Faz agora alguns dias, não muitos, desde que decidi deixar de utilizar, pelo menos com a frequência com que utilizava, o Facebook. Tal estava enclausurado naquela prisão que foi uma decisão que temi e necessitou de coragem- de coragem!- e teimosia (teimosia sempre!).
A generalidade das pessoas que fui informando, através da aplicação de mensagens daquela rede social, me dizia “não” e ainda me achavam mais estranho do que aquilo que sou e que estava alienado, só podia estar.

Senti-me a padeira de Aljubarrota diante duma legião de guerreiros faceboquianos sob o comando do grande marechal Zuckerberg.

Aliás, acho mesmo que o próprio Zuckerberg se indignou com a minha atitude temendo que todos fossem parvos como eu. Tenha calma Sr. Zuckerberrrrg (como é difícil escrever este nome…), eu garanto, palavra de honra, que é difícil encontrar alguém tão parvo como eu. Calma! Vai continuar a ser um poderoso general, talvez o único estratega mais inteligente do que Sun Tzu. Creia-me por bem, acredito nas suas melhores intenções…
Como disse, quase com orgulho e arrogância, senti-me a padeira de Aljubarrota, mas não fui, perdi a batalha. Consegui deixar de ser usuário frequente do Facebook, mas sujeito a uma amnistia triste e embaraçante. Fui posto em castigo por todos. Fiquei numa espécie de limbo do Facebook, podia lá entrar quando quisesse mas continuaria a ser assíduo e leal do Messenger, fiel guerreiro do Facebook. E mais, a condição que ele me impôs sem que percebesse, era instalar o whatsapp como uma espécie de agente da liberdade condicional a que estava sujeito. Fui solto do Facebook, mas fiquei em condicional, sempre com uma fina corrente que liga o aparelho que está no meu bolso direito ao meu cérebro.
Como se não bastasse, a sociedade castigou-me. “Crucifiquem-no, crucifiquem-no!”

Não mais eu soube dos eventos e planos que passam à minha volta, apesar de me torturarem convidando-me para eles, mesmo sabendo que eu não O uso – o pronome em maiúsculo porque se refere ao Facebook, uma divindade – escarnecendo-me…

Na verdade, quando alguém me encontra na rua e me fala que me fez qualquer coisa no Facebook, eu digo apenas que ainda não vi. Não me atrevo a dizer que não uso, sujeito a que viessem todos os cidadãos modernos com o tablet debaixo do braço e o telemóvel com o flash ligado na outra mão, tal tocha medieval a arder. Atirando-me comentários e likes em forma de fúria, ou pior, de corações.
Hoje fui ao Facebook!
Agora também ninguém me diz quando alguém comemora o seu aniversário- eu que sou tão esquecido. Agora sou bizarro ao ponto de escrever alguns dos aniversários das pessoas importantes- cerca de 6 entre 567 amigos- e apontar numa espécie de caderno com datas e coisas assim.

Não imaginam o quanto eu sou feliz por ter o meu próprio tempo de volta, poder estar verdadeiramente sozinho sem ilusões.

Não ter que ver os posts e comentários de cada um. Hoje somos todos opinadores, temos um comentário a fazer a tudo, tais ser pensantes que somos. “Ai, meu Deus, agora lembrei-me no vestido que a Cristina Ferreira vestiu ontem… como poderei eu fazer para as pessoas saberem a minha útil e sábia opinião sobre isto?”
A liberdade de expressão é tão importante que o exagero com que usamos esse direito nos mostra o quão importante e valorizada devia ser. Não desperdiçada!
Felizmente, nem todos estamos condenados a estar enclausurados ao Facebook… Há esperança! Há sempre aqueles que estão enclausurados ao Instagram, Twitter, Snapchat, Tumblr…
É curioso, como sorriem as pessoas ao serem presas, partilhando sempre essa felicidade.

Há quem diga e proclame a utilidade destas redes para quebrar o isolamento… Então, criem um perfil ao “interior de Portugal” em todas elas, está mesmo a precisar de lembrar o resto do país que existe e não quer estar sozinho!

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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