Lembro-me de ter visto algures uma reflexão filosófica sobre a verdade, o seu significado e definição, as suas singularidades e individualizações. Expunha um dilema interessante; a verdade é aquilo em que acreditamos/queremos acreditar, ou é algo concreto, sem relação ou dependência da e com a condição humana? Por exemplo, a nossa percepção das cores que é limitada pelos nossos olhos, ou mesmo a percepção da realidade que pode também ser “manipulada” pelo nosso cérebro, pelas nossas crenças e receios, mesmo pelo nosso conhecimento e desconhecimento de certas cousas, são uma verdade real ou apenas a nossa interpretação, o modo como somos capazes de compreender e absorver a realidade como verdade?

Nascido na primeira metade dos anos oitenta, vivi a minha menoridade no século passado, sem Google, ou outros motores de busca, sem redes sociais, nem “gadgets” cheios de funcionalidades, que aparentemente tornam algumas pessoas disfuncionais. Vivi sob o medo de uma outra pandemia, hoje já bastante controlada e, com o passar dos anos, mais bem compreendida, estudada, documentada e medicada. Vivi ouvindo, crendo e debatendo, teorias e conspirações sobre a mesma, mas nunca, pelo menos que o recorde, ouvi alguém dizer que o VIH/SIDA era uma ficção, uma estratégia para nos subverter, um modo de controlar a libido desenfreada de uma população atormentada pelo flagelo das “drogas duras” e adictivas e o seu comportamento descontrolado. Ouvi pessoas exporem os seus motivos egoístas, para recusarem o uso do preservativo, mas nunca ouvi ninguém dizer que recusava essa protecção porque não acreditava numa doença global, perigosa e letal, ou porque – enquanto conduzia dentro dos limites legais – jamais se submeteria a controlos governamentais.

O mundo foi-se, entretanto, aproximando e conectando; a aldeia global era cada vez mais uma realidade, a Internet tornou-se, acentuadamente, uma parte central, até mesmo essencial, do nosso dia-a-dia. A era digital chegava para ficar, conjuntamente com uma geração com mais, maior e melhor acesso ao conhecimento e à educação, com uma gestão e criação de recursos cada vez mais facilitada e possibilitada; nada nos poderia impedir e atrasar o progresso. Contudo, a mesma tecnologia que nos aproxima é a mesma tecnologia que nos afasta. A manipulação tornou-se um instrumento que mais fácil, e descontroladamente, cai nas mãos de qualquer charlatão, ou qualquer pretenso iluminado candidato a entendido e “expert” de vídeos no youtube. O que, infelizmente, levou a que a iliteracia social se tenha tornado num flagelo enorme, pelo seu despudorado egoísmo e pela cultura do egocentrismo e “ensimesmismo” que se vem desenvolvendo nesta era digital. Parece confundir-se acesso à informação com estar informado – apesar de não se aceder ou não se compreender a informação – e estar iluminado, por ter electricidade, com ser iluminado, por ter instrução.

A vida e a sociedade não vêm com um manual de instruções, nem com um guião, a verdade é a nossa liberdade de viver do melhor modo e com o maior conforto possível. Mas sem nunca esquecer que os limites da nossa liberdade são, precisamente, os limites da liberdade dos outros. Há muitos lóbis, interesses e interesseiros por este mundo fora e adentro, é verdade. Mas é também verdade que sem respeito e mutualidade, sem empatia, compaixão e bom-senso, não há vacina ou remédio que nos salve, nem verdade que nos valha.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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