O estado de crise é imanente às sociedades modernas, industriais ou pós-industriais. Não é algo contingente ou acidental, é a essência das nossas sociedades. Além disso é através da crise que a política ganha legitimidade, que se torna necessária. É diante da vertigem da crise que o poder se precipita, sai da sua latência para passar a ato. É como se as sociedades só existissem pela crise, que encontrassem na crise o seu fundamento, a razão para não se dissolverem, para não ingressarem nesse distópico estado de guerra de todos contra todos. É assim com a crise financeira, a crise ambiental, a crise energética, a crise humanitária, a crise dos refugiados…

Sem a crise a força política, a sua potência, não encontra espaço para se desenvolver, para se exibir enquanto força, enquanto poder. A crise é o catalisador da política. A política encontra a justificação para os seus atos na resolução dos problemas criados pela crise. O ponto não é se as crises são fabricadas ou não, se são artificiais ou não, o ponto é que as sociedades modernas não existem sem a crise e a política não encontra legitimidade senão por meio das sucessivas crises. Enfim, a sociedade moderna precisa das crises. Só o estado de crise permite o desenvolvimento das sociedades, mais, só através da crise o sentido comunitário se pode consolidar e preservar sem correr o risco de se dissolver. 

A dimensão da crise não é exogénea mas endógena às sociedades contemporâneas. As sociedades contemporâneas não provocam apenas crises, são a crise, vivem em crise, em sentido lato são a causa e não apenas o efeito da crise. Este existir em crise, este ser em crise, é fomento desse “mal-estar civilizacional” (Freud) de uma existência coletiva em dissonância com o ritmo da Natureza, desenraizada do seu próprio solo natural. Como se os homens e mulheres na civilização a um tempo pertencessem e não pertencessem às sociedades a que dão corpo e substância. É como se os homens e mulheres organizados na sociedade moderna só pudessem sobreviver individual e coletivamente através da violência, pela vivência da violência, uma violência radical no sentido em que é ela própria a fonte da possibilidade da civilização. Uma violência tornada necessária, tornada política, para que a sociedade se consiga impor num meio que lhe é irredutivelmente e extremamente hostil: a Natureza.     

No limite da gestão da crise, ou da eliminação do estado de crise, está o extermínio. A já clássica definição da política como a “arte de distinguir o amigo do inimigo” (Carl Schmitt), da definição dos que estão dentro e dos que estão fora do alcance do poder, do seu império; a geometria da política como relação variável entre a inclusão e a exclusão, entre os que tomam parte e os sem-parte, é o primeiro estádio, a primeira demonstração do poder político: o poder de discriminar. A evolução da política, a demonstração da sua eficácia reside nessa sua capacidade imanente e autorreferencial de definir e defender fronteiras: sejam elas económicas, nacionais, étnicas ou outras. A exterminação é o limite, a solução final para uma conceção da política como demonstração de um poder ilimitado, sem fronteiras. A sociedade totalitária é a sociedade que se desfez de todos os seus inimigos (nomeadamente partindo da realidade concentracionária), é a sociedade elevada a comunidade ética, a sociedade em que cada um dos seus membros age como organicamente enraizados num corpo único, um corpo sem exterior.

Neste sentido, o problema, do ponto de vista político e não meramente da perspetiva do historiador, não é tanto o elencar as peculiaridades históricas que produziram a ideologia nazi e conduziram à Shoah, mas analisar o que há no desenvolvimento das sociedades modernas que lhe permitem novos genocídios. O que há de perturbante, de traumático nas sociedades modernas, nas sociedades nas quais vivemos, é exatamente o vínculo íntimo entre a pulsão totalitária imanente à política, ao poder, ao império, e a possibilidade de exterminação. O que há de rememorável no holocausto, em Auschwitz, é que tudo-pode-acontecer-outra-vez. É por esta possibilidade chocante que o holocausto não se permite em se esvaziar historicamente, em se tornar obsoleto ou anacrónico. Não, tudo pode acontecer outra vez. O holocausto, a exterminação, a “solução final”, não é tanto uma figura do irrepresentável como uma categoria política das nossas sociedades, uma categoria a que as forças sociais modernas deram fundamento. Afinal medimos a nossa evolução enquanto sociedade tendo em conta o horror, a perturbante equação entre as nossas conquistas civilizacionais e o grau de violência por nós provocado para as obtermos. 

Tudo pode voltar a acontecer. É talvez nesta frase que se condensa toda a atualidade, toda a pertinência, toda a contemporaneidade do holocausto. Este não é apenas um ponto, uma fenda ou uma falha na história ocidental, do seu “progresso”. Não é um evento que ficara “lá atrás” no tempo, quer sob a forma de uma vírgula ou de um ponto final. É a imanência da história moderna, uma possibilidade inscrita no próprio desenvolvimento dos povos. Na verdade estamos sempre demasiado próximos para que tudo possa voltar a acontecer. 

A exterminação total continua a ser uma possibilidade que a queda do III Reich não eliminou, pelo contrário, a exterminação – pelo menos do ponto de vista da sua economia, da sua materialidade – é hoje ainda mais fácil do que naquela época. O cisma é aqui inteiramente político. Como evitar o extermínio? Como evitar que as forças sociais desemboquem no extermínio? O ponto é que a possibilidade de extermínio é uma possibilidade inteiramente real a que a política pode ou não dar corpo. 

As “razões do holocausto” não se encontram do lado das vítimas, porque estas estão inocentes. Da parte do povo exterminado só a perplexidade, a incompreensão. Por isso talvez tenha sido tão difícil convencer o mundo do extermínio enquanto este se consumava, e talvez também aqui se encontre o nó górdio do negacionismo. Afinal os inocentes em vias de exterminação não podem responder a perguntas aparentemente tão simples e lógicas como: “Porquê?”, “Porquê eu?”, “Porquê nós?”. A violência radical de que são vítimas é-lhes inexplicável, inacessível do ponto de vistas da sua compreensão, das suas razões, dos seus motivos. Se pretendemos “explicar”, isto é, acercarmo-nos dos pérfidos mecanismos que precipitaram o holocausto antes temos de nos colocar do lado dos carrascos, dos mecanismos do poder que conduziram – como que inexoravelmente – a esta violência sem paralelo.

A memória do holocausto não é só a causa judaica – o que obviamente bastaria – é a causa universal na luta contra o politicamente desmesurado, contra a perda de controlo sobre a política. Porque a verdade sobre o genocídio, sobre a realidade concentracionária, sobre o holocausto, está do lado do Poder, do Poder em movimento, em definição, em expansão. É urgente compreender que a degeneração do Poder, da política, em extermínio é a própria degeneração dos povos, da sua potência política, é a degeneração da política pervertida pelo Mal, convertida em instrumento do Mal. Quando a política deixa de ser reflexo da potência da igualdade em ato, para ser a encarnação do Mal.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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