Foto de Charlie Collar (pormenor)| Facebook

Parece que hoje é o dia. E o que é o “+”? O final em aberto da sigla LGBTI. É tanto o símbolo para todas as letras omissas, como o símbolo para todas as pessoas sem letra, porque há pessoas nessa condição, sem letra e, ainda assim, sem lugar confortável na normatividade construída.

Seria, penso, essa a condição ideal das coisas e pessoas: a sociedade sem letras, as identidades livres da necessidades de catalogação. No entanto sei, vivo, reconheço, a necessidade de procurar e descobrir letras quando o protótipo/holótipo que nos é apresentado é tão limitado, deixando-nos muitas vezes como únicas opções a estranheza e a vergonha.

Isto é, se o molde pelo qual nos medimos é só um, o tal homem branco que gosta de gajas, tudo o que seja ligeiramente diferente cabe no estranho, no esquisito, no anormal, no desviante, no patológico… Encontrar uma letra enquanto se vagueia nesta confusão identitária pode ser uma bóia de salvação pois permite perceber: 1. Quem sou; 2. Que não sou caso único; 3. Que não sou uma coisa estranha.

Mas crescer na estranheza é difícil. Sabemos. Um difícil que não é sempre igual, mas porque o meu texto é sobre “+”, porque pode calhar que alguém o leia e encontre alguma letra, vou pescar como exemplos de difícil, letras pouco faladas ou lembradas, são elas o “a” pela assexualidade e pelo arromantismo e o “d” pela demisexualidade. Porque falamos de formas de experienciar a sexualidade com impacto interno, apenas cada pessoa poderá saber se é assexual, demisexual, arromântico/a… Apenas quem sente, sabe o que sente e se algum rótulo faz sentido para si.

Assexual é a pessoa que não tem interesse na prática sexual com outra pessoa.

Esta definição está totalmente correta? Não. A assexualidade é uma das formas de manifestação da sexualidade humana baseada na falta de atração sexual por pessoas, mas não abrange todas as pessoas que adotam este rótulo.

A falta de atração sexual pode ocorrer por diversos motivos, como, a título de exemplo, traumas, problemas hormonais ou transtornos psicológicos. A assexualidade é apenas um desses motivos e não tem causa específica comprovada, por isso não é patológica nem motivo para procura de tratamento. Quem é assexual, é assexual porque é assexual e pode sentir-se bem assim, pois não necessita da prática sexual como pré-requisito para a felicidade.

Assexuais podem sentir atração romântica, da mesma forma que é possível para alguma pessoas “sexo sem amor”. Atração sexual e atração romântica nem sempre estão associadas!

Embora a assexualidade possa ser entendida como uma orientação sexual, abarca diversas orientações românticas: homorromantismo, heterorromantismo, birromantismo…

Arromântico/a é a pessoa que não sente atração romântica

A atração romântica, embora difícil de definir, pode ser entendida como um afeto sentido em relação a alguém, diferente do que sentimos, por exemplo, em relação a um amigo ou à família.

Arromânticos/as são capazes de sentir amor, como amor platónico, amor fraterno, amor paterno ou materno, amizade… Arromânticos/as também são capazes de sentir emoções e não são pessoas sem coração! Arromânticos/as podem, ou não, ser assexuais.

Arromantismo é sobre se sentes ou não atração romântica, não sobre o quão afectuoso ou carinhosa és.

Demisexual é a pessoa que apenas sente atração sexual em relação a pessoas com as quais tenha um vínculo emocional

A maioria das pessoas demissexuais raramente sente atração sexual, em comparação com a generalidade da população. Estão incluídas no espectro assexual, embora não sejam exatamente assexuais pois experienciam atração sexual, sendo que o vínculo emocional é pré-requisito para tal. A intensidade e duração deste vínculo é altamente individualizada – tanto pode ser uma amizade duradoura como um fim de semana de partilha intensa.

A maior parte das pessoas não assexuais sente atração sexual havendo ou não vínculo emocional, por alguém que passa na rua, colegas ou celebridades, demissexuais não experienciam isto!

Muitas pessoas assexuais, arromânticas ou demissexuais crescem a sentir-se diferentes, a sentir que algo não está bem com elas. Geralmente, durante a adolescência, começam a despertar as primeiras paixões, as primeiras declarações de amor, as primeiras atrações, as primeiras experiências sexuais. O sexo e as relações tornam-se um tópico de curiosidade e interesse, um objetivo, um tema de conversa preferencial e isto prolonga-se pela vida adulta. Muitas pessoas assexuais, arromânticas ou demissexuais sentem-se alienadas em muitas destas conversas, confusas… por vezes destroçadas e sós.

Por isso, volto ao início: encontrar uma letra enquanto se vagueia na confusão identitária pode ser uma bóia de salvação pois permite perceber: 1. Quem sou; 2. Que não sou caso único; 3. Que não sou uma coisa estranha.

Também é pelo “+” que marcho/ marchamos em Viseu no dia 20 de outubro!

Outros artigos deste autor >

Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

Deixe o seu comentário

Skip to content