Em junho de 1969 deu-se a revolta de Stonewall, composta de várias manifestações espontâneas de pessoas LGBT contra a invasão da polícia de Nova York no bar Stonewall Inn. Atualmente, por todo o mundo, concentram-se neste mês diversas iniciativas, marchas, manifestações, notícias, artigos em defesa dos direitos LGBTI+, é um mês propício à causa, à luta, ao orgulho e, acima de tudo, à reflexão.

O Interior não tem passado ao lado desta causa, o que está patente neste apanhado de publicações do Interior do Avesso até maio de 2020. O mês de junho será assinalado com novo conteúdo dedicado à causa LGBTI+.

No Interior também se marcha pelos direitos LGBTI+!

“Em 2017 um grupo de pessoas inconformadas com um sistema patriarcal maioritariamente capitalista, “viciado” em estereótipos e preconceitos, transversal à escala nacional, achou com necessidade emergente que se descentraliza-se as formas de luta, em particular as marchas” foi assim que surgiu a CATARSE| Movimento Social e a 1.ª Marcha pelos Direitos LGBT em Vila Real, que é também a primeira no Interior.

Desde aí todos os anos em Vila Real se marcha, “para que as cores que inundam as principais cidades de Portugal invadam a consciência de todos e que possa funcionar, também, como uma chamada de atenção contra a lesbofobia, a homofobia, a bifobia e a transfobia e pela constante luta sobre direitos iguais.” Como se pôde ler na divulgação da 3.ª, em 2019. Apesar das marchas e dos anos passarem o contexto político e social não permite que a luta faça pausas, “com a forte ascensão das vozes de ódio da extrema-direita. Vozes que se levantam com o objetivo de ferir a comunidade LGBT+ e de corroer a opinião pública. Continuamos a assistir à privação desses direitos que são tão básicos como o direito à educação e à saúde.”

No mesmo ano da CATARSE surge também o movimento LGBTIQ de Bragança. O movimento, com os objetivos iniciais de partilhar vivências, conversar sobre temáticas LGBT e passar a mensagem de que já havia em Bragança um espaço seguro onde as pessoas pudessem falar sobre estas temáticas sem medo, acabou por estar na origem, em 2018, da 1ª Marcha LGBTIQ de Bragança.

Viseu foi a cidade do Interior que se seguiu, ao assinalar no mapa uma marcha LGBTI+, organizada por um grupo informal que juntou ativistas e organizações através do desafiante nome Já Marchavas! “Pela liberdade no amor e autodeterminação de género” foi o título do Manifesto da 1ª Marcha pelos Direitos LGBTI+ de Viseu que a 7 de outubro de 2018 levou mais de 1000 pessoas às ruas. Este movimento, que não pôde ficar por aqui, deu origem à Plataforma Já Marchavas, organização informal e horizontal de encontro de ativistas e organizações para ativismo social através de iniciativas no espaço público, entre elas a 2.ª marcha de Viseu.

Prova de que teria que haver uma segunda marcha, foram os autocolantes amarelos da Nova Ordem Social (movimento de extrema-direita) com a frase “It’s ok to be white” que foram colados por cima dos autocolantes da 1.ª Marcha LGBTI+ de Viseu. Afinal, em 2019, aos 50 anos das Revoltas de Stonewall, 45 anos do 25 de abril e 20 anos da primeira marcha LGBTI em Portugal eram muitos os motivos para celebrar, mas também eram “muitos os motivos para ir para a rua marchar contra todos os crimes de ódio e de injustiça que continuam a ser praticados em todo o mundo”. A verdade é que marchar de forma regular pelos direitos LGBTI+ continua a fazer sentido pois os objetivos desta causa “estão ainda por alcançar na sua plenitude”. Assim, a 20 de Outubro ocorreu a 2ª Marcha de Viseu pelos Direitos LGBTI+, sob o mote “Que Viseu e qualquer outra cidade sejam as melhores cidades para viver (para todxs)”, e as ruas da cidade voltaram a encher-se de cor.

 

2020: Pandemia. E agora?

Perante a crise pandémica os movimentos e ativismos não tardaram em se reinventar, percebendo a emergência de continuarem a estar presentes no quotidiano das pessoas, pois com a crise as discriminações não acabaram, pelo contrário há um risco acrescido para pessoas já antes discriminadas.

A Plataforma Já Marchavas promoveu a discussão sobre “como levar a rua até casa?”, o que desencadeou em diretos semanais (A rua em tua casa) durante todo o mês de abril com conteúdos diversos, desde registos de iniciativas passadas a novos conteúdos produzidos por ativistas através de duas casas.

A Catarse tem organizado encontros inseridos num clico de conferências online, promovendo com diferentes convidados a discussão sobre várias temáticas e, após já ter anunciado em conferência de impresa que a 4°Marcha pelos direitos LGBT na cidade de Vila Real seria no dia 23 de maio, tiveram que repensar a mesma. Mantendo o dia, a marcha realizou-se com com recurso à plataforma zoom, transmitida no Facebook da Catarse/Movimento Social, com retransmissão no Interior do Avesso. Assim, mostraram “a quem mais sofre que não estão sozinhas e sozinhos. Continuaremos a ser a vossa voz. Porque marcharemos, sempre, por vós, por nós e por todas e todos”, como se lê no manifesto.

 

Além das marchas: a voz do Interior.

Mas nem só de marchas e iniciativas públicas, se faz a luta do Interior pelos direitos LGBTI+.

A cultura tem sido uma forma privilegiada de introduzir a discussão e reflexão sobre o assunto, ajudando a construir movimento. Foi através de uma sessão do Desobedoc – Cinema Insubmisso em Viseu, que promoveu a reabertura do Cinema Ícaro, que surgiu a Já Marchavas. O cinema encerrado de Viseu voltou a ser reaberto em 2019 para a 7.ª edição da Sementeira e para mais uma sessão dedicada às causas LGBTI+, que contou com cinema, performance e um concerto de Filipe Sambado.

O cinema foi ainda o mote para a sessão “Fala-me sobre as cores do arco íris”, organizada pela Comissão para a Igualdade da Universidade da Beira Interior, e a forma de assinalar o 17 de maio de 2020 (Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia) do Cinema Sétima Arte, que apresentou uma lista de “17 filmes contra a LGBTI+Fobia”.

Dar voz a esta causa nas estruturas políticas do Interior, como juntas de freguesia e câmaras municipais, bem como combater os preconceitos e conservadorismo ainda tão presentes nelas, também é fundamental. Assim fez o núcleo concelhio do Bloco de Esquerda em Castelo Branco, apelando ao município que apoie e se solidarize com a comunidade LGBT+ na Polónia, alvo de discriminação, nomeadamente na “cidade irmã” de Castelo Branco, a cidade polaca de Pulawy.

“Dar voz” é também o que cronistas do Interior do Avesso têm feito, através das suas experiências, opiniões, conhecimentos e criatividade. Através das crónicas ficámos a saber que para alguns deputados do PSD “vale tudo menos falar sobre a temática LGBT”, ou como 46 anos de Abril são também 46 anos de lutas LGBTQI+ em Portugal. Através das crónicas pudemos compreender algumas das coisas que estão dentro do + da sigla LGBTI+, como a história da luta dos direitos LGBTI+ no Interior está a ser feita, a diferença entre uma marcha política e um Pride ou a forma como a pandemia afeta as pessoas LGBTI+. Em junho de 2019, aos 50 anos das revoltas de Stonewall pudemos refletir sobre o que ainda faltava fazer…

E em Junho de 2020?

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