Tento manter a cabeça esticada para cima, à superfície para não me afogar. Finjo para mim próprio ser inteligente e até talentoso e, nos raros momentos em que mergulho, vejo a realidade e morro por segundos, desde que seja essa a minha vontade, caso contrário mantenho-me num limbo sofrido até voltar a pôr-me de bicos de pés.

Toda a gente finge ser algo, muitas coisas, têm essa necessidade, mesmo para si próprios porque não aguentam o facto de serem apenas animais e não deuses, meros animais como um porco. A minha namorada concorda e afirmou, desde logo, que eu era um porco. Eu amo-a, ela ama-me mesmo sabendo que debaixo do fingimento sou um animal feio, como, aliás, todos, mesmo eu ainda não tendo encontrado esse animal feio nela.

Às vezes nem reparam, mas fingem convincentemente serem múltiplas coisas – há limites.

Eu achei tão interessantes tantas que fui um indeciso, um voto branco – quando não uma abstenção de mim próprio – e decidi (ou não) ser (ou fingir ser) um universo de multiplicidade numa amálgama confusa e perturbadora.

É impossível fugir a este fingimento, porém não se pode acreditar cegamente. Houve quem acreditasse piamente num falso axioma e enlouqueceu, deixando mesmo de ser animal. Perdeu-se.

Conheci um homem num estado de maturidade em que já vislumbrava a morte como uma realidade, mesmo estando longínqua. Estava em pânico!

Estava em pânico não por medo de morrer, mas por medo de não deixar marca e não permanecer imortal na memória.

Um professor meu acreditava até que ter filhos era deixar um legado, permanecer imortal. Ter filhos, plantar uma árvore e escrever um livro, a tríade da existência. Tentam, frustradamente, fingir que são deuses quando não passam de seres com uma existência passageira. E essa existência é que, na verdade, nos torna maravilhosos e felizes, com uma angústia produtiva.

O mundo continua em mudança e em fingimento e é mais difícil encontrar, mesmo nas nuvens, a essência.

Essa essência não é nada de especial, não é o Nirvana ou o éter de Blimunda, nem sequer as paisagens de Eça.

Até as nuvens mudaram e fingem ser algo. Num dia pouco pretérito, contemplando as nuvens, vi nuvens em forma de animais, de objetos, de seres… Mesmo elas tentam já fingir ser algo. Quando era novo, recordo-me de que as nuvens eram apenas nuvens.

Tenho saudades de quando as nuvens eram simplesmente nuvens e não era necessário fingir.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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