Confesso que me apetece cortar relações com os bancos. Não com os bancos que aceitam receber as minhas inquietações convivendo com os enxames de pássaros que acampam nas árvores, ao fim da tarde, junto à avenida Nuno Álvares. Refiro-me aos bancos do dinheiro. E só não o faço porque, se o fizesse, os ditos condenavam-me a mourejar nos porões da Idade Média escondendo o pé de meia.

Ainda não há muito tempo, os bancos eram instituições financeiras que intermediavam a relação entre quem fazia poupanças e quem, como eles, eram agentes encartados para receber empréstimos. Então, remuneravam os que lhes facultávamos e, com eles, garantiam lucros, distribuição de dividendos, domínio em fábricas, edifícios, governantes e deputados favoráveis, eu sei lá que mais.

No passado, pagavam juros aos depositantes e cobravam juros maiores. No diferencial começava a sua riqueza e o seu domínio. Desde há tempos que já não é bem assim. Tirámo-los do último buraco em que caíram e pagaram-nos passando nós, também, a ser seus devedores, pois obrigam-nos a pagar aquilo a que chamam de “comissões” (ai a palavra comissões!). Não percebo de bancos, mas já tenho a minha dose de ver orgias de papéis do Panamá em cofres selados por este mundo tão corrompido e corruptor. Sendo parvo em muitas coisas, nesta não sou parvo nem cego; vou apenas fazendo vista grossa. É tanta a canseira de andar a bater com a cabeça nas paredes, que não posso andar, constantemente, a tratar das feridas. Enfim, resmungamos até que o cansaço conduz à resignação.

Deixem-me brincar com uma saída (televisionada) do presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos. Suponho que a tenham visto e ouvido. Então não é que lhe deu para associar poesia ao que dizia em conferência de imprensa citando um poema de Mário-Henrique Leiria? Mário-Henrique Leiria, um poeta que, se estivesse ainda connosco, muito haveria de gozar e, provavelmente, glosar, com arrasadora capacidade satírica, ao ver o presidente da CGD a usar um poema seu para elogiar as suas próprias proezas banqueiras.

Pois bem, Paulo Macedo dizia estar a endireitar a Caixa e citava o poema “Rifão Quotidiano” para registar que o banco não era uma nêspera “deitada/ muito calada/ a ver/ o que acontecia.” Não senhor, tratava das desgraças desta instituição pública que tão mal tem sido gerida por governos e administrações nomeadas com lógicas escondidas. Garantia que não se deixava comer, como acontece às nêsperas, pois terá aprendido que esse é o destino das “nêsperas/ que ficam deitadas/ caladas/ a esperar/ o que acontece”, como Mário-Henrique Leiria regista no poema. Vai daí, pumba!

Já nos vergava com comissões por lhe entregarmos os vencimentos para explorar e, agora, altera os preços e aumenta os encargos das contas mais baixas, ao mesmo tempo que reduz as comissões das contas de clientes com maior património. Enfim, artes imaginativas de quem não fica deitado e calado, enquanto nós, obrigados e resmungando, cá vamos, deitados e calados, “a ver o que acontece”.

E não é que o Novo Banco se prepara para pedir mais 700 milhões de euros ao Fundo de Resolução da banca? Este valor, adicionado aos 792 milhões de que usufruiu no ano passado, servirá para cobrir novo buraco aberto nas suas contas. Pois, pois, estou a ver. A CGD vai ser chamada a contribuir para resolver mais este novo imbróglio, já que não poderá ficar deitada, calada “a esperar/ o que acontece.” Bancos para que vos quero!…

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Nasce em Castelo Branco em 1944. Em 1961 vai estudar Físico-Químicas para a Universidade de Coimbra onde com a crise e a repressão académicas nasce a sua consciência política. No ano de 1969 integra os quadros do Serviço Meteorológico Nacional. Mobilizado para a Guiné Bissau, consegue no entanto ser destacado para Timor-Leste, onde permanece entre 1973 e 1974 a chefiar o Serviço Meteorolóqico.
Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002 para tentar desenvolver um projeto-piloto de regionalização de atividades meteorológicas.
É autor dos livros “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (1996), “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (2000) e dos livros de poesia "Corpo Aberto" (2016) e "De muitos ventos e utopia" (2018).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002.
É autor dos livros “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (Imagem do Corpo)” (2000), e da antologia “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (2002).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.

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