Há poucos meses um idoso apertou-me a mão, olhou-me nos olhos e disse-me, “o problema dos homens é terem todos um nome diferente”.
Naquele momento deixei que as palavras passassem sem lhes dar a devida importância entre outras muitas frases num discurso eloquente dum idoso sábio que, porém, sofria já de elevadas perdas de capacidades mentais. Pareceu-me apenas uma frase sem nexo fruto, porventura, já de alguma confusão cerebral.

O problema dos homens é terem todos um nome diferente…”

Há muito que uma frase não me dizia tanto, um conjunto de palavras simples e perceptíveis a todos, carregada de tanta informação. Precisei de tempo para assimilar enquanto esta frase se repetia vezes sem conta na minha cabeça quase magicamente – é verdade que o facto de ser obsessivo compulsivo também não ajuda a que seja capaz de dispersar um pensamento- “O problema dos homens é terem todos um nome diferente”.
Num mundo onde não existem verdades absolutas, esta é, indubitavelmente, a que mais se aproxima disso. Todas as pessoas são diferentes umas das outras, chamemos-lhe de “nome”, personalidade, alma… o que mais nos aprouver, mas todos os homens são completamente díspares dos restantes.

Todos sabemos que a diferença é a causa de conflito, religião, política, ideais, clube desportivo… Contudo sem diferença seríamos aborrecidamente iguais e vazios.

O problema não é a diferença, mas, sim, a intolerância! O problema é quando tentamos ser iguais a toda a gente para nos enquadrarmos numa sociedade em falência. O problema é o vazio que carregamos dentro de nós.
O maior sofrimento é não termos para onde voltar! Quando tornamos num nada existencial o que foi o nosso conteúdo, não temos para onde ir, nem onde ficar. Se não encontrarmos morada no nosso interior e sermos unos com o nosso próprio ser pensante (mais sensível do que pensante), também não encontraremos onde nos abrigar nos outros. Olhar para o Litoral sem primeiro valorizar o Interior é vestir as melhores roupas num corpo vazio. Tal como um país litoral e interior têm de ser um só, também o ser humano tem a necessidade intemporal de se tornar um.

Apesar de tudo não posso alongar-me muito na questão da unicidade se eu próprio carrego insuportavelmente um universo de multiplicidade de seres e nenhum se sente minimamente abrigado.

Os homens vão apodrecendo com o tempo, mas a escolha do bolor em que nos metamorfoseamos é cada um de nós que toma, não em pensamento, mas nos mais simples atos.
Talvez a lição ancestral que somos capazes de alcançar, por mais surpreendente que possam os leitores considerar, não é que “Não matem os nossos velhinhos!!” como diriam estudantes sábios a protestar numa cidade que nada reflecte um povo …

Sentado numa cadeira velha e frágil, suficiente para me suster, acabo de fechar a atualidade lá fora junto às árvores e, à lareira a beber chá Oolong, reflicto que na realidade talvez seja mesmo essa a causa de tudo. “O problema dos homens é terem todos um nome diferente”.

Tem razão Sr. Armando!

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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