Foto de UNclimatechange | Flickr

Pronto, já sabemos que a cimeira das Nações Unidas sobre as alterações climáticas rompeu o véu de muitas expectativas e resultou em quase nada. Daqui a menos de um ano, haverá mais uma tentativa em Glasgow. A composição da atmosfera chegou ao fim de 2019 em pior estado do que quando o ano começou. Em vez de seguirmos o caminho oposto, como tinha sido acordado em Paris, há quatro anos, as emissões de gases com efeito de estufa continuarão a aumentar.

Seria obrigatório que este ano novo fosse, realmente, de vida nova. Estamos a aumentar as emissões 1,5% por ano e teríamos de passar a diminuir 7,6%. Como vai ser? A desilusão está estampada nas palavras de António Guterres em Madrid: “Estou dececionado com os resultados”. O secretário-geral da ONU fez um esforço enorme, com as organizações ambientalistas, para que a cimeira não resultasse em mais um impasse.

Na verdade, as coisas estão a correr muito pior do que prevíamos nos anos de 1990. A atmosfera tem modos de funcionamento muito complexos, sobretudo nas suas interações com o oceano e com as superfícies litosféricas e criosféricas. O aquecimento global dispara uma série complexa de reações que só com monitorização e investigação podemos conhecer e prever mais aproximadamente as respostas do sistema climático.

Apesar de aquém da apreensão do ritmo com que os fenómenos de extrema severidade se vêm sucedendo, a comunidade científica respondeu muito bem ao longo dos últimos 30 anos. Confrontava-se, e continua a confrontar-se, com o poder económico-político dos potentados dos combustíveis fósseis que se impôs nas nossas sociedades como modo dominante de produção de energia. Combustíveis fósseis que, sendo património do passado pré-humano, mantêm a Humanidade prisioneira dos interesses instalados pela sua exploração. Configuraram-se a partir da Revolução Industrial e condicionaram a evolução das sociedades até hoje.

Como dependemos de um acordo em que países como EUA, China, Índia e Rússia, entre outros que não participam, a possibilidade de um acordo eficaz não está perfilada. Há resistências em alguns desses países, mas não alimentam esperanças no curto prazo. Por exemplo, os tribunais dos EUA estão assoberbados com uma vaga de processos que exigem indemnizações para custear efeitos das alterações climáticas. Podem ser julgados improcedentes, mas possuem uma elevada carga simbólica, designadamente as exigidas às companhias petrolíferas por efeitos nocivos na saúde pública e por campanhas negacionistas de desinformação e influência nas decisões.

O custo das catástrofes com origem meteorológica foi avaliado, nos EUA, em 306 mil milhões de dólares. Não tenho dados sobre a sua avaliação nas últimas décadas, mas previsões especializadas caraterizam-nos como ligeiros face ao custo muito mais alto, se o nível das emissões não for drasticamente reduzido. Há economistas que apontam para crescimentos negativos e grande agressividade na procura de lucros num quadro económico global contraído pela multiplicação e agravamento das catástrofes meteorológicas e climáticas.

Outro género de processos foi movido por adolescentes em nome da sua geração e designado como “Juliana versus United States”. Acusam o Estado de, não empreendendo ações contra o aquecimento global, transferir para eles os custos ambientais acumulados. No último ano, as preocupações desta geração de adolescentes ajudaram a criar um consenso social ampliado com base no consenso científico.

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Nasce em Castelo Branco em 1944. Em 1961 vai estudar Físico-Químicas para a Universidade de Coimbra onde com a crise e a repressão académicas nasce a sua consciência política. No ano de 1969 integra os quadros do Serviço Meteorológico Nacional. Mobilizado para a Guiné Bissau, consegue no entanto ser destacado para Timor-Leste, onde permanece entre 1973 e 1974 a chefiar o Serviço Meteorolóqico.
Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002 para tentar desenvolver um projeto-piloto de regionalização de atividades meteorológicas.
É autor dos livros “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (1996), “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (2000) e dos livros de poesia "Corpo Aberto" (2016) e "De muitos ventos e utopia" (2018).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002.
É autor dos livros “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (Imagem do Corpo)” (2000), e da antologia “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (2002).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.

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