Invertem-se os tempos, extinguem-se as vontades – Parte II

“Materializar uma sociedade começa na normalização cultural – não é possível definir conceito de sociedade agrupando múltiplas tribos distintas culturalmente, aliás, a violência do confronto entre culturas diferentes denomina-se por “choque cultural”, o embate cornifico metafórico para a diferença… Entre o ser necessário escravizar ou o ser necessário criar uma bomba nuclear para envergonhar um Japão resistente à redenção, ou, sem tal intenção, essa bomba permitir entender a origem da lua e gerar mais energia elétrica para uma civilização em revolução energética, desdobram-se as raízes do Utilitarismo.”
Número total de pessoas escravizadas por região. Por Walk Free Foundation.

Na primeira parte, iniciei a exploração do problema ético efervescente na meritocracia, a ascensão do culto pelo merecedor individual, a ilusão de que todos conseguiremos ser ricos e o choque realista de que o trabalho árduo não paga as contas. Agora, irei migrar de um mundo contemporâneo para um mundo histórico: o passado edificador do mundo moderno em simbiose com a utilidade de uma ação. Irei começar por introduzir o dilema do contracto social para expor o problema utilitarista moderno e descansar o fôlego após a ansiedade vivida na exploração do nosso passado edificador para o privilégio moderno(1). Materializar uma sociedade começa na normalização cultural – não é possível definir conceito de sociedade agrupando múltiplas tribos distintas culturalmente, aliás, a violência do confronto entre culturas diferentes denomina-se por “choque cultural”, o embate cornifico metafórico para a diferença – e normaliza-se o Humano na actuação colectiva para o desempenho útil de cada um, expulsando-se quem não contribui; para o mundo moderno, considera-se a meritocracia como o único impulso necessário para o criativo – competitivo, progressista, forte – encontrar o além da última fronteira do conhecimento e empreendimento Humano, enaltecendo-se a vergonha sobre aquele que não tem capacidades, ou a sorte de estar equipado previamente e conseguir participar nos jogos sociais em escala vertical.

Comecemos por navegar superficialmente na metodologia do Contracto Social. Jean-Jacques Rousseau vê o seu mundo contemporâneo –  o da criação iluminista –  que o rodeia e observa o seu passado edificador, absorvendo que a estabilidade colectiva depende de todos os seus participantes consentirem com um castramento das suas vontades; o equilíbrio entre liberdade individual e estabilidade colectiva define-se em instituições de justiça e paz, as legisladoras e punidoras da actuação em massas; o impulso para assinar este contracto depende do deslumbramento do Humano perante a edificação progressista do colectivo onde nasce e cresce, em apreciação sobre o amor enquanto, mais do que uma emoção de conexão, uma inspiração de confiança. Rousseau necessitou de uma motivação para imaginar esta metodologia: segundo ele, o Humano nasce bom e livre, mas deixa-se corromper em vaidades, aparências, orgulho, reconhecimento e status, o Humano torna-se escravo das suas necessidades insaciáveis. A metodologia intrínseca ao contracto social, tenta equilibrar a liberdade necessária para a exploração individual de necessidades e o bem-estar de todos. Da sua tese inspiraram-se os revolucionários franceses, os pais da democracia moderna. Nem Rousseau nem os pais da liberdade moderna definiram uma liberdade individual absoluta, como muitos a desejam, sem consequências.  Mas como todo o bom revolucionário, é por paixão que se desabam instituições obsoletas e é no amor por absorver a queda que se esquece o planeamento para a reconstrução de uma nova sociedade. Rousseau esfumaça-se na passagem do impiedoso tempo, democracias erguem-se, mas o perpétuo capital continua nos bastidores do palco da vida a planear todas as peças. A complexidade civilizacional moderna implica: o premiado pelo seu mérito o é, porque diversas necessidades estão garantidas por outros membros do colectivo; a degradação de tecidos contributivos – a pobreza do agricultor e do pescador, o génio que não tem nem dinheiro nem contactos para empreender uma ideia revolucionária no sentido evolutivo – exalta-se na ausência de referências por parte dos premiados a sectores ocultos da sociedade que a mantêm a funcionar; o migrante de nações pobres é barrado por linhas imaginárias, enquanto as matérias-primas extraídas na sua terra natal circulam livremente para o outro lado da barreira de betão ideológica. Como o próprio nome indica, contracto social anuncia direitos e deveres de um indivíduo que pertencerá a uma grande engrenagem colectiva, mas se aos seus olhos não existe recompensa, quererá assinar o contracto? Para evitar uma revolta do proletariado ao amanhecer, promessas são feitas àquele que assina o contracto: aqui começa a grande máquina de propaganda moderna, o marketing.

Agora, a simbologia do denunciante do contracto social moderno começa em Voltaire, “aqueles que podem fazer-te acreditar em absurdos, podem também levar-te a cometer atrocidades” e “Se queres saber quem te controla, observa quem não tens permissão para criticar” passando por Foucault e a sua perspicaz absorção do formato das massas observarem o que é o poder – convenientemente, as revoluções liberais reduziram o conceito de <<Poder>> à imagem de instituições que obrigam o indivíduo a obedecer e render-se ao Estado, curvar-se perante regras definidas a priori, um sistema opressor em que uma classe dominante oprime as outras; mas, se aplicarmos uma ampliação do conceito, revelam-se outras metodologias subtis aplicadas, como toda a boa tese sobre o comportamento das massas o revela: através do consentimento dos indivíduos perante narrativas colectivas e a necessidade intrínseca de pertencer à tribo (nos EUA, um exemplo de propaganda colectiva é equiparar o desejo de construir um SNS como sendo uma aplicação distópica da Venezuela ditatorial, ou a consequente morte nas mãos de um Estaline). Menciono, por último, a simbologia de Mark Fisher presente no sucesso em streaming, “Squid Game”: o consentimento colectivo(2) para uma ideologia predatória que não pretende sangue, apenas um vício analítico por crescimento do lucro, sem qualquer emoção, em pleno êxtase sensorial de merecimento por vencer a competição. Todas as estratégias de interação entre indivíduos racionais (as “Teorias dos jogos”) são cuidadosamente estudadas por este <<Poder subtil>>. Voltaire, Foucault e Fisher entram em simbiose na observância de como o conhecimento é epistemologicamente válido sobre o chapéu de um <<Poder>> subtil: refiro apenas Foucault como demonstração da subtilidade moderna do <<Poder>> instituído, “todo o exercício de poder depende da edificação de conhecimento que o suporte. E reivindicações de conhecimento progridem os interesses e o poder de determinados grupos, enquanto os outros são marginalizados. Na prática, estas ações legitimam os maus-tratos a estes outros, em nome da sua correção e suposta ajuda”. O Contracto Social, redigido por quem tem o tal <<Poder>>, descreve os artigos constituintes daquilo que vou denominar por Utilitarismo no Pensamento.

Mantendo-me em Foucault, sustento-me num dos aspectos subtis do <<Poder>> identificados por ele: o Poder Disciplinar. Todos nós, indivíduos, somos uma construção imaginada pelo <<Poder>>; desde o respeito a quem possui o conhecimento institucional numa sala de aula, até à mecanização do conhecimento útil para o mercado laboral, existem táticas para o nosso domínio, como por exemplo a nossa forma de expressão através da moda colectiva, bem como estratégias que combinam diferentes táticas para um objectivo, como as necessidades implantadas de que é necessário possuir um IPhone para ser incluído no nosso grupo de amigos; todas as escolhas estão condicionadas a contextos e situações – toda a intelectualidade impregnada pelas instituições disciplinares moldam o nosso livre-arbítrio – levando até a democracia a tornar-se um simples sistema de escolha entre diferentes marcas de telemóvel, mas no fundo todos os partidos actuam dentro dos parâmetros institucionais: é preferível a ilusão de liberdade à opressão escancarada de um ditador; uma ditadura instala-se quando as instituições invisíveis que exercem poder, enfraquecem e o revoltado apoia-se na dominância dos outros. O Poder Disciplinar é subtil ao não oprimir o indivíduo das suas vontades, mas antes realiza uma incepção de condutas que permitem o máximo controlo possível sem o mesmo ficar consciente de que é controlado, uma espécie de assinar um contracto sem o ler. Quando um liberalista económico discute com um socialista, é apenas uma ilusão de liberdade ideológica, quando ambos as escolheram pela influência disciplinar colectiva. A grande vigilância corporativa moderna, em plataformas gratuitas na internet ou nas escutas para fins de marketing, permite moldar rapidamente toda a propaganda constante para o individuo se manter escravo das suas próprias necessidades, uma troca no opressor “Estado” para as corporações de “imperadores invisíveis” no enredo de 1984 de George Orwell: o Contracto Social que Rousseau visionou nunca existiu. Sentir-se útil no seu pensamento implantado pelo colectivo, faz do indivíduo o seu próprio opressor. Sentir-se incluído nas massas pode transformar um indivíduo moralista num ser selvagem, pois a moral é volátil, materializando-se de acordo com o que as massas definem como útil. Esta é a base do Utilitarismo no Pensamento Colectivo. O Utilitarismo de John Stuart Mill define que é útil uma ação quando a mesma é positiva para a maioria. Irei agora analisar o passado histórico do grande poder moderno assente no Utilitarismo na Ação: a cultura predatória e individual ocidental (nesta parte irei focar no utilitarismo, na terceira parte descreverei a cronologia histórica de uma ideologia fria).

O senso comum, ou a observação empírica na construção de uma tese demográfica, dita-nos que Humanos do médio oriente são de pele mais escura do que a de europeus, mas nunca nenhum europeu medieval questionou a pele branca de Jesus de Nazaré, porque todos os seus crentes semelhantes eram brancos e as guerras, as cruzadas para derrotar os mouros eram símbolo do combate aos impuros que não acreditavam em Jesus Cristo. O clero declarou os índios americanos como sendo impuros, os africanos eram não Humanos. É útil construir imaginações colectivas – transformadas em realistas devido à repetição colectiva numa espécie de oração – quando as mesmas nos unificam. Era positivo para a maioria europeia a escravidão perpétua nos campos de cultivo (será diferente um campo de concentração do holocausto de um campo de algodão medieval nas colónias?). Desconhece-se o progresso ocidental sem a existência da escravidão, resta apenas a esperança de ser encontrada num Universo paralelo. A descoberta do novo mundo e a expansão das grandes plantações e minerações, só possíveis com uma grande mão-de-obra disponível, foram o motor para a expansão científica na Europa. Os primeiros cientistas e pensadores no iluminismo são aristocratas: é no seu domínio e poder que encontram tempo livre para dedicarem-se a questões maiores (inspiração para a pirâmide de Maslow), novamente de encontro ao Utilitarismo. A descolonização do pensamento e da ação dos dominados por utilitarismos da classe dominante é inverosímil, visto que essa classe dominante realiza trocas, e não imposições, através da oferta de confortos e progressos medicinais e tecnológicos que convencem a população de que a civilização continua a evoluir graças ao seu esforço diário e à proteção fornecida pela elite, como o pescador que fica longos períodos em alto mar para alimentar os privilegiados em terra que lhe irão curar as suas doenças.

A exploração de um teorema comportamental como o da necessidade emocional de <<pertencer>>, naturalmente torna o dominado consensual com a sua exploração, como nas primeiras civilizações os camponeses permitiram a alguns preguiçosos ficarem livres do trabalho árduo do campo, sendo permissivos devido à crença em ilusões de proteção através de retóricas proto-políticas (a fase imediatamente anterior ao nascimento da primeira sociopolítica) criadas por esses poucos privilegiados.  Mas que ilusões são essas? Divergências tribais justificam medidas desesperadas, como quando o povo moderno dá o seu consenso à constante vigilância digital. Os portugueses foram o primeiro contacto de um povo exterior ao Japão. Os portugueses decidem agarrar japoneses para os levar nos barcos como escravos; quem governa o Japão apercebe-se e decide fechar as fronteiras com o mundo exterior, expulsando todos os ocidentais bem recebidos por eles. Claro está, atualmente existe a romantização da fuga de jesuítas no filme de Martin Scorsese, com base na obra de um japonês cristão, mas tal como palestinianos são esquecidos, os raptos de japoneses também. A humanidade sofre do conceito de “nós” e os “outros”: desde o “nós” de amigos íntimos e os “outros” vizinhos, até ao “nós” ideológico e os “outros” que nos querem impor ideologias sanguinárias (segundo Carlos Guimarães Pinto).

Nenhum historiador, moralista, teólogo, possui a coragem de considerar torturadores eclesiásticos tão desumanos como Hitler – as torturas praticadas com mulheres difamadas como bruxas eram de uma atrocidade extrema, só porque ela bebia chás e nunca fez mal a ninguém, ou sofria de histeria porque, dentro do seu inconsciente em constante sofrimento por muito prazer oprimido e traumas vividos, era na sua voz sofrida que autodeclarava-se bruxa – Josef Breuer não teria tentado a cura de uma paciente que sofria de histeria através do diálogo compreensivo pelos seus traumas, se o pensamento crítico não tivesse sido desenvolvido; como se a tortura não fosse suficiente (confessando o seu sobrenatural após um processo de dor extrema, pois o delírio instala-se e a narrativa imaginária apresenta-se atraente para quem pretende sobreviver), eram assassinadas de uma das formas mais horríveis: queimadas vivas. Estes torturadores pertenciam a nós, europeus e cristãos, eram nossos governantes e conselheiros espirituais, os nossos médicos que rezavam pelo enfermo que sofria na nossa família. Hitler era o comandante dos outros, os outros que nos querem oprimir – os outros são maus, são o nosso inimigo, são diferentes, a outra tribo, os salteadores noturnos das nossas casas, logo colectivamente é fácil abominar o que é externo. O nosso colectivo sustenta-se em romantismos. Quem tem vergonha do nosso passado, como eu, romantiza o ser primitivo e ignorante que, tendo experimentado o iluminismo, proibiu a caça às bruxas e a escravidão. A realidade, é que a caça às bruxas terminou quando a superstição por existirem seres sobrenaturais milagrosamente se extinguiu e tornou-se ridículo existirem bruxas; a escravidão foi abolida legalmente como consequência dos movimentos revolucionários a favor da democracia (razões morais é marketing político para quem necessita das massas por forma a ser eleito) mas a sociedade de consumo permite a escravidão clandestina moderna ao adquirir dispositivos, roupas, brinquedos produzidos em regiões duvidosas (segundo investigações, talvez 40 milhões de Humanos são ainda escravos no século XXI(3), um valor quatro vezes superior a todos os escravos contabilizados na época dos descobrimentos e pré-revolução industrial) – a ignorância é uma bênção que permite a vivência sem questionamento torturante dos nossos valores. 

Entre o ser necessário escravizar ou o ser necessário criar uma bomba nuclear para envergonhar um Japão resistente à redenção, ou, sem tal intenção, essa bomba permitir entender a origem da lua(4) e gerar mais energia elétrica para uma civilização em revolução energética, desdobram-se as raízes do Utilitarismo. Robert Oppenheimer, o cientista-chefe do projecto Manhattan (a origem da bomba atómica), citou o livro hindu “Bhagavad Gita” aquando dos testes da sua invenção “tornei-me o destruidor de mundos” – apenas duas semanas após o primeiro teste de uma bomba ainda não estudada aprofundadamente sobre as suas consequências, é lançada cobardemente sobre uma cidade civil japonesa (uma não foi suficiente, lançaram cobardemente também sobre uma segunda cidade civil); claro está, antes do lançamento diversos cientistas do projecto tiveram consciência de questionar se lançar sobre Humanos (a fauna e flora obviamente nem é tida em conta) uma tal bomba destruidora era um real acto de batalha ou uma chacina cobarde, mas não foram ouvidos. Um grupo de eruditos de Oxford discutiam se deveriam premiar academicamente Harry Truman, o presidente dos EUA que autorizou o lançamento de bombas nucleares sobre o Japão; Elizabeth Anscombe, uma grande filósofa revolucionária perante o que é a ética e moral – totalmente antiutilitarista – e também uma católica devota, revolta-se com o premiar assassinos de massas como Harry Truman, devido ao disparo de uma bomba de destruição maciça sobre indefesos civis. Este acto terrorista praticado por nós, ocidentais, nunca foi questionado. É fácil condenar os outros, muçulmanos radicais que praticam actos terroristas, mas ninguém pensa no porquê – as constantes invasões, diplomáticas ou militares, de nações árabes por parte de ocidentais nunca são tidas em conta para o porquê de praticarem actos cobardes. Tanto nós como os outros praticam actos cobardes de terrorismo, seja a tortura de mulheres, o trabalho infantil, uma bomba atómica e actos religioso-militares sobre populações civis. É útil para a classe dominante certos actos imorais, antiéticos.

Até aqui, limitei-me a explorar factos históricos. No entanto, muitos leitores estarão revoltados comigo, considerarão que sou defensor do terrorismo religioso islâmico e até talvez defensor de Hitler. Estarão completamente errados. Sou apenas um europeu, branco e de origem cristã, que tem coragem para encarar a realidade de frente da nossa história e ver o que realmente é, relembrando Saramago “cego é aquele que não quer ver”: mas se sou o demolidor de Utilitarismo no Pensamento colectivo, se vivo numa contradição entre não pertencer a nós nem aos outros, que lunático sou eu? Pergunta aquele que não entende a mensagem transmitida além do seu consentimento com a cola do pensamento colectivo. De forma simples, o europeu que visita a minha casa considera ridículo eu consumir comida vegetariana, acusa-me de ser opressor do paladar só porque possuo empatia com a saúde do meu corpo e o sofrimento dos animais: o seu comportamento acusador e ridicularizador não é devido à minha pessoa, é a insegurança perante o diferente que pode obrigá-lo a mudar os seus costumes. Esta atitude de querer impedir o tratamento saudável do meu corpo, impondo o mesmo consumo alimentar do colectivo, é uma atitude ancestral de ritual iniciático na tribo: aquele que é diferente será expulso. Quantos se enojaram a comer entranhas de animais, mas nunca reclamaram para não serem expulsos? Isto está bem impregnado no nosso ADN, a necessidade de <<pertencer>>. Esta constante dicotomia moderna entre o liberalismo do individuo e a normalização colectiva, é reveladora do ser confuso que somos e do quanto o Poder Disciplinar domina invisivelmente as esferas da actuação das massas.

Por fim, observo o ensaio sobre a cegueira protagonizado por ideológicos da Iniciativa Liberal. Acredito que quem criou tal mapa(5) possui conhecimento para mais, mas a cegueira imposta pela aceitação de uma ideologia como única teoria de conhecimento, leva indivíduos sãos e inteligentes a cometerem atrocidades, quando os tempos de evolução intelectual se invertem em volatilidades opinativas e se extinguem vontades por informar e melhorar a vida colectiva; este mapa, claramente a ditar uma divisão unicamente binária entre o “nós” e os “outros”, um mapa que transpira cinzas de um mundo queimado e radioactivo por ignorância, ignora conhecimentos básicos sobre as equidades desenvolvidas numa União Europeia em busca de uma abordagem híbrida entre socialismo e liberalismo económico (espante-se o leitor, Portugal é assinalado no mapa como socialista e a Noruega é assinalada como liberal), mapa esse que mistura o ultracapitalismo autoritário e vigilante chinês, o Estado autocrático e oligárquico Russo, a Índia democrática e das classes sociais estratificadas que tenta tornar-se equivalente às potencias ocidentais – menciono estas nações em específico como exemplos da falta de direitos laborais, ou excesso de classes sociais, algo impensável para uma ideologia socialista – misturam todas estas nações juntamente com Portugal, e muitas outras assinaladas ignorantemente no mapa, ignorantemente mas com orgulho ideológico como sendo todas iguais. Em Portugal existe livre circulação de bens e serviços, o mercado energético é liberalizado (se fosse regulado, não existiria tanto desespero quando os combustíveis aumentam) tal também acontece na Alemanha aliás, muitos empresários alemães instalam filiais em Portugal; a Alemanha tem SNS, educação gratuita, apoios sociais, cobra IRS, TSU, cobra um imposto religioso (algo que não existe em Portugal) e taxas em muitos produtos tal como Portugal; mas segundo a teoria da Iniciativa Liberal, Alemanha é liberal e Portugal é igual às ditaduras supostamente socialistas. Relembro a calamidade propagandista nos EUA contra a existência de um SNS, enquanto a Alemanha possui tal sistema e encontra-se no tal mapa como sendo igual aos EUA. Os processos para o Contracto Social da classe dominante implicam diversas propagandas disciplinares do pensamento das massas (muitas vezes afirmações contraditórias, como existimos para vos proteger, mas o SNS é algo diabólico), definir um inimigo externo comum (todas as nações que aplicam políticas socialistas se tornam autocráticas), cultivar a religiosidade de pertencer a uma nação (é uma honra para a tribo o soldado que se sacrifica pelos interesses corporativos da nação, mas o líder e a linha de comando não estão na frente de batalha como um verdadeiro líder guerreiro de um passado longínquo).

Exposto o Contracto Social utilitarista, lamento-me com Bertrand Russell e o quanto o progresso sustenta um punhado de Humanos compostos numa classe dominante: “o Homem sem qualquer capital, terá de vender-se para uma grande instituição. Ele não possui qualquer voz na sua própria gestão, nem liberdade dentro das políticas vigentes, a não ser aquelas que são asseguradas pelo seu sindicato. Se por acaso ele desejar uma forma de liberdade não assegurada pelo seu sindicato, ele não tem qualquer poder; ele tem de se submeter ou passar fome”. Este muro de lamentações que partilho com Russell, é um silêncio onde sou envergonhado como “se não pertences a nós, pertences aos outros” e a normalização do pensamento colectivo é imposta admiravelmente com diferentes analgésicos, tal como Aldous Huxley e o seu pesadelo imaginado exposto numa obra distópica. Mas coloco a mão na consciência após esta viagem pelo obscurantismo moderno e denoto a capacidade evolutiva humana: é já uma grande conquista extinguirmos o esquema social primitivo de líder sanguinário, autocrático e predatório para um esquema democrático e em busca da igualdade social; agora, estaremos preparados para o salto evolutivo seguinte, a queda das linhas imaginárias chamadas fronteiras e a classificação inconsciente de Humanos de primeira classe (os ocidentais que choram catástrofes nas suas terras e ignoram o resto do mundo) e os Humanos de segunda classe (o mundo árabe, africano e sul americano e as suas constantes guerras e problemas sociais)? Como resolver o problema árduo da ética meritocrática num mundo de selvajaria corporativa disfarçada de recompensa máxima? Continua nas próximas partes deste artigo, o mergulho à escuridão dos criadores do mundo moderno e o regresso à luz através de uma nova sociedade. 

Bibliografia

  • “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley
  • “O Contracto Social” de Jean-Jacques Rousseau
  • “Vigiar e Punir” de Michel Foucault

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Nasci, cresci e vivo nos planaltos de Vila Maior, São Pedro do Sul, distrito de Viseu com vista privilegiada para diversas cordilheiras montanhosas. Comecei a escrever poesia em 2005 como forma de escapar à realidade pesada da minha timidez. A natureza, o primeiro fogo da paixão e a necessidade de exprimir injustiças sociais despertaram a minha mão esquerda a escrever como se a minha existência dependesse de tal ação. Enquanto adulto, comecei por trabalhar muito cedo, fui pai muito novo e de todo um tumulto social renasce uma paixão: pensar sobre o que me rodeia, mas em vez de definhar decidi filosofar e nunca mais parei até hoje. Nasceram dois livros de poesia, “Mente (des)Concertante” por parte da editora Poesia Fã Clube e “O Fluxo da Vida” editado na plataforma Amazon. Só mais tarde, licenciei-me em Engenharia Informática pelo Politécnico de Viseu em 2017. Atualmente entre programar computadores e linguagem humana para conseguir alcançar uma transformação social pela filosofia, sou pai, marido, filho e agricultor como forma de alimentar corpo e alma. Estou pela primeira vez a romper a minha timidez e a expor-me nos meios de comunicação social e em comunidades literárias.

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