Há poucos dias começou o tempo quente e obviamente iniciaram-se os grandes fogos florestais (esta designação utiliza-se para superfícies ardidas superiores a 1.000 ha). Como é sabido em 3 ou 4 dias ardeu num concelho uma área florestal idêntica à que foi consumida em todo o território nacional desde o início do ano. Em 2018 tivemos apenas 1 fogo com mais do que 1000 ha, precisamente na Serra de Monchique com uma área ardida de 27.000ha. Não é realmente o número de ignições que é importante. Outro aspeto que todos os estudos desde há muito vêm demonstrando é que existe uma relação direta entre a temperatura média diária (mas também a humidade…) e a área consumida pelo fogo. Portanto, por muito que nos custe, um ano com temperaturas médias elevadas e menor pluviosidade traduz-se sempre em extensões superiores devastadas, independentemente dos meios operacionais envolvidos.

E isto é algo que custa a “mastigar”. Então mas com mais bombeiros, mais sapadores florestais, mais brigadas de intervenção rápida da GNR (agora chamam-se Unidades de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS)), mais aeronaves, mais máquinas de rasto, etc. etc. não conseguem ter um efeito visível e estamos afinal dependentes das condições climatéricas?? Pois é, custa a engolir mas é assim mesmo… Na nossa floresta, ou abandonada, ou constituída por monoculturas de eucalipto e pinhal, em situações climáticas adversas, é impossível travar o fogo. Pior, e desculpem lá uns termos técnicos, a formação de pirocumulonimbos, na prática enormes nuvens de fumo criada por incêndios que sobem na atmosfera e que ao encontrarem uma zona fria podem causar o fenómeno de downburst (verificado em Pedrógão e noutras localidades em 2017), além de relâmpagos e trovões que dão origem a outras ignições, tem um efeito imprevisível de alastramento do fogo com as consequências conhecidas. Por outro lado este tipo de floresta emite projeções que podem atingir 200 m de distância e a ocorrência de inúmeros focos de incêndio em simultâneo é consequência desta forma de propagação do fogo, por mais que digam que há incendiários por todo o lado.

Ora poderia estar a discorrer sobre este assunto, mas quero apenas salientar que os dispositivos operacionais são mesmo muito limitados na sua eficácia de combate. Quando o fogo atinge 2 dezenas de kms de frente ativa, como agora em Mação, pouco há a fazer para travar o incêndio. E na verdade o fogo só terminou quando atingiu a área ardida em 2017… e nada mais havia para arder… Os meios operacionais, contudo, têm um papel essencial na 1ª fase de incêndio com brigadas rápidas (designado por ATI –Ataque Inicial) e, principalmente, na defesa das populações. Porque a nossa floresta de minifúndio, geralmente não ordenada, e aquela que é gerida direta ou indiretamente pelas empresas de celulose, cria todas as condições para os efeitos dramáticos que assistimos e que fazem de Portugal o país da Europa, proporcionalmente ao tamanho, com mais área ardida.

O abandono do meio rural a que assistimos desde há décadas cria um barril de pólvora que é a biomassa acumulada, onde a fogos se sucederão outros fogos ( a área ardida agora já tinha todo ela sido percorrida pelo fogo no início da década…) e onde as populações rarefeitas e de cada vez mais idade não conseguem fazer face à limpeza obrigatória das zonas envolventes das habitações (o que levou à morte por acidente mais de uma dezena de idosos em 2018, mas alguém falou nisto?). E o que vemos nas reportagens televisivas? Vemos velhotes sós a implorar por ajuda, sentindo-se abandonados, cada vez mais assustados e isolados…

Serão estas zonas do interior atrativas para os jovens, terão condições para propiciar uma inversão do deserto demográfico? Pelo contrário: os fogos e as alterações climáticas tornar-se-ão cada vez mais devastadores e inibidores duma coesão territorial que permita estancar a hemorragia. Um tom pessimista deste texto, mas que resulta da culpabilização que se verificou entre os diversos agentes, desde ministro a autarcas e à Proteção Civil, ignorando que o abandono continuado de políticas de investimento no interior, a PAC virada para os grandes agrários e os interesses das celuloses têm feito do nosso interior um barril de pólvora. E certamente dentro de poucos anos, as populações de Pedrógão, Ferreira do Zêzere, Sertã, Mação, etc, onde a regeneração do eucalipto já é intensa, enfrentarão o mesmo pavor…

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Professor Catedrático da UTAD e membro do Conselho Geral da Universidade. Doutorado em Ciências Florestais. Especialista na área dos Recursos Hídricos e Ecologia Aquática. Investigador do CITAB. Membro do Conselho Nacional da Água (em representação do Conselho de Reitores) e do Observatório Independente dos Fogos Rurais (nomeado pela Assembleia da República).

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