Os dados do PORDATA em relação ao concelho de Vila Flor relativamente à perda populacional são ao mesmo tempo reveladores, preocupantes, mas também esperados. Em 2010 o concelho de Vila Flor tinha 6772 residentes e em 2018 tinha apenas 6100. Em 8 anos perdemos 672 residentes, correspondente a aproximadamente 9,2% da população, ou seja, praticamente um em cada dez residentes no concelho em 2010 deixaram de o ser em 2018.

O problema do despovoamento é uma praga que afeta todo o interior do país, e mais particularmente, todo o distrito de Bragança. É certo que até existem concelhos com uma perda populacional mais significativa, mas também é certo que não podemos comparar a centralidade do Concelho de Vila Flor, local de cruzamento entre as tão badaladas IC5 e IP2, com alguns concelhos que pela sua própria localização e acessos enfrentam este problema do despovoamento de uma forma mais notória. Também, sejamos claros, a compararmo-nos, que seja com os melhores exemplos e não com os piores.

A política de desprezo dos sucessivos Governos para com o interior, com o fecho de serviços, contribui, em larga medida, para esta situação devastadora que a longo prazo prejudica tanto o interior como o litoral. A baixa natalidade associada a um envelhecimento da população é também um fator a ter em conta. No caso de Vila Flor, em 2010 havia 253 idosos por cada 100 jovens, em 2018 eram 330, um aumento muito significativo.

Por muito que ache que a maior parte da culpa é dos sucessivos Governos e da própria CCDRN que privilegia os grandes centros urbanos a Trás-os-Montes e Alto Douro, o poder autárquico também tem responsabilidades nesta situação. Se continuarem a viver com a mentalidade da necessidade de apresentar obra por apresentar de 4 em 4 anos para garantir a eleição, com maior enfase no último ano de mandato, continuamos constantemente a perder população porque o foco não está no que verdadeiramente importa. É necessário, obviamente necessário, garantir as melhores condições possíveis às pessoas que ali vivem, mas também é importante parar a sangria populacional atraindo pessoas que queiram viver no nosso concelho. Se sabemos que o envelhecimento da população irá garantidamente causar a longo prazo uma redução populacional é preciso garantir à priori um regresso dos jovens que foram em busca de melhores oportunidades e nunca mais voltaram, muitos por acharem que nunca lhes seria reconhecido o seu valor e outros por não terem condições para exercer a sua profissão num concelho onde a indústria é quase nula e em que os próprios serviços vêm diminuindo.

O desemprego do qual nunca se fala muito associado ao nosso concelho teve um crescimento galopante no último ano. Segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) sobre o número de inscritos, no distrito de Bragança o concelho de Vila Flor foi o que sofreu um maior aumento entre julho de 2019 e o mesmo período de 2020 com uma variação de 51,5% (de 200 para 303).

A política pauta-se por um conjunto de escolhas, a cada orçamento, a cada proposta, a cada ação, e os números do PORDATA são também claros nesse sentido. No concelho de Vila Flor, em 2010, 13,1% do orçamento era para a Cultura e Desporto, superando a média nacional de 10%. No ano de 2018 o investimento era de 9,1%, um ponto abaixo da média nacional (10,1%), o que diz muito das escolhas dos oito anos em causa.

Também no que toca à despesa com ambiente houve um recuo. Se em 2010, 9% da despesa era com o ambiente, superando também a média nacional de 8%, em 2018 há também uma inversão, a média nacional continua de 8% e em Vila Flor cifra-se nos 6%.

Os números podem até ter várias interpretações, mas são sempre reveladores porque dão uma análise mais fina da realidade e das opções que se tomam.

Vamos ficar conformados de que a este ritmo, em 2070, Vila Flor nada mais é do que uma paisagem bonita, para um qualquer ricalhaço que a adquiriu para fazer dela a sua quinta, ou vamos erguer-nos, procurar soluções, inovar e procurar uma dinâmica, mesmo que improvável para o que não é nem pode ser um fim anunciado? Eu escolho a segunda opção e é por ela que nunca viro costas ao meu Concelho nem à Flor de Trás-os-Montes.

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Jóni Ledo, de 29 anos, é natural de Vila Flor, onde fez o seu percurso académico até terminar o secundário. Entrou para a UTAD em 2008, onde se licenciou em Psicologia. De seguida, concluiu o Mestrado em Psicologia da Educação na mesma instituição. Frequenta atualmente a Licenciatura em Economia. Deputado na Assembleia Municipal de Vila Flor pelo BE desde 2009, tendo sido reeleito em 2013 e 2017. É atualmente dirigente distrital do Bloco de Esquerda e ativista na Catarse | Movimento Social.

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