(…) Sempre a merda do futuro e eu que me quilhe, pois, pá. Sempre a merda do futuro. A merda do futuro, e eu hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá. E eu? (…) Quero ser feliz porra. Quero ser feliz, agora. Que se foda o futuro (…).

 

Desde a primeira vez que ouvi o famigerado texto do José Mário Branco, “FMI”, que me questiono sobre o porquê do público, que se escuta na gravação, se ter rido até ao trecho que se encontra transcrito acima e nunca mais o ter feito após essa passagem. Na realidade, no pós-trecho, não só acabaram os risos, como o silêncio que tão bem se ouve é dotado das melhores qualidades fúnebres. 

Parece-me, agora, 10 ou 15 anos volvidos desde a primeira audição, que tal facto se deve à iliteracia política e/ou desilusão apática da audiência para com o ator político de inícios da década de 80.

Quão mais letrados politicamente estaremos trinta e sete anos depois? Terá a nossa perceção da política e dos seus intervenientes melhorado? Se o “FMI” fosse declamado hoje, voltaria a ser necessário um grito de desespero para entendermos a seriedade do tema e a crítica que nos está a ser feita?

Há uns meses, escrevia, a propósito da ascensão da direita extremista e das chamadas fake news, uma crónica que refletiu, de forma bastante tímida, a literacia em Portugal e o interesse dos portugueses na política 1Segundo dados da OCDE (2015), Portugal continua a ser dos países com competências de leitura mais baixas da União a 28. Portugal continua a ser dos países da União Europeia com as maiores taxas de analfabetismo e abandono escolar. Apesar das várias medidas que se têm vindo a tomar, apenas mascaram uma realidade: a do analfabetismo funcional ou iliteracia. Uma das grandes consequências é de que os alunos frequentam a escola, sabem ler e escrever, mas não têm aproveitamento, pois não conseguem compreender a palavra, o texto, o significado. Os fatores externos à escola estão associados a minorias étnicas ou culturais, populações mais desfavorecidas e populações que vivem fora dos meios urbanos. Ora, se formos analisar os dados relativos ao Douro e Terras de Trás-os-Montes, onde a taxa de analfabetismo é superior a 16% (16%-18%), é fácil concluir que os meios rurais e, nomeadamente, a região Nordeste é das mais prejudicadas.

Retomando a perceção dos portugueses relativamente à política, é fácil ligar (i)literacia e política. Segundo o indicador “Interesse na política” do Portal da Opinião Pública, ao longo da última década, Portugal esteve na cauda da Europa relativamente a este indicador, apenas à frente de países como a República Checa, Lituânia e Hungria. Só a partir de 2014 é que Portugal ultrapassou Itália. 

Os dados do Eurobarómetro mostram que 18% dos europeus não têm interesse algum na política, contrastando com os 16% que mostram um grande interesse (45% interesse moderado e 21% pouco interesse). Os portugueses comportam-se de modo igual, embora aqueles que não têm qualquer interesse seja bastante superior (32,5%). Um estudo recente mostra que 47,8% da população portuguesa não tem qualquer interesse pela política.  

Se cruzarmos os dados deste indicador com os fornecidos pelo Estudo Eleitoral Português de 2011, somos levados a concluir que o desinteresse na política anda de mão dada com eleitores pouco informados, e que, não raras vezes, votam em forças políticas que defendem interesses contrários às suas posições de princípio.

 Uma análise realizada por Pedro Magalhães ao Estudo Eleitoral Português de 2011 mostra isso mesmo ao evidenciar que, no que concerne ao sistema educativo, ao sistema de saúde ou às empresas públicas, os portugueses, independentemente do partido em que votaram, defendiam o controlo público desses sectores. Paradigmaticamente, foram os eleitores do PSD, partido de ação liberal, aqueles que, em 2011, mais se manifestaram a favor da manutenção do sistema de saúde na esfera pública. Oito anos passaram e vemos um governo PS que, a propósito da nova lei de bases da saúde, escreve “Arnaut” com a mão esquerda nos jornais e “Mello” com a mão direita no projeto de lei. Oito anos passaram e vemos aqueles que tudo privatizaram, muito preocupados com a nacionalização do SIRESP…

Terá o eleitorado mudado de opinião? Ou pura e simplesmente acha “que a solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada (…)”?

Uma democracia só funciona se existir uma ligação observável entre o partido político e a posição em que este se encontra, para que as pessoas os possam localizar3 . E essa é uma dimensão que tem de se manter inalterada para que a democracia e o sistema político funcionem. Caso contrário, o voto público é redirecionado para partidos populistas ou os chamados catch-all. Estes são aqueles partidos que não se identificam com a dicotomia esquerda-direita e assumem posições ambíguas, que apenas serve para iludir o eleitorado. Num estudo recente4, os portugueses identificam o Bloco de Esquerda e a Coligação Democrática Unitária como partidos de esquerda, o Partido Social-Democrata e o CDS – Partido Popular como partidos de direita e o Partido Socialista como estando a meio da escala. A par, esta prostituição política que se tem assistido, entre os grandes partidos do arco da governação, PS e PSD, mostra que tornou diluída a ideologia política de dois partidos que começam a tornar-se catch-all.

Considerando as duas dimensões, partidos políticos e (i)literacia, parece existir, por um lado, uma subversão escondida e camuflada de um PS que se diz de esquerda e assina medidas de direita e um partido como o PSD que dita políticas de direita, mas renuncia ao seu enquadramento ideológico para conquistar a todo o custo o voto. Por outro lado, temos o eleitorado que olha para este corrompimento ideológico e está completamente desacreditado e (i) ou prefere não ver e não ouvir ou (ii) prefere direcionar o seu voto para partidos que perderam a timidez de culpabilizar os mais vulneráveis para ganharem o voto público.

Quanto maior for a correspondência entre os princípios partidários, a sua ação governativa e as posições do eleitorado, melhor será a qualidade da nossa democracia. 

O combate à iliteracia política é o combate à abstenção e concerne a todos os partidos políticos e cidadãos. É parte essencial na luta contra o discurso xenófobo e de extrema-direita que, um pouco por toda a europa, se propaga junto de um eleitorado desiludido e que se prefere radicalizar num discurso extremista a exigir. E essa é uma causa maior!

 (esta crónica foi pensada em coautoria com Fábio Rocha)

 

1Para uma revisão do conceito: literacia é uma expressão comportamental de competência ou capacidade cognitiva que funciona como um conjunto de representações e processos que um indivíduo adquire como uma consequência obrigatória e direta de aprender a ler e a escrever, sustentada numa aprendizagem que envolve consciência social e reflexão crítica.
Gough, P. (1995) The New Literacy: caveat emptor. Journal of Research in Reading, 18(2): 79-86.
Morais, J. & R. Kolinsky (2005) Literacy and Cognitive Change. In M. Snowling & C. Hume (Eds.). The Science of Reading: A Handbook (pp. 188-203). Blackwell Publishing.
Olson, D. (1994) The World on Paper: The Conceptual and Cognitive Implications of Writing and Reading. Cambridge: Cambridge University Press.
2Lobo, M., V. Ferreira & J. Rowland (2015). Emprego, mobilidade, política e lazer: situações e atitudes dos jovens portugueses numa perspectiva comparada. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
3Granberg, D. & S. Holmberg (2002). A mass-elite comparison of wishful thinking. Social Science Quarterly, 83(4): 1079-1085.
4Belchior, A. (2015). Crise económica e perceções sobre a ideologia dos partidos políticos em Portugal (2008-2012). Análise Social, 217(L): 734-760.

Outros artigos deste autor >

Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

Deixe o seu comentário

Skip to content