Está aí, na ordem do dia, a discussão sobre eventual excesso no uso da força física por parte da Polícia (no caso, um agente da PSP) sobre uma cidadã da Amadora, a partir de uma mera altercação entre uma utente de um autocarro e o motorista deste (1).

Há pouco mais de um ano, em Setembro de 2018, veio a público a situação de acusação de um vereador da Câmara Municipal do Porto (CMP) por ter substituído uma técnica, como representante desta autarquia na CPCJ, em retaliação pelo facto de o marido dessa técnica ter escrito, no jornal Público, um artigo a criticar a CMP (2).

No passado mês de Dezembro, soube-se que, em França (Paris), o director e dois dos seus subordinados directos de uma das maiores empresas francesas (ex- France Télécom, agora Orange, SA) foram condenados a prisão efectiva por prepotência (“assédio moral institucional”, com a criação de um ambiente de tensão e de medo) na gestão da empresa, o que foi conexado com o suicídio, ou tentativa de suicídio, há mais ou menos dez anos, de 35 ex-trabalhadores daquela empresa (3).

Em três diferentes contextos, domínios, tempos, espaços e modos, estes são apenas trêscasos conhecidos (muitos houve, há e haverá que nunca se chegarão a conhecer publicamente) do que por aí “vemos, ouvimos e lemos” quanto a situações sintomáticas de manifesta degeneração no (ab)uso do poder, de vários tipos de poder.

 

“Não podemos ignorar” essas situações, não só por causa do risco para o qual, há muitos anos, nos avisou um tal Lord Acton (“o poder corrompe”), mas também porque podem ser sintomáticas de uma patologia pessoal, grupal e social que (ainda) não é assim tão pouco epidémica como toda a gente supõe: a poderose. Talvez convenha, por questões de saúde (especialmente de saúde da Democracia), desenvolver um pouco a reflexão “clínica” sobre esta patologia.

A poderose é uma doença cujos sintomas são atitudes e comportamentos poderóticos. Há muitas causas de desencadeamento da poderose. Uma para a qual a actualidade nos está aí na ordem do dia a chamar a atenção é a disseminação da poderose ao nível profissional no sentido da confusão (e coerente prática) entre autoridade e autoritarismo. O exercício de poderes de autoridade como instrumento de interesse e serviço público, se passar de algum modo ao abuso desses poderes, degenera numa variante da poderose: o autoritarismo. É a confusão entre, por um lado, dever estar (exercer) autoridade em função de e conforme a natureza, gravidade e dimensão das circunstâncias de interesse público em causa, (só) como estritamente instrumental da sua profissão (e normas que a regem) e, por outro, como ser-se estruturalmente, “congenitamente”, seja em que circunstâncias, para que efeito e em que grau e modo forem, uma “autoridade”.

 

É certo que neste domínio (profissional) importa saber se esta “confusão” autoritária tem uma explicação apenas de ordem individual (que, de qualquer modo, em maior ou menor grau, sempre tem, sem dúvida) ou, também, de ordem institucional ou organizacional (por exemplo, no quanto pode ser factor desta degeneração ao nível individual da autoridade para o autoritarismo erros, omissões ou insuficiências nos domínios do recrutamento, selecção, integração, formação profissional ou condições de trabalho). Ou, mesmo, se tem explicações de ordem contextual ou de enquadramento mais alargadas.

De qualquer modo, nestes casos, uma resposta “clínica” de urgência se impõe a este tipo de poderose: o exercício desses poderes de autoridade deve ser … desautorizado.

Uma outra causa de possível geração da poderose, ainda no campo profissional mas também muito no ambiente político, é a da confusão entre serviço e poder. Nesta variante, o poderótico deixa de compreender a investidura num poder como devendo ser de (pelo) serviço (social ou público) e passa ao exercício de tal poder como (pelo) poder, ou seja, (ab)usando-o como instrumento de mais (mero) poder pessoal ou grupal.

Um dos factores de agravamento da poderose é o de esta, eventualmente, ser alimentada por subserviência(s). A subserviência é um comportamento que é sintoma de uma outra patologia da família (patológica, claro) da poderose: a subserviose. Aliás, não é raro haver casos patológicos com mutações rápidas entre estas duas patologias. O doente indicia sintomas de poderose (de prepotência) quando se encontra num plano mais elevado e mostra comportamentos subservióticos (de subserviência) quando se encontra num plano mais rasteiro.

 

Outras mutações da poderose mais estruturais são, por exemplo, da autoridade para o autoritarismo como já se referiu mas, em escala, para o despotismo. Nesta variante, o despotismo “iluminado”, embora não pareça, é especialmente perigoso, sobretudo o de “iluminação” económica ou tecnocrática, muito embora, por vezes, até o de iluminação académica (degenerada) também se apresente preocupante. Há mesmo casos, muito difíceis de detectar (e de tratar) em que a poderose “maligna” se apresenta disfarçada em patologias “benignas” da mesma família que, aparentemente, são o contrário da poderose. Por exemplo, o porreirismo e o paternalismo.Estas situações patológicas são detectáveis com muita atenção a doentes cujos sintomas alternam entre comportamentos poderóticos para com certos interlocutores e comportamentos de paternalismo e ou porreirismo (e até de laxismo) para com outros interlocutores.

Do ponto de vista de consequências exógenas da poderose (repercussões no ambiente onde se manifesta e propaga), esta pode classificar-se:

– ao nível micro, poderose pessoal (por exemplo, a violência doméstica) e poderose profissional (por exemplo, o assédio moral associado ao trabalho sobre determinado trabalhador subordinado ou, até, colega);

– ao nível meso, poderose organizacional, poderose empresarial, poderose departamental, poderose ministerial;

– ao nível macro, poderose social, poderose económica, esta mais conhecida por monopólio;.

-ao nível (mais) global, poderose internacional e mesmo mundial, esta também conhecida por imperialismo.

Do ponto de vista da natureza processual e contextual da poderose, podemos falar, por exemplo (não exaustivos), em poderose laboral, poderose académica, poderose financeira, poderose “política” (com aspas e em minúsculas, sendo que estas, depreciativas da palavra, decorrem de a poderose retirar o mérito, dignidade e reconhecimento social e cívico que essa palavra – Política – genuinamente, em si, nos deve merecer).

 

Deste último tipo (poderose “política”), refiram-se em duas grandes espécies: poderose “governamental” e poderose “autárquica” (também em minúsculas e com aspas), tipos de poderose que (ainda) têm significativa propagação, apesar de uma drástica defenestração desencadeada na Primavera de há quase 46 anos.

Aliás, esta última, a “autárquica”, merece algum destaque, porque, mais em geral, há registo de uma significativa disseminação em certas áreas do país e em certas épocas ou anos, não se sabendo ainda bem se é pertinente a hipótese de a causa estar na água, na precipitação pluvial ou na velocidade do vento nesses períodos zonas.

Ainda quanto a esta variante, a poderose “política”, interessa referir que pode ou não ser congénita ao(s) poderótico(s). Não o sendo, em regra, pode começar a gerar-se (e, depois, a degenerar-se) com nomeações mas tem havido casos, embora com períodos de latência mais prolongados, de a origem, depois degenerada, ter estado em eleições.

O tratamento básico da poderose é elementar: prolongado descanso, fora do … poder. Contudo, a História garante-nos que, em certos casos muito graves e críticos de poderose, houve que recorrer a tratamentos mais drásticos e a técnicas mais invasivas.

Como, por exemplo, espadeirada, fuzilamentos e, mesmo, pelo menos em dois casos célebres, históricos, à guilhotina. Enfim, conclusão a destacar preventivamente, de profilaxia, é a de que o poder tem que ter um permanente acompanhamento social. Com análises (e auto-análises) pessoais, familiares, grupais, profissionais, organizacionais, institucionais, sociais, políticas. Análises informadas, conscientes, atentas, participadas.

Quando não, como decorre do que precede, assente em muito (demasiado) material empírico, há o risco de o poder (qualquer poder, inclusive um poderzinho), “corrompendo”, degenerar em poderose.

 

1 “Polícia acusada de espancar mulher porque filha menor viajava sem passe” – Esquerda.net –

2 “Perguntas a Rui Moreira sobre uma retaliação em curso” 

3 “Sentença histórica em França: France Télécom e dirigentes condenados por assédio moral” 

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Nascido em Santa Cruz da Trapa (São Pedro do Sul) em 23-08-1946. Licenciado e com pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho. (ISLA e Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto). Inspector do trabalho (aposentado). Escreve no Público, Esquerda.Net, Gazeta da Beira, Monde Diplomatique (EP) e revistas especializadas na área do Trabalho.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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