Estará o lucro acima das pessoas?

Quando falamos de escolher entre o capital e a vida digna das pessoas seria resposta óbvia que a última é mais importante que a primeira. Mas não é dessa forma que os bolsos de quem ganha com a desgraça de outros pensa.
Lucro Dinheiro

Apesar de as alterações climáticas serem um tema que não é novo continuam a ser um assunto da ordem do dia, sendo imperativa a luta que tem como propósito salvar o clima. O cenário que enfrentamos é cada vez mais caótico e avançamos em contrarrelógio nesta luta que começou tarde. Quando falamos de escolher entre o capital e a vida digna das pessoas seria resposta óbvia que a última é mais importante que a primeira. Mas não é dessa forma que os bolsos de quem ganha com a desgraça de outros pensa. 

Isto tem-se intensificado a um nível frenético, uma vez que as catástrofes que outrora eram vistas como naturais e tidas como raras têm vindo a acontecer com mais frequência, reforçando a emergência da ação climática. Desde a Revolução Industrial que o ser humano tem construído uma sociedade com base na exploração excessiva de combustíveis fósseis e extração de recursos naturais, onde o único propósito é o aumento do lucro, alterando e violando constantemente os ecossistemas da Terra como se estes fossem eternos, e as consequências da constante produção de capital provocam várias ameaças ao planeta. 

Uma dessas ameaças é sem dúvida o querer da existência de mais minas a céu aberto que apenas vêm prejudicar a luta que tentamos travar, sendo, por isso mesmo, a oposição a qualquer proposta apresentada de exploração ou prospeção mineira imperativa, visto que o bem-estar das populações e das suas terras é superior ao lucro de alguns. Os recursos extraídos destas explorações não são nem sustentáveis nem renováveis, o que torna ainda mais prejudicial a sua extração. As minas comprometem o desenvolvimento sustentável das regiões, especialmente do interior, já que afeta todos os ecossistemas, falo aqui da contaminação do ar que provoca problemas respiratórios, do prejudicar dos solos e das águas que ficam poluídos com ácidos e metais pesados. A água é utilizada para o consumo humano, para a agricultura e na alimentação da pecuária (que continua a ser o sustento ainda de muita gente), e estando a mesma imprópria e poluída faz com que a sua utilização seja impossível. Assim sendo, tanto a saúde das pessoas que moram nestes territórios, como da biodiversidade ali existente sofrem de forma negativa com um capitalismo que, mais uma vez, não olha a meios para atingir os seus fins. 

Tentam enganar-nos também com a ideia de que irá existir uma criação de mais postos de trabalho, esquecem-se de que as pessoas do interior são pessoas de garra, de luta, e que não se deixam levar. O processo de exploração das minas é cada vez mais mecanizado, o que faz com que a mão de obra não seja necessária, e que a ideia de mais emprego não seja apenas uma mera ilusão. 

Desta maneira, deixo-vos a seguinte questão: até que ponto vale a pena a danificação ambiental e a degradação do nosso território, das nossas paisagens e das nossas terras em relação ao lucro? Não é o tudo ou nada quando se trata da vida de pessoas. Deve ser a economia a estar subjugada à crise ambiental e não o contrário, pois acreditem que não nos resta muito tempo, são necessárias soluções que garantam uma forte redução à dependência da extração mineira, porque não existe de todo um Interior B. 

São necessárias políticas concretas, respostas e sobretudo força para continuar a lutar uma luta tão desigual, tudo isto porque o lucro no bolso de alguns não pode nem deve ser, repito, mais importante do que toda esta gente, de que todas estas terras, que apenas quer uma vida que seja digna de se viver.

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Beatriz Realinho, de 21 anos, natural da Guarda. Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Está no mestrado em Estudo sobre as Mulheres: As Mulheres na Sociedade e na Cultura, na mesma instituição.

Faz parte de diversos movimentos e coletivos sociais, ambientais, LGBTQIAP+ e Feministas, sendo coautora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”.

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