Foto de Mário Vasa | Facebook

Bem sei que já passou a época dos fogos florestais e tem chovido bem em novembro. Portanto existe a natural tendência para considerar que, por ora, este assunto está arrumado. Não é assim, porque sabendo-se que 2/3 da nossa floresta permanecem sem gestão, aquando surgirem as altas temperaturas vamos ver que os meios de prevenção e combate enfermam dos mesmos problemas.

Aliás, o grande fogo deste ano foi em Mação, cerca de 3.000 ha, e uma parte do que ardeu, já tinha ardido, imaginem, há apenas 2 anos. Tivemos também aqui no Norte 2 fogos importantes, como Valpaços (600 ha) e Alijó (300 ha), e neste último caso voltou a arder uma área que já tinha ardido apenas 3 anos antes. Faço parte do Observatório Técnico Independente dos Fogos Rurais, indicado pelo Bloco de Esquerda (os 10 técnicos são indicados pelos partidos com assento parlamentar e pelo Conselho de Reitores), entidade criada pela Assembleia da República. Nesse sentido, temos refletido sobre a eficácia na prevenção e combate.

Ora os incêndios rurais, para além dos prejuízos económicos e ambientais que acarretam, têm consequências na segurança e saúde das pessoas, nos seus bens patrimoniais, na agricultura ou nos animais. Como se viu em Pedrógão, Ferreira do Zêzere, Oliveira do Hospital, etc., o perigo está associado com o isolamento das populações e a falta de acessos. Em resumo, o espetro da interioridade.

O Observatório tem verificado que a área ardida em cada ano se fica a dever sobretudo aos grandes incêndios, e não ao número de ocorrências. Especialmente quando aqueles ultrapassam os 100 ha, mas sobretudo quando excedem os 1.000 ha. É aqui que se encontra a explicação pelas variações ao longo dos anos da área ardida total.

Para além das condições meteorológicas, que não são controláveis, um fator geralmente apontado como determinante do sucesso do combate é a rapidez da primeira intervenção, aquilo que na gíria se designa como Ataque Inicial e para onde devem convergir as 3 corporações de bombeiros situadas mais próximas do foco de incêndio. Da análise do histórico 2001-2019 conclui-se que, quando o tempo de intervenção foi inferior a 10 minutos, a percentagem de ocorrências que ultrapassou os 100 hectares foi muito baixa (0,42%) e ainda muito mais baixa para incêndios devastadores, aqueles que ultrapassam os 1000 ha. Pelo contrário, quando o tempo de primeira intervenção foi superior a 50 minutos as áreas ardidas sobem 5 a 20 vezes mais. Significativo não é?

Por isso, o objetivo da atual doutrina é o de garantir uma primeira intervenção em menos de 20 minutos, incluída na fase de Ataque Inicial. Mas tudo depende da proximidade dos bombeiros. O problema é que relativamente aos 442 corpos de bombeiros existentes em Portugal Continental, estes estão maioritariamente distribuídos no litoral a norte de Setúbal, razão pela qual são os concelhos do Alentejo e os do interior (Norte e Centro) aqueles em que a intervenção a partir dos quartéis de bombeiros é muito mais lenta. Por outras palavras, com a desertificação humana aumenta a insegurança das populações e o risco de estarem sujeitas a um incêndio descontrolável. Pelo contrário, onde são possíveis percentagens significativas de intervenções em menos de 10 minutos (em 80% dos casos) …estes localizam-se… perto de Lisboa ou do Porto…

A intervenção a partir dos quartéis dos bombeiros é pois claramente insuficiente para garantir uma primeira intervenção rápida em grande parte do território. É um facto que as Equipas de Sapadores Florestais que têm vindo a ser criadas permitem um trabalho mais próximo dos problemas reais que atingem a floresta, e dos residentes no espaço rural-florestal e melhorar a prevenção e defesa da floresta contra incêndios. Mas o elevado nível de sacrifício destas equipas e salários miseráveis são tudo menos atrativos. A inexistência dum quadro próprio e a dependência de múltiplas entidades torna ainda a sua vida muito difícil. Por isso à medida que umas equipas se vão criando, outras vão desaparecendo… e as populações rurais ficam por sua conta…

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Professor Catedrático da UTAD e membro do Conselho Geral da Universidade. Doutorado em Ciências Florestais. Especialista na área dos Recursos Hídricos e Ecologia Aquática. Investigador do CITAB. Membro do Conselho Nacional da Água (em representação do Conselho de Reitores) e do Observatório Independente dos Fogos Rurais (nomeado pela Assembleia da República).

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