Em novembro, rebentou uma controvérsia sobre a intenção do Governo de acabar com as reprovações nas escolas. A opção era lapidar: como reprovar não é solução, todos os estudantes transitarão. De imediato, o assunto vestiu as camisolas do preto e branco e em breve se desfez passando, sem reflexão, ao estado de vapor. Nem a discussão do Orçamento de Estado o fez ressuscitar.

Por acaso, encontrei um texto na coluna semanal que mantive, durante anos, no “Diário de Notícias” (também intitulada “Cata-Ventos”) e fiquei surpreendido. Publicado em 16 de janeiro de 1993 (há 27 anos), deduzo, sem presunção, que mantém atualidade. Ora leia.

“Isto não pertence ao nosso mundo”, confessava-me uma professora a respeito do novo sistema de avaliação que o Ministério da Educação quer implantar sob o lema “Avaliar é Aprender”. Quem o diz não é avesso à mudança; pertence, aliás, à geração que sustenta as escolas com profissionalismo e, ainda, com idealismo. Até que estoire e já não haja quem possa ser professor de raiz, caule, folhas, frutos.

Há poucos anos, descobriram que o insucesso escolar ultrapassava as marcas e criaram uma estrutura institucional destinada a enfrentar o problema. Pelos vistos, para nada. Continuo a ouvir: “Concluíram que a melhor maneira de diminuir o insucesso era decretar o sucesso.” De facto, as medidas tomadas desencorajam outras hipóteses. Os professores com quem falo garantem que responderão com a indiferença que nasce da desilusão.

Dou comigo a ler o documento editado pelo Instituto de Inovação Educacional que explica aos professores “as razões da mudança”. São palavras edificantes, mas qualquer semelhança com o mundo real, a que é suposto estarem ligadas, será mera coincidência. Quase se pode deduzir que a razão do insucesso se resume à inexistência do despacho normativo que o documento tenta explicar. São palavras desprendidas da poeira da Lua. São (más) boas intenções em demasia a flutuar sobre os magmas das dificuldades. Uma pena para as (boas) boas intenções.

De facto, não têm criado bases para a escola que dizem destinar-nos. Essa escola é uma miragem criada por palavras de gente inexperiente sequiosa de experiência(s); gente acossada pela impaciência e pela mira do sucesso fácil; sem chão, instrumentos, pessoas, estruturas físicas e culturais. Gente que não tem a sageza necessária pare gerar o novo de modo sustentado, edificado com meios, harmonia e profundidade para o futuro. Gente que anda por aí à solta numa fúria reformadora que nos encandeia, arrasando o melhor que podemos atingir.

Repito: isto escrevia eu, quase leigo na matéria, há 27 anos. E vejam como são as coisas neste nosso país de meias tintas (há muitos na Europa) … só quero lembrar as barbas de tanto envelhecer deste problema. Estamos há décadas sem Governo de gente madura capaz de tomar o assunto em mãos e agir planeadamente para atingir objetivos que só faseadamente se podem cumprir.

Recordo a intenção, lançada em novembro de 2019, de acabar com as reprovações e tenho de concluir que foram palavras de vento que se desenfiaram na primeira esquina que lhes perguntou por onde iam. Como em 1993, “concluíram que a melhor maneira de diminuir o insucesso era decretar o sucesso.”

Há dias, uma professora contava-me a reação do diretor da sua escola quando pedia orientações sobre problemas com que se defrontava: “Não te maces. No fim do ano passam todos.” Pelos vistos, concluíram que o futuro não faz cá falta nenhuma.

 

Artigo publicado no semanário “Reconquista”, na rubrica “Cata-Ventos” 

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Nasce em Castelo Branco em 1944. Em 1961 vai estudar Físico-Químicas para a Universidade de Coimbra onde com a crise e a repressão académicas nasce a sua consciência política. No ano de 1969 integra os quadros do Serviço Meteorológico Nacional. Mobilizado para a Guiné Bissau, consegue no entanto ser destacado para Timor-Leste, onde permanece entre 1973 e 1974 a chefiar o Serviço Meteorolóqico.
Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002 para tentar desenvolver um projeto-piloto de regionalização de atividades meteorológicas.
É autor dos livros “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (1996), “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (2000) e dos livros de poesia "Corpo Aberto" (2016) e "De muitos ventos e utopia" (2018).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.Em 1984 passa a ser um dos rostos da informação meteorológica na RTP, e dez anos mais tarde da TVI, onde permanece até 1998. Regressa à sua cidade natal em 2002.
É autor dos livros “Voltar a Timor” (1998), “Podia Ser de Outra Maneira (Imagem do Corpo)” (2000), e da antologia “Mudam os Ventos Mudam os Tempos – Adagiário Popular Meteorológico” (2002).
Com um currículo extenso, podemos resumir a vida do “poeta do tempo” como: meteorologista e cidadão no tempo que lhe calhou nesta vida de entre duas noites.

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