Educar, deveria ser o trabalho no sentido de ajudar o outro a desenvolver-se em pleno e naquilo que são as suas especificidades. Contudo, continua patente na sociedade, reproduzindo-se depois na própria escola, que há um ideal de ser humano e um percurso normal, e educa-se para essa normalização e naquilo que consideramos o ideal e normal. Se pensarmos bem, a exclusão começa na escola: onde há uma seleção entre os bons e os maus, entre os graciosos e os desajeitados. 

Pese embora o assente na declaração de Salamanca, assinada por Portugal, e o estipulado nos decretos-lei n.º 54 e 55. Houve e há a tendência para a sobrevalorização de umas características, em relação a outras, valorizando características que às vezes só alguns têm, e sem refletirmos na utilidade dessas características no futuro de cada um. 

Com o decreto-lei n.º54 foi abandonada a categorização de alunos de acordo com as necessidades educativas especiais, e deixou de haver uma legislação exclusiva para alunos designados especiais, em vez disso, preconiza-se uma prática educativa que responda a todos os alunos que permita suprimir todas e quaisquer barreiras ao acesso à educação e aprendizagem. Trata-se de uma visão que implica a reorganização da escola e da comunidade, no sentido de mobilizar todos os recursos, humanos, materiais e institucionais, das diversas áreas, para que, de forma complementar, se consiga suprir necessidades e construir uma escola inclusiva.

No entanto, não se pode afirmar que esta seja uma realidade conseguida. Pois a escola com um Design Inclusivo e Participativo deve ter todos os atores implicados nesse processo, e que haja espaço e tempo para que ocorra a discussão, contributo, avaliação, monitorização e decisão em grupo sobre cada passo a dar, ou seja, uma prática de ação-reflexão conjunta e partilhada, tornando a escola uma fonte de inovação, que procura responder a todas as necessidades e pode dispor de todos os recursos necessários em parceria com outras entidades.

A tarefa hercúlea de trabalhar para a inclusão só será possível através de uma partilha dos problemas, trabalhando de forma cooperativa, em que haja a colaboração de todos os atores do processo, em toda as etapas de resolução dos problemas que emergem em diferentes contextos e partilhando as decisões, tomadas de decisão em conjunto e responsabilizando todos pela decisão e pela concretização da sua função. Quando falamos de todos os atores, referimo-nos aos alunos e alunas, pais, encarregados de educação, pessoal docente, não docente, e técnicos diversos. 

Este trabalho, para educação inclusiva, envolvendo todos, só é possível com uma comunidade empenhada e motivada.

Uma das questões que nos colocamos é porque é que isso ainda não acontece, apesar de toda a boa vontade para isso.

  Ora, a educação inclusiva apenas será possível e terá alguma expressão, se houver encorajamento e organização a partir das lideranças, de modo que todos os implicados sintam apoio e confiança para atuar e inovar. Outro aspeto, prende-se com aspetos socioeconómicos, aos quais não é alheia a falta de investimento na educação pública.

Isto, faz-nos recordar a relação que há entre a condição socioeconómica e a sua influência no desenvolvimento cognitivo, um dos aspetos do desenvolvimento. O que podemos entender, se pensarmos que uma condição socioeconómica desfavorecida implica frequentar uma escola com poucos recursos humanos e físicos, onde chove nas salas, onde há amianto, onde o frio se faz sentir, e cujos recursos humanos estão desmotivados, são mal pagos, precários… entre tantas outras coisas. Num cenário destes, não basta legislar para a inclusão e esperar pela boa vontade para que se concretize o milagre de uma escola pública inclusiva. É preciso reforçar e valorizar a escola pública, aquela que educa para o desenvolvimento pleno de todas e de todos.

O Bloco de Esquerda está presente na luta pela inclusão, na defesa da justiça social e na defesa da escola pública para todos e todas.

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Nasceu em Chaves no ano de 1979.
Licenciada em Ensino Biologia-Geologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, no ano de 2001. Mestre em Ciências de Educação - Especialização em Animação Sociocultural pela UTAD. Frequentou o 2.°ciclo do curso Bietápico de Licenciatura em Engenharia do Ambiente e do Território do Instituto Politécnico de Bragança.
Lecionou, como docente contratada do grupo de Biologia e Geologia, em várias escolas do país.

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