O Armagedão é identificado na Bíblia como a batalha final de Deus contra a sociedade humana iníqua, em que numerosos exércitos de todas as nações da Terra conseguem finalmente o paraíso. A mim não me assusta facto de ser uma batalha, mas sim de ser “final!”. De facto, será muito difícil acabarem as batalhas e lutas da nossa sociedade, muito menos haver uma que, tal como no filme “Matrix”, estabeleça a paz, definitivamente formatando um mundo perfeito.

Hoje temos muitas batalhas em mão. A luta contra a pandemia, a luta por uma vida melhor, a luta contra os demagógicos e perversos discursos populistas e as derivas nacionalistas que a todos assustam. Vou debruçar-me sobre esta terceira, embora me preocupem muito as outras duas.

Começaria por reconhecer que estes discursos, embora enganando-nos, agradam porque aparentemente satisfazem as nossas preocupações e atendem aos nossos desejos. No entanto, nem sempre a mensagem que agrada é a melhor para o nosso bem-estar. Este passa sobretudo por políticas que nos protejam, como a proteção da economia e do emprego, centrando-se na defesa do trabalho, evitando a perda de rendimentos, salvaguardando a proteção na saúde, com especial atenção aos grupos de risco, e o combate à vulnerabilidade social, fazendo chegar os apoios a quem realmente precisa. E ainda não esquecermos que a emergência climática se mantém e o conservadorismo e o preconceito não foram erradicados e continuam nas nossas mentes, como fatores perturbadores.

Há sempre pessoas que julgam que o discurso populista dá votos. O problema é que existe uma probabilidade não nula de terem razão. Sempre defendi que, por mais custoso que seja, vale a pena refletir sempre sobre posições que contradizem a nossa. Não há verdades absolutas, e mesmo que, por absurdo, admitíssemos a sua existência, estas deveriam sempre ser questionadas. Os discursos populistas devem ser cautelosamente analisados, pois tal qual um vírus penetram em nós quando menos esperamos.

Uma questão podemos colocar: Será que o discurso populista atravessa todas as correntes políticas?

A este propósito lembrei-me da Marcha de Washington, onde o Reverendo Martin Luther King fez o seu famoso discurso e afirmou: “Eu tenho um sonho” (I Have a Dream), e dei comigo a pensar se não seria uma frase populista. Não! Tratava-se de uma frase inspiradora que atuou sobre a consciência do povo norte-americano, levando aquela sociedade a pôr (tentar) fim da discriminação contra a população negra, de origem africana. Voltei e ler, na integra o discurso e é muito custoso ler ou ouvir aquela elocução sem a relacionar com a sua causa.

Mas a questão mais pertinente é: Porquê o ressurgimento em grande escala dos discursos populistas e nacionalistas?

Os “sábios” da ciência política procuram respostas. Reconhece-se que há uma situação preocupante nas políticas que vão imperando. A tentativa de resolução das condições atuais de alguns sistemas políticos é semelhante à de um homem perdido num bosque que precisa de encontrar uma saída. Mas, o populismo não será certamente o caminho certo.

Outra questão se debate: Vale a pena refutar os discursos populistas ou devemos simplesmente ignorá-los?

Se, por um lado, a crítica aos extremismos populistas tem o efeito usado secularmente nas artes marciais, quando estes usam a energia do adversário para se voltar contra ele, por outro lado, comentários desmedidos, podem, por vezes, ter um efeito contrários e até pernicioso, levando a reforçar estas atitudes e aumentado a autoestima de quem as profere, o que fortalece o populismo. Felizmente, os movimentos opostos ao populismo estão a reorganizar-se e estou em crer que voltarão movimentos de libertação.

Onde se verificam os movimentos populistas?

É um fenómeno à escala global. Com a vitória de Bolsonaro no Brasil, este entrou para o rol dos países que, nos últimos anos, elegeram governantes alinhados a tendências populistas. Países como a Itália, Polónia e Hungria vão a caminho do populismo de tendências autoritaristas. Nos EUA, a situação ainda é mais complexa, pois o populismo está ligado outros fenómenos de massa e de violação da privacidade, que também dariam muito que falar.

E em Portugal?

A nível nacional, Portugal não é imune a este fenómeno. As ideias racistas como o confinamento de ciganos ou o aumento da repressão policial são exemplo disto. Mas, como diz o poeta, há sempre alguém que está atento, alguém que resiste. Recorde-se a atitude de um conhecido futebolista campeão português, que, com poucas, mas certas palavras, respondeu ao mentor de tamanha alarvidade.

E a nível local?

A nível local, verificasse muitas vezes nas comunidades mais pequenas que ainda não há discussão de ideias e projetos, sobretudo nas vertentes económica, social e cultural. O poder conseguido por muito eleitos serve para distribuir várias benesses a um número reduzido de pessoas, começando obviamente pelos seus apoiantes. Este facto torna o terreno fértil para a existência de laivos populistas.

Verifica-se que alguns líderes locais, sobretudo dirigentes com responsabilidade políticas, deixam a antiga tática de cacique para enveredarem por discursos populistas, sobretudo com o aproximar de eleições. Optam por um discurso muito vezes demagogo, cuja raiz não difere muito dos radicalismos nacionais e mundiais, mas, como geralmente o publico alvo destes discursos são pessoas menos escolarizadas, tornam-se potencialmente mais perigosos. Sabemos que entre estes populistas, uns usam os seus “poderzinhos locais”, no âmbito de responsabilidades autárquicas, mormente os com pelouros de âmbito social, que porventura tenham, ou julguem que têm, e outros fazem-no no âmbito de funções que desempenham na sociedade civil local, dirigentes desportivos, educadores ou responsáveis pela saúde pública, usando através dessas funções a demagogia para conseguir objetivos pessoais, sobretudo quando têm ambições politicas. Estes por vezes, entram em confronto interpares, ávidos por outros “Armagedões”, desta vez sem numerosos exércitos de todas as nações da Terra, mas quiçá com alguns soldados rasos das suas freguesias. Quando isto ocorre, duas coisas podem acontecer: ou se destroem mutuamente ou duplicam o populismo.

Eu espero sinceramente que se verifique a primeira hipótese.

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Professor, de 52 anos.
É natural de Carregal do Sal, onde reside e trabalha, sendo no momento docente do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

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