Quando John Locke é eloquente sobre a verdade ser a maior virtude da civilização Humana, esqueceu-se das transformações que existem entre épocas – para o bem e para o mal. Na era contemporânea a Locke, é realmente possível observar que a verdade contrária à verdade socialmente aceite era condenada, brutalizada, escamoteada por ser um ato terrorista que tenta destruir a ordem social: na pós-modernidade, a verdade válida é considerada um esquema ditatorial perante as opiniões enquanto máxima de liberdade de expressão. Com Nietzsche e o seu assassinato audaz de Deus, sentimos a libertação das correntes dogmáticas e assistimos a esse assassinato como que um eterno retorno ao caos civilizacional: a civilização cria um Deus como símbolo de moralidade coletiva, revolta-se contra a castração moral, o assassina no triunfo da rebeldia, mas nunca nenhum revolucionário soube estruturar o dia de amanhã e a revolução é apenas fogo e fumo e sem mais nada para arder se extingue; ainda está por nascer o rebelde iluminado que irá criar novos valores e nos conduzirá à transcendência do animalesco que reside em nós, logo criamos um novo Deus e, como foi criado, damos-lhe o nome que quisermos, pode ser Capitalismo. Dostoievsky coloca a facada final nesse símbolo sobrenatural que nos comanda a todos ao expressar “se Deus não existe, tudo é permitido” e a civilização moderna se transforma em virtude libertária, confiou que o método cientifico era o grande triunfo da verdade como virtude, o empirismo: seria, mas a liberdade venerada na modernidade libertou o individualismo do pensamento, os sofistas modernos. Os sofistas de hoje são os que definem a era da pós-verdade, a era em que a opinião individual, como ferramenta para cortar correntes legislativas, morais e éticas, conquista a verdadeira verdade tal como autênticos conquistadores europeus – molda-se a história de acordo com a visão do mais forte. Se hoje alguém “censura” a opinião individual de ser discutida no círculo de especialistas, o “censurado” considera que é um atentado à liberdade de expressão – é necessário determo-nos aqui: a liberdade de expressão deverá ser algo praticado sem quaisquer limites? Quando perguntei a determinada pessoa que afirmava existir uma nova censura na sociedade, a mesma respondeu com argumentum ad hominem “ainda és demasiado novo para saber o que é censura” – a forma mais fácil de escapar a um raciocínio crítico é ataques pessoais, como um bom político o sabe fazer, para realizar manipulação social – e o povo deixa, porque é mais importante observar os problemas matrimoniais de um candidato do que as suas obras sociais. Mas não pretendo realizar uma dissertação sobre liberdade de expressão ou sobre ciência política, apenas pretendo expor uma necessidade de resistência ética contra o niilismo anunciado, o grande destruidor de mundos intelectuais. 

O Brexit é um sofismo suicida: viciou-se o estereotipo de que pertencer à União Europeia estaria a impedir o crescimento britânico, mas todo o processo revelou o aumento de fragilidades ao perderem exportações, várias organizações abandonaram o Reino Unido para continuarem em “território europeu” e criou-se um caos logístico e um terreno minado para revoltas internas – caso da Irlanda do Norte – tudo para impedir que mais imigrantes entrassem no Reino Unido, mas sobre os quais nunca teremos os reais dados de impacto sobre a economia, se realmente os britânicos perdiam o posto de trabalho por tal “ocupação” de desconhecidos; a verdade é uma estratégia de manipulação se somos permissivos à propagação de verdade enquanto estrutura opinativa.

Não podemos querer que a verdade seja como uma experiência quântica, em que a nossa opinião é válida porque somos observadores de fenômenos e influenciamos o seu resultado, independentes e com vontade de obter certezas num mundo cheio de ameaças: deveremos resistir ao niilismo argumentativo, à hipocrisia dos nossos valores onde defendemos a nossa liberdade individual como mais importante do que o cuidar da saúde dos outros. É tão fácil sucumbir às teorias da conspiração, onde podemos obter conforto para as nossas dissonâncias cognitivas e continuar com o triunfo da nossa certeza. A verdade voltou a ser a maior virtude da civilização, mas uma verdade suja de dogmatismos individuais, de liberdade pura sem temer consequências para terceiros, a dialética torna-se um mecanismo de convencer o outro da nossa perspectiva, extinguindo-se a metodologia para encontrar a verdade no coletivo. Platão considerava a verdade do Ser como a racional, a justificada, a epistemologicamente válida – o mesmo defende Karl Popper: a hipótese contrária a uma verdade deverá ser validada e só depois poderá ser realmente uma nova verdade. Platão considerava a opinião como uma forma superior à ignorância, mas ainda metade do caminho para o conhecimento válido. A dialética de Sócrates demonstra um processo argumentativo claro, simples, com o único objetivo de encontrar uma fundamentação para a realidade, mas onde a afirmação “só sei que nada sei” é uma máxima para impedir certezas pessoais. Esta estratégia deverá ser a base psíquica do Super-Homem de Nietzsche: as certezas dos outros são fonte de inspiração para as nossas perguntas que irão desconstruir a sua certeza até conseguirmos encontrar em conjunto a essência da verdade, onde ambos não estamos certo a priori, mas a conclusão será uma explicação o mais próxima possível de validar um modelo de realismo, realizando uma união para a estabilidade social e evolução Humana.

Como uma grande amiga o afirmou “a ignorância não é uma bênção, é simplesmente ignorância”: a ignorância é escapar-se da realidade, despojar-se de responsabilidades e viver a alegria de ser livre até ao dia da execução, ridículo como o processo sem sentido da personagem de Kafka.

Poderemos viver com ou sem Deus, poderemos viver com liberdade de expressão, o meu manifesto é a resistência ao vazio proveniente do relativismo de tudo e do niilismo ético. Resistam à necessidade por estar certo, resistam ao animalesco que reside em cada um de nós, que a verdade não se extinga, pois com ela o nosso lado Humano também sucumbirá – o que seremos sem empatia? Pela primeira vez tenho medo de um desconhecido, algo que quem busca o conhecimento válido é despojado antes do início da sua viagem. Mas conheço as trevas que se anunciam no horizonte, ou como uma sobrevivente do holocausto o disse recentemente, a atmosfera social é pesada e revoltada como antes da grande tragédia Humana da segunda guerra mundial. Resistam ao eterno retorno das nossas falhas, resistam à destruição intelectual Humana, impeçam as máquinas de dominarem como na distopia “Matrix”, pois pior que as máquinas de ferro são as máquinas mentais – o admirável mundo novo de Aldous Huxley se manifesta claramente diante dos nossos olhos: vamos resistir ou sucumbir? Que a tua razão seja a capacidade de interrogar e lutar pelo Humano que ainda reside em nós – tal como o significado de filosofia, para que a verdade e o amor nunca se extingam.

 

A Verdade em Extinção – Parte I

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Nasci, cresci e vivo nos planaltos de Vila Maior, São Pedro do Sul, distrito de Viseu com vista privilegiada para diversas cordilheiras montanhosas. Comecei a escrever poesia em 2005 como forma de escapar à realidade pesada da minha timidez. A natureza, o primeiro fogo da paixão e a necessidade de exprimir injustiças sociais despertaram a minha mão esquerda a escrever como se a minha existência dependesse de tal ação. Enquanto adulto, comecei por trabalhar muito cedo, fui pai muito novo e de todo um tumulto social renasce uma paixão: pensar sobre o que me rodeia, mas em vez de definhar decidi filosofar e nunca mais parei até hoje. Nasceram dois livros de poesia, “Mente (des)Concertante” por parte da editora Poesia Fã Clube e “O Fluxo da Vida” editado na plataforma Amazon. Só mais tarde, licenciei-me em Engenharia Informática pelo Politécnico de Viseu em 2017. Atualmente entre programar computadores e linguagem humana para conseguir alcançar uma transformação social pela filosofia, sou pai, marido, filho e agricultor como forma de alimentar corpo e alma. Estou pela primeira vez a romper a minha timidez e a expor-me nos meios de comunicação social e em comunidades literárias.

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