A força política da solidariedade contra as extremas-direitas

“A força política da solidariedade é aquela que não permite deixar ninguém de fora por pretexto da documentação, idioma ou da tez da pele de alguém; mas também a que se recusa ativamente a reduzir os outros a humanos que valem apenas pela sua função económica e a conformar-se com uma visão do mundo onde a desigualdade social e económica é encarada com naturalidade.”
Foto de Robert Thivierge Flickr

Face ao ascenso da extrema-direita fascista e neoliberal, Chega e IL, no que respeita ao espaço de disputa da direita tradicional, creio que se devia falar mais da força ou da potência política da solidariedade. É que se a esquerda se afirma politicamente como uma força de base, de solidariedade social, de fraternidade entre iguais (e todos e todas somos iguais), a partir da qual define o seu horizonte ideológico e constrói a sua alternativa diante do capitalismo vigente, o Chega e a IL são os inimigos políticos e respetivos destruidores dos laços sociais que se constituem por via da solidariedade. O Chega, na sua afirmação do ódio contra os imigrantes (melhor, no ódio contra os imigrantes pobres), é um partido que se alimenta pelo menos da restrição da solidariedade, restringindo-a, mesmo se apenas retoricamente, à “comunidade nacional”. O mesmo se aplicando, claro está, à solidariedade pela condição das mulheres ou pela autodeterminação sexual de todos e todas. Mas também a IL, elevando o mercado a forma de governo (ainda que essa elevação constitua uma operação inteiramente ideológica), assume que o egoísmo, expresso na concorrência de todos contra todos e na competição permanente, é a “virtude” antropológica por excelência que conduzirá, paradoxalmente, à prosperidade geral. Se em termos que retomamos de um Polanyi o Chega representa o “enraizamento” da sociedade diante do “desenraizamento” do mercado, tal só acontece por meio da glorificação do nacionalismo e excluindo os não-nacionais (mesmo se apenas os não-nacionais pobres que são a vasta maioria e formam o proletariado global). Já a IL, pretendendo soltar “as forças livres do mercado” das “amarras” do Estado (amarras estas que, na verdade, correspondem também, e de forma essencial, à sua função regulatória), defendendo, portanto, o desenraizamento da sociedade em prol do enraizamento do mercado, acaba por assumir (como efeito desejado ou não) o permanente desfazer de todos os laços sociais que precedem e sedimentam qualquer comunidade política e sua própria possibilidade ontológica.

A força política da solidariedade é aquela que não permite deixar ninguém de fora por pretexto da documentação, idioma ou da tez da pele de alguém; mas também a que se recusa ativamente a reduzir os outros a humanos que valem apenas pela sua função económica e a conformar-se com uma visão do mundo onde a desigualdade social e económica é encarada com naturalidade. A solidariedade é também essa potência política que age contra a ideologia do darwinismo social de que a meritocracia é uma das suas variações. Portanto, a solidariedade pode e deve ser muito mais do que uma vaga ideia moral resultante de um humanismo abstrato para se afirmar como uma expressão da vontade coletiva contra os que pretendem encerrar a humanidade nos seus casulos etno-nacionais ou fazer de cada homem o lobo do outro homem.

Outros artigos deste autor >

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

Related Posts
Ler Mais

Por uma Cultura 2.0

Imagem de Nino Carè por PixabayO momento que vivemos é de particular gravidade e de grande incerteza no…
Feminismo
Ler Mais

Danadas e Insubmissas

"Esta é a chamada para que no dia 8 estejamos todas juntas a fazer-nos ouvir, onde não faltem abraços de força, de saber que não estamos sozinhas. Somos danadas, somos insubmissas, sabemos que os nossos direitos não são dados adquiridos, que não se pode ser feminista sem lutar pela liberdade, e que esta luta é feita todos os dias."
Ler Mais

Ver TV É Sofrer Como No WC

Foto de Paulo FernandesAmiga leitora, há 49 dias que não ligava a televisão. Hoje liguei e vi uma…
Skip to content