Foto por José Freitas | Facebook

Em 2004 a Câmara Municipal de Chaves (C.M.C) projetou no Largo do Arrabalde um parque de estacionamento. Como já é habitual, na cidade de Chaves, cada vez que se faz uma escavação, encontramos vestígios das ruínas da época da antiga cidade romana, Aquae Flaviae, ou de outra época. Se assim não for, devemos desconfiar.

Assim, nesse local, situado em frente ao edifício do tribunal de Chaves, a C.M.C contratou Armando Coelho da Silva para proceder à realização de sondagens arqueológicas, com as quais se detetou um pavimento granítico com datação romana, segundo consta. Dado que nascia água quente aquando da sondagem supôs-se que se tratavam de ruínas das Termas Romanas da cidade.

Se bem nos recordamos, o ritmo lento, normal e desejável numa escavação arqueológica, por sua vez desacompanhado de informação, esclarecimento e envolvimento da população, levantou de forma mais ou menos generalizada, críticas e desconfianças por parte dos flavienses, fruto da incompreensão do que ali se passava.
Era tão bom, que um dia, as pessoas fossem envolvidas numa verdadeira ação cultural e educativa em prol do desenvolvimento sustentável, sem que as ações se fossem resumindo e esvaziando em mera propagandazinha, lavagem de imagem e caça ao voto!

Mas, adiante.

Assim, feita esta descoberta a autarquia abandonou, e muito bem, a ideia da construção do parque de estacionamento em prol do interesse arqueológico e museológico do local.

Segundo os relatos vindos a público pela imprensa, estas seriam as maiores termas romanas da Península Ibérica, um edifício de grandes dimensões que teria ruído na sequência de um sismo no século IV e ficado soterrado, muito bem conservado até ao momento da sua descoberta.

Esta descoberta deu início a uma série de investimentos que vieram a dar origem à construção de um edifício, alvo de muitas críticas pela população por não apreciar a sua estética. Segundo a imprensa, a C.M.C. investiu 1,9 milhões de euros, num projeto co-financiado pelo FEDER, depois mais 200 mil euros para pagar alterações ao projeto, impostas pela Direção Regional de Cultura do Norte e para finalizar a obra fez nova candidatura ao abrigo do Norte 2020 de um investimento de 1,1 milhões de euros.

Mas, vamos a uma breve resenha de factos por ordem cronológica.
Em 2008, terminam as escavações, faz-se concurso para a elaboração do projecto, e em agosto é adjudicado a um gabinete de arquitectos, que apresentou um projecto, em 2010 revogado e substituído por outro com o dobro do preço.
Numa breve pesquisa na imprensa publicada, fomos ordenando momentos cronológicos.

Em 2015, Passos Coelho é convidado para inaugurar uma série de infraestruturas de tratamentos termais do concelho e visita as obras do museu. Em 2017 era anunciado que o museu das maiores termas romanas da Península Ibérica abriria em 2018. Mas, a par dessa notícia, indicava-se que estava em vista um projecto de musealização, aprovado pela C.M.C., orçado em 1,1 milhões de euros. Este projecto previa, a reactivação do sistema hidráulico de abastecimento de águas termais, condutas e tanques de piscinas. Estavam previstos ainda camarins, redes de iluminação, telecomunicações, sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado, bem como, colocação de maquetes com reconstituição das ruínas, mesa táctil interactiva e exposição de artefactos encontrados nas escavações. O edifício, iria assim, permitir a circulação dos visitantes através de estruturas, onde seriam feitas visitas guiadas e seria possível ainda assistir a espetáculos e atuações. Este projecto de conservação e musealização das termas romanas fazia parte de uma candidatura ao “Património cultural”, no âmbito do Programa Operacional Regional Norte, Norte 2020. Era ainda referido numa notícia da Rádio Renascença, em abril de 2017, que a Praça onde se encontrava o edifício, iria sofrer intervenções que a tornassem mais confortável, mais enquadrada e mais humana. Falava-se de sombras, bancos e muros, mas também de painéis fotovoltaicos para poupança energética.

Enquanto isso, e em véspera de eleições autárquicas, de forma generalizada a população tecia críticas à estética do edifício projetado pelos irmãos Cândido Lopes e Nicolau Lopes.

Em 2018, depois da entrada em funções do atual autarca, Nuno Vaz, surgem a público notícias a dar conta de que desde 2016, se percebera que as ruínas estavam comprometidas, porque não havia um sistema mecânico de renovação de ar que impedisse a condensação e a formação de vapor de água, que se formava a partir da água que existia dentro do edifício que por vezes se encontrava a mais de cerca de 65∘.

No seguimento desta notícia, numa reportagem do programa “Sexta às 9”, assistimos a uma série de depoimentos, de arqueólogos, arquitetos, dos três autarcas que se foram sucedendo, no decorrer deste projecto, bem como, responsáveis da Direção Regional de Cultura. Este chorrilho de declarações deixou-nos bastante consternados e confusos.

Os arquitetos referiam que afinal o primeiro projeto proposto seria o mais adequado, e que nunca deveriam tê-lo alterado, e a decisão, má, foi culpa de todos. O ex-autarca, João Batista, afirmou que a culpa de toda a morosidade se deveu à burocracia do estado e das decisões do poder central. O ex-autarca, António Cabeleira, eleito em 2013, referiu que as obras, já tinham começado no mandato, do autarca anterior, João Batista. Mas a verdade é que o aval do Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico para a sua viabilização só chegou em 2014. O arquiteto Cândido Lopes, diz que António Cabeleira se precipitou ao inaugurar uma obra, o que foi feito no Verão de 2017, ano de eleições, pois, na verdade, estava inacabada. O ex-autarca António Cabeleira, disse que a condensação é uma coisa que só acontece no inverno e reafirmou, ainda, várias vezes, que ninguém sabia que nascia água quente dentro do balneário. Na sua perspetiva não houve um erro, porque é difícil adivinhar o que vai acontecer. A Direção Regional de Cultura do Norte veio, por sua vez, dizer que desde 2009 tinham sido feitas recomendações sobre a necessidade de criação de um sistema de ventilação adequada ao museu.

No mesmo programa, o atual presidente da C.M.C, Nuno Vaz, do P.S. lamentou não ter havido diligências para que tudo isto tenha sido evitado, lamentou que tenha acontecido e surpreendeu-se que se tenha demorado tanto tempo a perceber que o projeto tinha falhas. No entanto, se formos rever as notícias, questionamo-nos: afinal em 2017 não foi anunciada a aprovação de um projeto, para conclusão da obra através da sua musealização, onde se previa entre outras coisas ventilação e ar condicionado? Pelo que refere a imprensa, no momento da declaração, do atual autarca, estava pendente no tribunal de contas o contrato de uma empreitada para concluir e restaurar o edifício.
Foi também nesta altura que foi constituída a Comissão das Termas Romanas, composta, apenas, pelos elementos do executivo e por um representante de cada partido com assento na assembleia municipal, para acompanhar os procedimentos e decisões relativas ao processo de construção.

Ora bem, supomos que não era só o Sr ex-autarca que não sabia que existia água no projeto, dá-nos impressão que só desde 2017 é que se percebe que havia água e muito quente, coisa, de facto inusitada, num balneário termal romano.

Era interessante que o leitor fizesse um pequeno roteiro de leitura pelas atas das assembleias municipais de todos estes anos.

Sobre este assunto, ainda alguma água vai correr, não sei se com muito ou pouco vapor. Na verdade, recentemente veio a público informar o atual autarca, Nuno Vaz, que afinal já se descobriu a forma de resolver o problema do vapor e da condensação, e que não, não é ainda este ano, como o previsto, que vai ser aberto ao público o Museu das Termas Romanas, mas, apenas para 2020. Sim, vai ser mesmo em 2020… ou se calhar mais perto de 2021! Mas, à semelhança do que dizia o ex-autarca António Cabeleira, há coisas difíceis de adivinhar.

Deste longo e triste episódio, vai ficar na história e na mente das pessoas, uma vaga ideia de que o ex-autarca João Batista teve algo que ver com o assunto, bem demarcadas uma série de afirmações infelizes do ex-autarca António Cabeleira e por fim, parece que se antevê a anunciação heróica e messiânica, do atual autarca salvador.

Mas, o que queríamos realmente era que fossem apuradas responsabilidades. De quem é a culpa afinal? Será que foi o poder central que não valorizou devidamente a importância deste achado, que se encontra no interior do país? Será que não o tomou devidamente a seu cargo? Foram as instâncias centrais que não contribuíram para o apoio técnico necessário? Quem tem responsabilidade no facto de um importantíssimo achado histórico, com potencial cultural, científico, económico… tenha sido deixado à mercê de pareceres locais irresponsavelmente orientados pelo medíocre jogo eleitoralista?

Nós, cidadãs ou cidadãos, podemos e devemos exigir responsabilidades, locais e nacionais, pela forma como é gerido o nosso património cultural e os fundos públicos. Mas que culpa temos se somos continuadamente ignorados e a nossa opinião desprezada?

É de senso comum que a culpa é de quem tem maior responsabilidade.

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Nasceu em Chaves no ano de 1979.
Licenciada em Ensino Biologia-Geologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, no ano de 2001. Mestre em Ciências de Educação - Especialização em Animação Sociocultural pela UTAD. Frequentou o 2.°ciclo do curso Bietápico de Licenciatura em Engenharia do Ambiente e do Território do Instituto Politécnico de Bragança.
Lecionou, como docente contratada do grupo de Biologia e Geologia, em várias escolas do país. De momento trabalha como administrativa na empresa Vitrochaves SA.

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