Foto de Nuno Mourão | Flickr

O comboio parou na minha estação de destino, mas eu não saí… fui direito a Oliveirinha e continuei a pé. Confesso-te que foi por mera distração.

Ele parou vezes sem conta e eu nunca saí… agora saí na estação errada.

Talvez estivesse farto da paisagem eucaliptal da linha da Beira Alta, talvez não quisesse saber o lugar onde iria morrer aquele comboio depois de voltas e viagens infinitas.

O pior em entrar em comboios é não saber quando se sair, todas as estações me parecem demasiado precoces. O comboio a mover-se parecendo inerte e as estações do ano correndo diante de mim. Dizem-me que já vi as mesmas estações do ano 22 vezes, eu tenho a certeza que foi mais! Tenho a certeza que já as vi milhares de vezes e o meu corpo cansado também. Os comboios vão evoluindo, as vozes vão mudando, a linha deteriorou-se como nunca, mas tudo o resto é cíclico e repetível com igual ligeireza.

Na carruagem que tornei minha entram alguns passageiros, no entanto tenho a impressão de que saem ainda mais.

A viagem é feita de decisões em que não há uma certa, são apenas opções diferentes. O bilhete é demasiado caro, o preço a pagar por cada decisão é pesado, porém não tomar nenhuma decisão após entrar no comboio, é viajar sem sair do mesmo sítio onde se entrou, com morada naquela carruagem.

Saí tarde e na estação errada, agora sigo a pé. Esta é a minha última estação antes de voltar a entrar novamente.
Já vi demasiadas vezes as mesmas folhas caírem, crescerem, molharem-se, florirem… procuro a caminhar novas folhas brancas disformes.

Tal como este texto, tudo é demasiado complexo para mim.

“O comboio com destino a… encontra-se com um atraso de…”

O comboio com destino chegará com atraso…

A pé encontrei um sem-abrigo, falsamente etiquetado de sem-abrigo, ninguém me disse que não tinha um lar – já nada há mais a fazer do que etiquetar todos para organizarmos o nosso pensamento que teimamos em não usar. Se aquele homem de barba grande e salpicada a branco não tivesse colado a si um código de barras facilmente identificável, seria invisível! Tão ou mais invisível que eu a tentar tatuar em mim tantos códigos e etiquetas para poder ser visível em algum.

Quando se vê alguém nesta viagem sozinho perdido numa prateleira empoeirada, apressa-se a necessidade de o rotular para não se tornar invisível.

Entre as gotas de chuva, fomos conversando numa linguagem que nenhum dos dois percebeu, mas não foi isso que travou uma longa conversa; ou melhor, duas, cada um tinha a sua própria que o outro não entendia. Não serão assim todas as conversas? Uma troca de pensamentos com nós próprios traduzidos em palavras aos outros para que o outro, dentro da sua própria conversa, responda qualquer coisa.

Após momentos entre conversas individuais entre dois seres invisíveis, ele dispensa-me, assim, do nada, e parte. Eu fico a molhar-me numa das primeiras chuvas a fechar o verão.

Quando levei as mãos à cara para a enxugar, apercebo-me que fiquei com a sua farta barba sarapintada de branco e, a acrescentar às minhas, as rugas profundas que ele cavara na sua própria casa.

Estou diferente desde a minha última estação.

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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