Não será certamente uma novidade falar sobre os efeitos que a pandemia do coronavírus está a ter na educação dos nossos jovens.  Se é certo que nos tempos de estado de emergência se iniciaram ensaios de ensino não habitual,  como seja o “ensino à distância”, não é menos certo que uma escola é essencialmente presencial, exigindo a participação coletiva dos alunos e alunas, dos docentes e não docentes. O que permite concluir que este ensino afastado, em tempos de emergência, foi apenas uma solução de recurso, um remendo mal-amanhado, inevitável, no entanto, dadas as circunstâncias. Este expediente teve um pecado capital: a desigualdade, pois esta solução remota de emergência, como alguém lhe chamou, teve como recursos meios tecnológicos avançados, como os telefones de geração avançada, os computadores, os tablets, a televisão, entre outros, que no nosso país, com uma grande maioria de classes sociais desfavorecidas, não eram necessariamente acessíveis a toda a gente. O princípio constitucional da igualdade de oportunidades no acesso à educação foi a coberto do estado de emergência colocado fortemente em causa. Minimizemos a violação deste princípio, visto que se tratou apenas de uma solução provisória e passageira para abrandar e reduzir os pesados danos introduzidos pelo aparecimento da pandemia. 

No entanto, estamos convictos de que ensino presencial (ainda) não tem uma verdadeira alternativa no recurso ao ensino a distância, mormente pelas tecnologias que o permitem fazer. Esta solução nunca tinha sido verdadeiramente testada, e muito menos implementada. Mas, e reforço o mas, esta solução não tira o inegável mérito de todos os agentes envolvidos. Foi notável o esforço titânico das professoras e professores, que, muitas vezes, se reinventaram para lecionar à distância, de forma a que os alunos pudessem aprender nas suas casas aquilo que tinham direito de aprender nas suas escolas.

Atualmente, vivemos uma situação onde esta medida foi (até ao momento) completamente abandonada, tendo voltado o ensino presencial. Numa análise ingénua deste propósito, poderíamos dizer que o governo optou por recuar, atendendo às injustiças e aos constrangimentos anteriormente referidos, para que a educação voltasse a ser acessível a todos de forma igualitária. Mas, o verdadeiro raciocínio dos responsáveis deste país foi outro! Se voltássemos ao confinamento dos alunos em casa, estes teriam de ter o acompanhamento dos seus pais, que, encontrando-se na vida ativa, teriam de faltar aos seus empregos, cabendo ao estado ressarci-los do prejuízo económico que daí adviria. O governante responsável das finanças pegou na calculadora, ou na folha de cálculo que tanto venera, fez contas e concluiu que gastaria milhões do erário público para apoiar as famílias dos nossos estudantes. Isso nem pensar. Primeiro a economia depois a saúde. Raciocínio errado, pois, só existe economia se existirem pessoas saudáveis e capazes de contribuir com fruto do seu trabalho para o progresso. 

Fixemo-nos, por um lado, na situação atual: estamos em meados de outubro e, pelos últimos dados, já são mais de 330 as escolas confirmadas com casos de Covid-19. Uma pergunta assola-nos: aonde isto vai parar? Por outro lado, assistimos perplexos a medidas que só podem ser tido tomadas por quem desconhece totalmente a realidade das escolas, (o que não admira, pois os gabinetes de São Bento, ficam muito longe das escolas do Caramulo, da Pampilhosa da Serra, ou de Mértola). Centremo-nos, por essa razão, nalgumas consequências: uma turma que inclui um aluno ou uma aluna a quem é diagnosticada Covid-19 é colocada, na melhor das hipóteses, em quarenta. Então e os outros, os alunos de outras turmas que abraçaram o aluno infetado no recreio? E o que fazer aos alunos que perto dele comiam no refeitório? E os professores que lhe davam aulas? E o que pensar do distanciamento social, quando verificamos em muitas escolas os alunos ainda se sentam dois a dois na mesma carteira? E as filas para os alunos saírem da escola (ou entrarem)? E o uso intermitente das máscaras fora das salas de aulas, como tantas vezes se verifica? 

Estamos, portanto, numa situação difícil de resolver, num beco sem saída, dirão outros. Nesta tentativa de resolvermos a quadratura do círculo, temos de, mais uma vez ser criativos, de fazer o pino, se tal for necessário para minimizar os efeitos do flagelo da pandemia nas nossas escolas. Vamos conseguir, como sempre conseguimos!

Termino, repetindo o que já referi anteriormente, os trabalhadores das nossas escolas, quer sejam docentes ou não docentes têm feito um trabalho notável. Temos de prestar a nossa homenagem a estas mulheres e homens, que como sempre nunca abandonam o barco e lutam contra qualquer adversidade por mais difícil que ela seja. 

Venha daí então a mesma atitude por parte dos nossos governantes!

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Professor, de 52 anos.
É natural de Carregal do Sal, onde reside e trabalha, sendo no momento docente do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

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