Os incêndios rurais reaparecem a cada Verão, mas agora começam mais cedo e acabam mais tarde… as tais alterações climáticas. 

Duma situação em que a maior parte do orçamento era destinado ao combate, nos  últimos anos (especialmente após o ano trágico de 2017) a maior atenção para a prevenção tem  vindo a equilibrar estas contas. Os Planos de Transformação da Paisagem, aprovados em 2020, e que visam alterar completamente a paisagem rural substituindo uma floresta não gerida e com  primazia para as monoculturas de pinheiro bravo e eucalipto por espécies autóctones mais  resistentes. O seu objetivo alicerça-se numa intervenção em grande escala para uma paisagem  biodiversa e multifuncional e propiciadora dos serviços de ecossistemas. Isto implica a criação  de áreas de integradas de gestão da paisagem (AIGP), em zonas de elevado risco de incêndio. O  processo está a avançar a bom ritmo e já foram aprovadas 47 destas áreas (média de cada uma: 2.000 ha), o que é de facto notável. Mas este é um processo muito lento e a nossa floresta na sua  maioria não é gerida, em virtude da divisão da propriedade, acumula elevada biomassa combustível e converte-se assim num pasto de chamas quando as condições meteorológicas são adversas, a que se junta o elevado nível de incendiarismo (algo que mereceria um estudo aprofundado). É que não há aeronaves, que nos valham, embora o seu n.º tenha vindo  constantemente a aumentar. 

E as populações residentes? Como defender as gentes que labutam num meio cada vez  mais desertificado, atente-se aos censos agora divulgados de 2021 em que, por exemplo, na  Região do Douro, Tabuaço, Mesão Frio e Torre de Moncorvo, perderam 20% da população em 10 anos!! É que a floresta sem gente não pode ser gerida e é um barril de pólvora, com uma  média de recorrência de incêndios de 4-5 anos. Atenção às áreas ardidas em 2017 – estão  prontas para arder novamente… Na verdade, foram criados depois dos fogos deste ano (é  sempre preciso haver uma tragédia que acorde o Governo…) os Programas “Aldeia Segura” e  “Pessoas Seguras”, visando “prevenir e mitigar os efeitos dos incêndios rurais por via de ações  de sensibilização para a prevenção de comportamentos de risco, divulgação de medidas de autoproteção e realização de simulacros de planos de evacuação, em articulação com as  autarquias locais. Isto deveria prever a elaboração de planos de evacuação em cada aglomerado em zonas de risco de incêndio, criação de locais de refúgio e abrigo, formação e sensibilização das populações, designação dum elemento responsável, coordenação com as autarquias…. mas  as aldeias abrangidas têm sido escassas e até ficam frequentemente por realizar as faixas de  gestão de combustível próximas dos aglomerados populacionais potenciando o perigo. E não há sequer uma monitorização destes programas. Quem quer afinal viver em áreas rurais onde o  perigo de incêndio espreita a cada ano que passa? Mas à medida que a floresta é abandonada, cresce o risco de incêndio. Este é o círculo infernal do interior.  

A floresta tem vida, tem gente que a defende, tem gente que utiliza os seus recursos (cada vez menos, é verdade…). A floresta pode-se tornar num braseiro ou propiciar todo um leque de serviços de ecossistema. Sem gente, não há floresta, não há biodiversidade, proteção do solo, da água… O problema é que os proprietários não são remunerados pelos serviços que a floresta presta e assim socorrem-se do eucalipto, sabendo que a curto prazo terão um encaixe  financeiro. Mas não é isto que interessa às gentes do interior, nem ao país!

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Professor Catedrático da UTAD e membro do Conselho Geral da Universidade. Doutorado em Ciências Florestais. Especialista na área dos Recursos Hídricos e Ecologia Aquática. Investigador do CITAB. Membro do Conselho Nacional da Água (em representação do Conselho de Reitores) e do Observatório Independente dos Fogos Rurais (nomeado pela Assembleia da República).

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