Sobre o racismo estrutural

Assumirmos que o racismo é “estrutural” (depois ver-se-á o que é que isso significa na teoria e na prática) é deslocarmos a questão do racismo para fora das questões de “identidade”.
Vota contra o racismo
“Vota contra o racismo”. Foto Plataforma Já Marchavas

Que as estruturas da sociedade sejam racistas isso significa que a sociedade delas depende para funcionar como funciona. O exemplo mais claro é o da sociedade esclavagista que fazia depender o funcionamento da sua economia da existência de escravos. E a racialização de vastos grupos étnicos serviu o propósito de construção de tal tipo de sociedade; modelo que “evolui” na forma colonial. A abolição da escravatura ou mesmo a ilegalização constitucionalizada das expressões racistas nas democracias liberais não se traduziu de forma imediata na dissipação do “racismo estrutural”, bem pelo contrário. O racismo é estrutural nas nossas sociedades de “modelo ocidental” porque dele depende a sua preservação digamos ontológica. Sociedades que se constituem e evoluem em torno da exploração classista, da defesa da propriedade (seja privada, seja até pública) e da soberania nacional (das fronteiras), são sociedades para as quais o racismo se lhes tornou vital. E as nossas sociedades contemporâneas, depois da abolição da escravatura e da criminalização das expressões individuais e institucionais do racismo, continuam a gravitar em torno destes três eixos: exploração de classe, proteção da propriedade e centralidade da soberania nacional. A materialização da relação entre um “nós” e um “outros” desempenha um papel fundamental no capitalismo, colocando a mão-de-obra nacional contra a mão-de-obra imigrante, sedimentando a divisão internacional do trabalho (transferindo a “fábrica do mundo” para o continente asiático), e estratificando a sociedade dentro das suas fronteiras entre a mão-de-obra barata proveniente do exterior consoante a ocupação dos postos de trabalho indesejados pelos “nacionais” e a distribuição da mais-valia do trabalho dos primeiros por estes cidadãos de “pleno direito”. Quer dizer, as estruturas não existem em si, para si e por si, sendo antes como que o reflexo da maneira de como as sociedades se organizam dentro da cosmopolis do Império e do seu consequente devir. Políticos e políticas há que podem ser mais ou menos eficazes em mitigar os efeitos do racismo estrutural (antes de tudo beneficiando os racializados), que no final do dia estas estruturas irão preservar-se (consoante, quem sabe, “novas modalidades”) enquanto a sociedade assentar na trindade exploração, propriedade e soberania.

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

Related Posts
Marisa Matias
Ler Mais

Marisa Matias: a Mulher sem medo

Foto por Ana MendesMarisa Matias anunciou esta semana a sua candidatura à Presidência da República, rodeada de profissionais…
Luta feminista, 8M. Foto Plataforma Já Marchavas
Ler Mais

Feminismo – Uma luta pelo inerente

Na distopia patriarcal “ A história de uma serva”, Margaret Atwood esboça um pós-guerra civil onde o governo é derrubado por extremistas religiosos de direita, criando um regime totalitário.
Sertã
Ler Mais

Sertã: Orçamento e Grandes opções de Plano

"Se realmente a Câmara respira essa saúde financeira, não a respira pela boa gestão. Respira exatamente  pela sua má gestão. Onde havia e hoje ainda há tanto por fazer."
Skip to content