Portugal, Angola, Moçambique: o dolorido latejo da ferida pós-colonial

Imagem retirada do PGL
A devoçom leitora, intensificada por meses de retiro decretado, depara algum reencontro estimulante como o da leitura de literatura pós-colonial portuguesa. Memória de um passado pungente imune ao olvido. Dous livros, um deles recente, actualizam com singular vigor essa zona de sombra inoportuna e reprimida que paira sobre o subconsciente português.

Devemos o primeiro e mais antigo deles ao jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes, nascido na vila de Sertã, Distrito de Castelo Branco, em pleno coraçom de Portugal. O segundo, recolhe as memórias de adolescência de umha escritora nascida em Maputo, quando era ainda Lourenço Marques, obrigada a abandonar a toda presa o país de nascimento virado independente de repente. Empedernido trota mundos de ofício e vocaçom o primeiro; aguda observadora sem raízes a segunda, empurrada a retornar a umha metrópole alheia e inóspita aos seus frágeis doze anos. Duas vozes magoadas e insubornáveis, sem papas na língua, que ousam interpelar esse Portugal esquecediço e esquivo que se gosta contemplar europeu e limpo de cicatrizes.

O relato de Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres (1), remói a sombria memória da viagem de três meses e meio ao coraçom das trevas, empreendida polo autor em 1997 para percorrer os 10.000 quilómetros que separam Huíla, na costa angolana, de Quelimane na moçambicana. O relato bifurca-se em desvios fragmentários á interminável guerra angolana que começava em 1961 e ia prolongar-se até 2002, vinte e oito anos depois da eclosom dos cravos em Lisboa em 1974 quando as tropas portuguesas abandonavam um país abruptamente descolonizado. Catorze anos de guerra colonial mais vinte e oito suplementários de guerra tribal: mais de quatro décadas de barbárie bélica sem final feliz foi o que durou o parto de Angola. O Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo (2)é mesmo isso, o pequeno caderno memorial de umha menina precoce, vivaz e desinibida que assiste ao despertar do sexo num país que ainda supunha ser o seu próprio, afinal mais consistente que a pátria inóspita que a acolheu como estrangeira na sua pátria, que descrevera a orfandade existencial de Rosalia.

Pedro Rosa deambula por um país lacerado pola guerra interminável e a arbitrariedade institucionalizada por um regime incapaz de assegurar ordem e convivência num país rico em que todo falta. A leitura do texto torna-se árdua por momentos pola mistura de crónica de actualidade com retalhos da memória dos vencidos na guerra colonial e o uso dumha língua coloquial de tempero expressionista tingida de tropicalismos. O leitor vai tacteando a agoirenta escuridade do texto — miséria, arbitrariedade, medo, fame — como quem esquiva as minas que ameaçam a cada passo a integridade do autor na sua incerta viagem polas terras devastadas pola guerra interminável.

A independência de critério de Rosa Mendes e a sua qualidade de agudo polemista convertérom o escritor num pesadelo para os círculos portugueses do poder, beneficiários do compadrio interesseiro com a autocracia corrupta angolana. A voz destemida de Pedro Rosa ousou desafiar o silêncio tácito em torno aos episódios mais desonrosos da colonizaçom a conta do negócio partilhado. Com ocasiom de um encontro de responsáveis políticos, empresários e comentaristas portugueses e angolanos, a Antena 1 da Radiodifusão Portuguesa, RDP emitia no 24 de janeiro de 2012 umha vigorosa denúncia do escritor dos “grosseiros exercícios de propaganda e mistificação” exibidos, em vergonhosa submissom das instituiçons portuguesas à oleocracia instalada no país africano. O programa foi interrompido de imediato por ordem de Miguel Relvas, ministro na altura do governo conservador de Cavaco Silva (2011-2013). Recomendo o leitor a audiçom da corajosa diatribe de Rosa Mendes (3) insólita num médio oficial de qualquer país.

A independência de critério de Rosa Mendes e a sua qualidade de agudo polemista convertérom o escritor num pesadelo para os círculos portugueses do poder, beneficiários do compadrio interesseiro com a autocracia corrupta angolana. A voz destemida de Pedro Rosa ousou desafiar o silêncio tácito em torno aos episódios mais desonrosos da colonizaçom a conta do negócio partilhado.

A mágoa portuguesa polos males do país amado é umha constante na história portuguesa: «Por que motivo se suicidou um Antero, e um Camilo, e um Soares dos Reis, e um Costa Ferreira, e um Júlio César Machado, e um Mouzinho de Albuquerque, e um Manuel Laranjeira, e um José Fontana, e outros, (…) porque há tanto vil, co’a breca, entre os ‘intelectuais’ desta terra, e tanto escarninho odiador de toda a reverberação do espírito”; enumerava António Sérgio (4) o rosário de suicidas portugueses por desengano patriótico.

A breca, a fúria de Pedro Rosa Mendes contra a inveterada subserviência do seu país, alcança cimos de desprezo memoráveis num par de artigos antológicos de 2012: Sonhando à porta da Europa e Portugal finis terrae (5), escritos ambos desde o seu auto exílio em Genebra. No primeiro, arremessa o jornalista o seu radical pessimismo contra a recente história de Portugal rememorando o seu primeiro salto de fronteira, rito iniciático de todo português da época para fugir de um país sempre pobre (…) ainda encravado numa pátria low-cost que acabava de desembaraçar-se – à força e à pressa – do seu Império e da sua ditadura. Nascim em ditadura em 1968, declara Pedro Rosa, entrei para a escola no ano da Revolução dos Cravos e finalmente na Universidade no ano da adesom europeia, 1986. Rememora ainda o facto de, ainda em 2011, 120 mil portugueses terem saído do país, muitos deles com elevado nível de educaçom e nula possibilidade de emprego no país de nascimento, obrigados até a ocultarem a sua capacitaçom para melhorar a sua hipótese de empregabilidade. A outra via de fuga que continua aberta é a angolana, onde os filhos e netos dos colonos portugueses ficam expostos a caírem em semiescravidom a mãos dos descendentes dos antigos colonizados. Angola é hoje um circo máximo de nova exploraçom colonial, um projecto de capitalismo selvagem gerido por um regime de origem e matriz estalinista argumenta Pedro Rosa evocando a cançom «No país do Pai Banana» do rapper angolano MCK (6): Portugal, constatação aflitiva, não é viável sem Angola, conclui a dolorida testemunha. Angola, em fim, ditadura cleptocrática fundada por José Eduardo dos Santos, Presidente do país entre 1979 e 2017, acentuada a plena consciência pola sua filha Isabel, cleptómana irrefreável por linhagem e educaçom recebida até 2021 em que a sua ostentosa fortuna terminou bloqueada por ordem judicial.

Em Portugal finis terrae exibe Pedro Rosa o seu gume mais mordaz ao qualificar ao ministro Miguel Relvas de exemplar representativo da inveterada subserviência de Portugal ante os seus sucessivos amos, de facto, aponta, é fácil perceber ainda a persistente sombra de Oliveira Salazar, vivo e bem vivo na “sua diáfana modéstia de sacristão” com a que tentava ocultar a sua impune arrogáncia resumida no lema: Só morre quem quer: ele, o imortal. Miséria económica, miséria cultural, miséria moral: Miséria-Pátria como síntese do seu legado, conclui Rosa Mendes. O insubornável polemista enfrenta-lhe a exemplar contra figura de Humberto Delgado, cifra a modelo de honestidade democrática. Após anos de exílio, acabou assassinado na fronteira espanhola por um agente da PIDE. Resta, pois, a rua, morada comum da raiva. Magnífica arroutada da consciência dolorida e democrática do Portugal resistente que honrou decote a dignidade do país.

O Caderno de Isabela Figueiredo amplia desde outra perspectiva a talhante diatribe de Pedro Rosa. A denúncia da ignomínia colonial tem aqui outro tempero; o do solilóquio biográfico contra o racismo congénito depreciativo da negralhada incómoda e imprescindível. A memória da menina Isabela mergulha-se na abafante atmosfera preconceituosa que marcou a sua infáncia de menina privilegiada por direito de linhagem apesar de proceder das camadas mais humildes da sociedade portuguesa. José Gil, o filósofo que melhor soube sondar o desacougo existencial do português contemporáneo nas admiráveis páginas de Portugal, hoje – O medo de existir celebra em eloquente texto introdutório o breve memorial de Isabela Figueiredo. Aquela menina sensível e perspicaz, filha de colonos portugueses pobres e porém dominantes numha sociedade colonial cindida pola raça. O relato transita polo desacougo da adolescente cindida entre a sensualidade desatada e o temor ao pai, entre o sexo e a violência racial pressentidos.

A libérrima escrita de Isabela Figueiredo, aquela “menina a caminho da adolescência”, disseca sem rubor o meio familiar de pertença: Os colonos brancos iam às pretas sem as distinguirem mais que pola cor da capulana que vestiam ou “pelo feitio das tetas”. O único em que pensavam aqueles varons fura-vidas era “em irem à cona das pretas”. “As pretas tinham a cona larga”, comentavam as mulheres dos brancos nos domingos à tarde “para desenferrujarem a língua”. A conas da pretas eram largas, prossegue a implacável narradora, e a das brancas estreitas porque à cona sagrada das brancas só chegava o marido, e com dificuldade, apenas para cumprir a obriga matrimonial. Sexualidades e erotismos enfrentados polo ressentimento racial.

À par do despertar do desejo e das primeiras experiências sexuais, a lúcida memória da menina vai registando a ditadura paterna em pós da disciplina laboral, iniciada com a recolhida de madrugada dos operários espalhados polas choupanas dos arrabaldes para forçá-los a trabalhar e culminada com a técnica da gratificaçom e o castigo arbitrários sem outro limite que a benevolência ou o capricho.

À par do despertar do desejo e das primeiras experiências sexuais, a lúcida memória da menina vai registando a ditadura paterna em pós da disciplina laboral, iniciada com a recolhida de madrugada dos operários espalhados polas choupanas dos arrabaldes para forçá-los a trabalhar e culminada com a técnica da gratificaçom e o castigo arbitrários sem outro limite que a benevolência ou o capricho.

Murchos os cravos de abril sobrevém o horror colonial, as cabeças dos brancos rolando como bolas de desporto sanguinário da negralhada, os atropelos por conseguir bilhete de aviom para a metrópole e, já no fim de 1975, o regresso definitivo a Portugal como inquietante destino final de menina nom acompanhada. Na despedida, a advertência mil vezes repetida: “Não te esqueças de contar”. Depois, o encontro com a avozinha, velhinha de cabelo branco e roupa negra reclusa num exíguo refúgio doméstico sem serviço de água nem mobiliário e com a única companhia e fonte de ingresso das pombas ubíquas que todo sujavam. Um modestíssimo domicílio perdido em Caldas da Rainha que já vira nascer o seu pai, empequenecido de repente na memória.

Afinal vai-se encerrando o círculo colonial da menina privilegiada no fugaz país da infáncia recordada— brilhante, colorido, incitante, carnal — para terminar congelado na fria imagem da inoportuna adolescente retornada que vinha perturbar a boa consciência de umha sociedade pacata empenhada em esquecer um passado doloroso e incómodo.

A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias (…) estúpidos, atrasados e alcoviteiros (…) feios (…) as extremidade rebentas de frio e excesso de toucinho com couves (…)”. A menina moçambicana, estrangeira em África, estrangeirada em Portugal, termina condenada a aturar o doloroso estigma de umha origem errada que a ninguém interessava e que todos pretendiam ignorar.

[Este artigo foi publicado originariamente em Praza Pública]


1 Rosa Mendes, Pedro: Baía dos tigres, Publicações Dom Quixote, 1999, 2011, 8ª ediçom. Há ediçom brasileira.

2 Isabela Figueiredo: Caderno De Memórias Coloniais, 2009, Editorial Caminho, 2015, (versom portuguesa), Editorial Todavia, 2018, (versom brasileira).

3 https://www.youtube.com/watch?v=iMv5xNUSNTs&t=304s

4 https://sites.google.com/site/incensuraveis/a-desgraca-de-ter-nascido-em-portugal-manuel-laranjeira

5 Publicados ambos na revista digital FronteraD: https://www.fronterad.com/autor/pedro-rosa/ sustentada por umha mancheia de agudos intelectuais testemunha do nosso presente imperfeito, entre os quais Alfonso Armada, Editor e director “nascido em Vigo (1958), mas que gosta de apresentar-se como português”. Ver https://www.fronterad.com/quienes-somos/.

6 https://www.makaangola.org/2011/12/rapper-mck-no-pais-do-pai-bvanana/ 

Artigo publicado no PGL – Portal Galego da Língua

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