Não estou certa por que motivo, mas um dia, o veterinário que aparecia nas campanhas de vacinação, foi chamado lá a casa para prestar assistência a algum dos animais. Não me lembro de que maleita padecia o animal, mas ficou bem marcado na minha memória o desagrado com que nos caiu aquela expressão: “Pois, os senhores estão aqui atrás do pôr-do-sol!”

Pois, o atrás do pôr-do-sol depende de onde vemos o sol a pôr-se.

Aqui os crepúsculos são lindos, tal como as noites e os amanheceres. Mas nem sempre se vê o sol e a culpa disso não se prende com os montes nem com as serras.
Sucessivamente as perdas de serviços e transportes são fundamentadas com o facto da baixa densidade populacional não justificar a sua existência. Então, procuramos incessantemente “fixar população”.
A perda da População nestas terras é uma realidade. Entre 2001 e 2017 o município de Chaves perdeu cerca de 4000 habitantes, segundo o pordata a população total em 2001 era 43563 e em 2017 tínhamos uma população total 39591, tal como Valpaços (população total em 2001 correspondia a 19415 e em 2017 a 15224), seguindo-se Montalegre com uma perda de cerca de 3000, Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena com perdas na ordem dos 2000 1. Há contudo quem afirme que apesar deste esvaziamento de população seja uma realidade, não é um problema. Não seria problema se isso não viesse na sequência da falta de condições, pela perda de serviços, e da falta de oportunidades.

A culpa das pessoas não viverem bem nestas terras não se deve quase nada à natureza das terras, mas prende-se com a natureza daqueles que tiveram responsabilidade na sua gestão e no seu governo, cuja função na maioria das vezes passou a ser o governo delas mesmas.

Correndo o risco de sermos redundantes, nós, já sabemos e estamos fartos de saber da injustiça e das desigualdades quer no país, quer na Europa. A desigualdade é algo que existe, plasmada aos olhos de todos e como se pode comprovar pelos estudos recentes que indicam que a Europa da igualdade, da inclusão, da liberdade, da segurança e da justiça, afinal não favoreceu o desenvolvimento sustentável e equitativo. Como já todos tivemos oportunidade de consultar, o estudo elaborado por Thomas Blanchet, Lucas Chancel e Amory Gethim, do Laboratório Mundial da Desigualdade, aponta para uma desigualdade crescente na Europa desde 1980, sendo Portugal um dos países da União Europeia que apresenta maiores índices de desigualdade económica. Este estudo frisa a importância da existência de um conjunto de medidas na Europa, tais como o salário mínimo, a proteção social, o acesso universal à saúde e à educação, pois permitem assegurar um crescimento mais inclusivo, conferindo-lhe maior resiliência económica em comparação com os EUA. Mais uma vez percebemos que serviços públicos de qualidade são fundamentais2.
Se fizermos uma breve pesquisa na imprensa dos últimos anos, percebemos que anualmente os media dão nota de que Portugal continua com níveis de desigualdade elevados à escala europeia.

O desemprego, a precariedade, a pobreza, a ainda baixa escolarização, são fenómenos que afetam principalmente os jovens em transição para o mercado de trabalho, as mulheres com menos recursos e os imigrantes mais desfavorecidos.

Estas também são condições que empurram os e as que saem do país ao encontro de melhores oportunidades… No fundo são o conjunto dos e das que têm menos capacidades de se mobilizarem em ação coletiva.
Que vamos fazer então?
Interiorizamos que somos o interior, o atrás do pôr-do-sol, e vamos resignar-nos a não ver o sol nascer para nós? Vamos continuar a deixar que nos chamem lamechas e acreditar no mito do empreendedorismo como se a nossa condição fosse única e exclusivamente nossa responsabilidade?
Voltando ao estudo anterior, este refere que o principal problema das desigualdades não se prende com o aumento das transferências entre países europeus, mas antes com a forma como internamente os países asseguram ou não que as multinacionais e os indivíduos ricos pagam porção justa de impostos, que devem ser aplicados no financiamento adequadamente dos serviços públicos, que reconhece como a base fundamental do modelo social europeu.

Não nos parece que seja às custas da deterioração do ambiente e do esgotamento de recursos que iremos conseguir maior igualdade e justiça.

Por isso, não entendemos como a construção de barragens, ainda é anunciada sob alguma pompa e circunstância, em sessões com a presença das empresas hidroeléctricas e dos autarcas, a responderem sobre as compensações pelos prejuízos que advém da sua construção. Como se fosse alguma vez possível compensar a forma como hipotecamos o futuro das próximas gerações!
Isto aconteceu a semana passada, a propósito das barragens que vão ser construídas no âmbito do Sistema Electroprodutor do Tâmega, em Parada de Monteiros e Carrazedo do Alvão.
Cada vez que que se constrói uma barragem, que se instala uma unidade extratora ou transformadora que vá esgotar os recursos e contaminar os nossos cursos de água, os solos e o ar… é como se vendêssemos um órgão interno… vender um órgão até era capaz dar dinheiro, o problema é que se calhar faz-nos falta para viver!

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Nasceu em Chaves no ano de 1979.
Licenciada em Ensino Biologia-Geologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, no ano de 2001. Mestre em Ciências de Educação - Especialização em Animação Sociocultural pela UTAD. Frequentou o 2.°ciclo do curso Bietápico de Licenciatura em Engenharia do Ambiente e do Território do Instituto Politécnico de Bragança.
Lecionou, como docente contratada do grupo de Biologia e Geologia, em várias escolas do país. De momento trabalha como administrativa na empresa Vitrochaves SA.

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