A falta de vontade política da maioria nos serviços públicos

A política existe para as pessoas, e, por isso mesmo, a mesma não pode contribuir para a constante degradação daquele que é o nosso Serviço Nacional de Saúde. Ao negarem-se estes serviços primários e de proximidade àquela que é a pessoa grávida faz com que se contribua para a desumanização dos partos. A verdade é que não é a falta de população nestes territórios ou a falta de vontade de recorrer a estes serviços, é sim a falta de vontade política da maioria em investir em profissionais que queiram trabalhar no SNS e viver no interior.
Sala de espera do hospital
sala de espera do hospital

O constante desinvestimento do Governo nos serviços públicos não é uma novidade para nós. Semelhante àquilo que foi o último ano a inflação continua a assaltar a vida, os salários e as pensões das pessoas, a crise na habitação tem se vindo a fazer sentir com o aumento das rendas, onde se continua a privilegiar residentes não habituais e vistos gold através de uma política que de esquerda nada tem. Nas ruas, professores, estudantes e trabalhadoras das escolas saem em greve e protesto para lutar pela escola pública como garantia de uma educação igual, democrática, livre e inclusiva para todas e todos.

O clima que se vive é de dúvida e receio pelo dia de amanhã. O ambiente nas urgências e maternidades do país acaba por não ser diferente deste. O Ministro da Saúde continua a negar a realidade ao afirmar que cada situação que se vive no SNS são situações pontuais, falamos aqui da falta de profissionais de saúde, urgências e serviços que continuam a fechar de forma rotativa pois não conseguem dar resposta à população. Perante este cenário o Governo acredita que a solução passa pelo encerramento de serviços ao invés de investir nos mesmos. A isto dizemos: ao colocá-los mais longe dos seus utentes apenas irá agravar e fragilizar ainda mais o SNS, não resolvendo os problemas já existentes.

Três dos locais onde o Governo está com ideias de encerrar os serviços de maternidade são em territórios da Beira Interior: Guarda, Castelo Branco e Covilhã. Ora, ao longo dos últimos anos temos vindo a assistir àquilo que é um divórcio entre serviços públicos e interior, e a possibilidade de se virem a fechar estas maternidades apenas vem provar, uma vez mais, tal situação. Segundo o Ministro o fecho acontece pela enorme falta de profissionais a assegurar a existência dos mesmos. Eu diria de outra forma, acontece porque o Governo prefere acabar com algo que é necessário à vida das pessoas em vez de investir numa política pública de saúde, criando condições e capacidade de captar profissionais para o SNS, reforçando o mesmo.

A política existe para as pessoas, e, por isso mesmo, a mesma não pode contribuir para a constante degradação daquele que é o nosso Serviço Nacional de Saúde. Ao negarem-se estes serviços primários e de proximidade àquela que é a pessoa grávida faz com que se contribua para a desumanização dos partos. A verdade é que não é a falta de população nestes territórios ou a falta de vontade de recorrer a estes serviços, é sim a falta de vontade política da maioria em investir em profissionais que queiram trabalhar no SNS e viver no interior.

Enquanto militantes de esquerda questionamos o Governo do PS e o Ministro da Saúde sobre quais os encerramentos que vão ser realizados e qual o modelo de funcionamento de urgências e serviços que querem impor a territórios e populações. Que a memória não nos falte, o SNS é das maiores conquistas de Abril, com gente que se dedica a cuidar de gente e com isso não podemos acabar.

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Beatriz Realinho, de 21 anos, natural da Guarda. Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Está no mestrado em Estudo sobre as Mulheres: As Mulheres na Sociedade e na Cultura, na mesma instituição.

Faz parte de diversos movimentos e coletivos sociais, ambientais, LGBTQIAP+ e Feministas, sendo coautora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”.

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