Foto por Rod Long | Unsplash

Não é novidade o polémico caso do lar em Reguengos de Monsaraz. Foi o maior surto de covid-19 em lares portugueses. Marcou Reguengos de Monsaraz, o Alentejo, o próprio país, mas marcou especialmente as famílias que perderam alguém.

A revolta adensa a polémica, exige-se justiça e responsabilidades. Mas a relativização em jeito de desvalorização do caso, por parte da Ministra do Trabalho e da Solidariedade, Ana Mendes Godinho, também é conhecida e também tem sido discutida por toda a gente, ampliando ainda mais as reflexões sobre o que aconteceu.

Reguengos de Monsaraz serve como exemplo e como ponto de partida para uma muito necessária análise crítica de como queremos tratar quem necessita de cuidados. Serve também para repensar aprofundadamente qual deve ser a responsabilidade do estado no funcionamento deste setor.

Estes são assuntos que neste momento específico, em que estamos na iminência provável de uma segunda vaga pandémica de covid-19, não devem de todo ser minimizados, relativizados ou desvalorizados. Devem, pelo contrário, ser precisamente foco de atenção política para uma resposta mais estruturada e preventiva ao que ainda poderá vir à conta deste coronavírus.

Neste momento abundam as incertezas, não há projeto político para o que poderá vir aí, pouco ou nada se tem feito com as lições que poderiam e deveriam ter sido aprendidas com a primeira vaga.

As instituições para pessoas dependentes e necessitadas de cuidados, sejam elas idosas, tenham problemas de mobilidade ou demência, por exemplo, não podem nunca ser entendidas como armazéns ou depósitos. Cuidar do setor dos cuidados é cuidar de toda a gente e de todas as famílias. Dignificar quem necessita de cuidados é dignificar toda a sociedade. 

É por isso necessário repensar todo o setor, neste momento entregue de forma pouco definida, algures entre a Saúde e a Segurança Social. Por um lado, é necessária a coordenação entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

Por outro lado é necessária uma maior exigência na forma como estas instituições funcionam, dando formação, qualificação e condições de trabalho aos seus trabalhadores e trabalhadoras, reconhecendo a exigência do setor. Qualificar as pessoas que trabalham nos cuidados tem de passar, obrigatoriamente por lhes garantir condições de trabalho e salário estáveis, de acordo com a responsabilidade das suas funções.

Além destas alterações de carácter mais estrutural, não há desculpas para que não sejam tomadas medidas específicas que preparem o setor dos cuidados para uma segunda vaga de covid-19. É necessário dotá-lo de mais meios, formação e fiscalização assim como é necessário criar um programa de rastreio, testar toda a gente nestas instituições para impedir mais tragédias.

Fortalecer lares ou centros de dia é também fortalecer todo o país para uma segunda vaga pandémica, que será não apenas sanitária, mas também económica e social.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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