75 anos depois de Auschwitz: o extermínio como solução política final

O estado de crise é imanente às sociedades modernas, industriais ou pós-industriais. Não é algo contingente ou acidental, é a essência das nossas sociedades. Além disso é através da crise que a política ganha legitimidade, que se torna necessária. É diante da vertigem da crise que o poder se precipita, sai da sua latência para passar a ato. É como se as sociedades só existissem pela crise, que encontrassem na crise o seu fundamento, a razão para não se dissolverem, para não ingressarem nesse distópico estado de guerra de todos contra todos. É assim com a crise financeira, a crise ambiental, a crise energética, a crise humanitária, a crise dos refugiados…

Sem a crise a força política, a sua potência, não encontra espaço para se desenvolver, para se exibir enquanto força, enquanto poder. A crise é o catalisador da política. A política encontra a justificação para os seus atos na resolução dos problemas criados pela crise. O ponto não é se as crises são fabricadas ou não, se são artificiais ou não, o ponto é que as sociedades modernas não existem sem a crise e a política não encontra legitimidade senão por meio das sucessivas crises. Enfim, a sociedade moderna precisa das crises. Só o estado de crise permite o desenvolvimento das sociedades, mais, só através da crise o sentido comunitário se pode consolidar e preservar sem correr o risco de se dissolver. 

A dimensão da crise não é exogénea mas endógena às sociedades contemporâneas. As sociedades contemporâneas não provocam apenas crises, são a crise, vivem em crise, em sentido lato são a causa e não apenas o efeito da crise. Este existir em crise, este ser em crise, é fomento desse “mal-estar civilizacional” (Freud) de uma existência coletiva em dissonância com o ritmo da Natureza, desenraizada do seu próprio solo natural. Como se os homens e mulheres na civilização a um tempo pertencessem e não pertencessem às sociedades a que dão corpo e substância. É como se os homens e mulheres organizados na sociedade moderna só pudessem sobreviver individual e coletivamente através da violência, pela vivência da violência, uma violência radical no sentido em que é ela própria a fonte da possibilidade da civilização. Uma violência tornada necessária, tornada política, para que a sociedade se consiga impor num meio que lhe é irredutivelmente e extremamente hostil: a Natureza.     

No limite da gestão da crise, ou da eliminação do estado de crise, está o extermínio. A já clássica definição da política como a “arte de distinguir o amigo do inimigo” (Carl Schmitt), da definição dos que estão dentro e dos que estão fora do alcance do poder, do seu império; a geometria da política como relação variável entre a inclusão e a exclusão, entre os que tomam parte e os sem-parte, é o primeiro estádio, a primeira demonstração do poder político: o poder de discriminar. A evolução da política, a demonstração da sua eficácia reside nessa sua capacidade imanente e autorreferencial de definir e defender fronteiras: sejam elas económicas, nacionais, étnicas ou outras. A exterminação é o limite, a solução final para uma conceção da política como demonstração de um poder ilimitado, sem fronteiras. A sociedade totalitária é a sociedade que se desfez de todos os seus inimigos (nomeadamente partindo da realidade concentracionária), é a sociedade elevada a comunidade ética, a sociedade em que cada um dos seus membros age como organicamente enraizados num corpo único, um corpo sem exterior.

Neste sentido, o problema, do ponto de vista político e não meramente da perspetiva do historiador, não é tanto o elencar as peculiaridades históricas que produziram a ideologia nazi e conduziram à Shoah, mas analisar o que há no desenvolvimento das sociedades modernas que lhe permitem novos genocídios. O que há de perturbante, de traumático nas sociedades modernas, nas sociedades nas quais vivemos, é exatamente o vínculo íntimo entre a pulsão totalitária imanente à política, ao poder, ao império, e a possibilidade de exterminação. O que há de rememorável no holocausto, em Auschwitz, é que tudo-pode-acontecer-outra-vez. É por esta possibilidade chocante que o holocausto não se permite em se esvaziar historicamente, em se tornar obsoleto ou anacrónico. Não, tudo pode acontecer outra vez. O holocausto, a exterminação, a “solução final”, não é tanto uma figura do irrepresentável como uma categoria política das nossas sociedades, uma categoria a que as forças sociais modernas deram fundamento. Afinal medimos a nossa evolução enquanto sociedade tendo em conta o horror, a perturbante equação entre as nossas conquistas civilizacionais e o grau de violência por nós provocado para as obtermos. 

Tudo pode voltar a acontecer. É talvez nesta frase que se condensa toda a atualidade, toda a pertinência, toda a contemporaneidade do holocausto. Este não é apenas um ponto, uma fenda ou uma falha na história ocidental, do seu “progresso”. Não é um evento que ficara “lá atrás” no tempo, quer sob a forma de uma vírgula ou de um ponto final. É a imanência da história moderna, uma possibilidade inscrita no próprio desenvolvimento dos povos. Na verdade estamos sempre demasiado próximos para que tudo possa voltar a acontecer. 

A exterminação total continua a ser uma possibilidade que a queda do III Reich não eliminou, pelo contrário, a exterminação – pelo menos do ponto de vista da sua economia, da sua materialidade – é hoje ainda mais fácil do que naquela época. O cisma é aqui inteiramente político. Como evitar o extermínio? Como evitar que as forças sociais desemboquem no extermínio? O ponto é que a possibilidade de extermínio é uma possibilidade inteiramente real a que a política pode ou não dar corpo. 

As “razões do holocausto” não se encontram do lado das vítimas, porque estas estão inocentes. Da parte do povo exterminado só a perplexidade, a incompreensão. Por isso talvez tenha sido tão difícil convencer o mundo do extermínio enquanto este se consumava, e talvez também aqui se encontre o nó górdio do negacionismo. Afinal os inocentes em vias de exterminação não podem responder a perguntas aparentemente tão simples e lógicas como: “Porquê?”, “Porquê eu?”, “Porquê nós?”. A violência radical de que são vítimas é-lhes inexplicável, inacessível do ponto de vistas da sua compreensão, das suas razões, dos seus motivos. Se pretendemos “explicar”, isto é, acercarmo-nos dos pérfidos mecanismos que precipitaram o holocausto antes temos de nos colocar do lado dos carrascos, dos mecanismos do poder que conduziram – como que inexoravelmente – a esta violência sem paralelo.

A memória do holocausto não é só a causa judaica – o que obviamente bastaria – é a causa universal na luta contra o politicamente desmesurado, contra a perda de controlo sobre a política. Porque a verdade sobre o genocídio, sobre a realidade concentracionária, sobre o holocausto, está do lado do Poder, do Poder em movimento, em definição, em expansão. É urgente compreender que a degeneração do Poder, da política, em extermínio é a própria degeneração dos povos, da sua potência política, é a degeneração da política pervertida pelo Mal, convertida em instrumento do Mal. Quando a política deixa de ser reflexo da potência da igualdade em ato, para ser a encarnação do Mal.

Outros artigos deste autor >

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts
Assembleia Aberta Viseu
Ler Mais

O que faz falta!?

Tem sido prática no BE Viseu ouvir as pessoas para perceber o que faz falta no nosso Concelho.…
Ler Mais

FOI PARA ACABAR COM A GUERRA QUE SE FEZ O 25 DE ABRIL!

"Ficou-nos a PAZ! O que não é pouco; é quase tudo! O que começou por ser um golpe de Estado e que acabaria por se transformar numa revolução (fugaz como quase todas as revoluções que se deixam iludir pelas canções de embalar da resistência insidiosa das classes desapossadas temporariamente do poder, que nos mandaram para casa, que eles tratavam da ordem e progresso), deve a sua origem à luta vitoriosa dos povos das ex-colónias africanas, que combateram durante 13 anos pela sua liberdade e independência."
Ler Mais

A PAC também nos diz respeito

Foto de Miguel Angel Masegosa | Flickr A Política Agrícola Comum também nos diz respeito. Mais ainda quando…
Skip to content