrão, de um trabalhador indiferenciado um trabalhador indiferenciado e de um operário qualificado um operário qualificado. À reprodução da hierarquia, com as suas cada vez mais amplas e complexas ramificações verticais e horizontais, segue-se a reprodução de novos limiares, de novas distorções nas relações sociais. A “atualização da igualdade” (Rancière) é o que vai perturbar a ordem estabelecida com a sua estruturação hierárquica. A igualdade radical em atualização é a igualdade política que desfaz todos os limiares que sustentavam a ficção desigualitária.

Cruzar a história para nos fazermos sujeitos emancipados, isto é, sujeitos do aqui e agora. O que nos falta para o comunismo está a um passo do limiar.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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