Há algum tempo que me secaram as palavras.

Talvez, em estado de grande perigo e perante situações tão chocantes, alguns, instintivamente, para resilir tenhamos passado para um estado de tanatose geral e permanente.

Mas, afinal, tudo o que está a acontecer é tão grave que ultrapassa o limite do suportável e compatível com a dignidade humana, e é demasiado impactante para conseguirmos fingir de mortos – tanatose.

Li muito sobre a chamada terceira idade, escutei muita gente que leu e escreveu muito sobre idosos. Durante meses e meses conversei com imensas pessoas que faziam parte da chamada população idosa. Aprendi muita coisa, nomeadamente o que para mim é óbvio: quando for idosa, só serei uma pessoa adulta com mais idade, mais envelhecida, mas que enquanto a lucidez me permitir, continuarei a ser a Lúcia. Aprendi e defendi que, relativamente ao envelhecimento, deve haver uma verdadeira preocupação com que seja uma experiência positiva e que a vida longa comporte oportunidades e qualidade necessárias à capacitação de cada individuo. Parece-me tão óbvio e natural. É tão justificado e factual para uma grande comunidade científica, parecendo em alguns círculos redundante ao fim de algum tempo.

Contudo, estes conceitos e princípios nem sempre foram compatíveis com as regras administrativas impostas pelas entidades responsáveis pela institucionalização de idosos, nem pelas entidades que gerem e dirigem todas as instituições das quais dependem as pessoas e as suas vidas.

Isto está tão patente desde a circunstância mais micro, como a velocidade com que a técnica dá as colheres de sopa à D.ª Maria, que se prende essencialmente com o facto de que essa funcionária – na eventualidade de ter a sorte de ser efetiva e trabalhar apenas as 40 horas semanais e não receber mais que o ordenado mínimo – presta assistência, nuns breves 45 minutos, a dezenas de idosos e idosas, condição essa, em que aquela questão do direito à autodeterminação, à liberdade de escolher o sabor da sopa, bem como da velocidade com que lhe são enfiadas as colheradas na boca, tornam-se um preciosismo.

Mas, resume-se no final de contas, ao facto de que ao capitalismo não importa na verdade a circunstância de cada um e quem tem poder está-se bem marimbando para as pessoas. Desengane-se quem acredita em fórmulas milagrosas onde operam justiça e igualdade, a fórmula geral e básica do capitalismo é aquela que preconiza apenas o lucro económico, onde o valor é apenas o monetário e não entra o valor da vida pela, da felicidade, da liberdade…

Se antes o desafio era conseguir que a sociedade acomodasse o fenómeno do envelhecimento, atendendo às necessidades de um grupo social com bastante tempo livre, com muito potencial social, com conhecimento e cultura, mas com risco de exclusão social e consequente desagregação da sociedade… Se antes o desafio passava por adequar o processo de institucionalização a uma noção de reconstrução identitária dos indivíduos e que o desenvolvimento individual é um processo natural e contínuo em que as etapas do ciclo de vida se sucedem e, com elas, a aquisição e desenvolvimento de competências, e por conseguinte são direitos humanos e universais o direito à autodeterminação, à educação ao longo da vida, ao desenvolvimento pessoal. Hoje, na sequencia da pandemia Covid, a preocupação passa por questões muito mais básicas de salubridade e dignidade, de tal ordem tão chocantes, cuja única explicação para não termos reagido de forma devidamente contestatária, é que estejamos numa espécie de letargia provocada por um estado semelhante ao da guerra, e como disse antes, a estratégia para preservar a nossa sanidade coletiva é atuar como algumas espécies e desenvolver tanatose – fingir a morte.

Relatam-se nos noticiários e nas redes sociais os casos polémicos: idosos abandonados, sem condições de higiene, desidratados, com fome sem assistência médica. Funcionárias, que tal como Ludmila, não deixaram de prestar os cuidados aos idosos, ficaram infetadas com Covid19 e acabaram por falecer, e da parte da instituição nem uma palavra à família. A condição mais baixa de miséria humana em todos os sentidos – só isso seria mais do que razão de ultrapassarmos o estado de indignação.

Depois vêm os outros relatos. As instituições fecharam os seus centros de dia, os idosos voltaram para casa em total estado de isolamento. As universidades seniores fecharam, as rotinas que nos mantinham ocupados foram quebradas e exclusão social dos idosos tornou-se por paradoxal que pareça uma medida de proteção. Há instituições que confinaram os idosos nos seus quartos, acompanhados de um televisor individual e regularam as visitas munidas das atuais regras de etiqueta respiratória. Para que conste, os idosos, separados da visita por uma superfície de acrílico podem interagir com o seu interlocutor através de um dispositivo de áudio, micro e telefone… algo muito seguro, confortável e adequado às cadeias.

Neste momento fui assolapada por dois pensamentos chocantes: os idosos estão na prisão e… fiquei sem avós o ano passado.

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Nasceu em Chaves no ano de 1979.
Licenciada em Ensino Biologia-Geologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, no ano de 2001. Mestre em Ciências de Educação - Especialização em Animação Sociocultural pela UTAD. Frequentou o 2.°ciclo do curso Bietápico de Licenciatura em Engenharia do Ambiente e do Território do Instituto Politécnico de Bragança.
Lecionou, como docente contratada do grupo de Biologia e Geologia, em várias escolas do país. De momento trabalha como administrativa na empresa Vitrochaves SA.

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