Muito se tem falado da democracia ou falta dela no que respeita a esta crise pandémica. É um facto que o vírus não olha para as carteiras quando entra pela goela abaixo, e nesse sentido até percebo a ideia. O problema é o pós-vírus. Falo do pós-vírus porque estamos em Portugal, um país que garante o acesso universal à saúde assegurado pelos excelentes profissionais do SNS. Porque, se falarmos nos países que os liberais gostam de dar como exemplo, veem-se as diferenças nas mortes e na falta de tratamento das classes mais desfavorecidas e o problema começa logo no pré-vírus.

Já percebemos então que pelo menos nos tratamentos hospitalares estamos todos em igualdade de circunstâncias, porque, de facto, o problema vem depois. Fala-se abstratamente da dificuldade que é estar encerrado em casa, no teletrabalho que todos sonhavam mas que agora se começa a perceber que não é assim tão bom, e estes são os casos felizes, porque este tempo é também de angústia para quem perdeu o emprego, para quem não é abrangido pelos apoios sociais e tem que viver a sua vida a contar os trocos para chegar ao fim da pandemia.

Também não é a mesma coisa fazer quarentena numa Quinta, num palacete, num T4 de luxo ou num T1 ou bairro social. Não é a mesma coisa ter acesso à internet e aos canais por cabo ou estar refém da TDT para quem tem televisão, sem tempo para se distraírem dos problemas reais como a dificuldade de pagar a renda ou da renda que vai acumular, mesmo que exista uma suspensão.

Como sempre acontece, nestes tempos de crise, vêm à tona as enormes desigualdades sociais que existem no nosso país e no mundo, bem como a noção de que aquilo que mais distingue os seres humanos é mesmo a classe social, e era nesta visão que devíamos trabalhar. Quem mais sofre são os sem voz…É o arrumador de carros que deixou de ter carros para arrumar e que ninguém sabe onde está ou do que sobrevive…É a pessoa que trabalha “à jeira” (expressão transmontana que significa trabalhar ao dia), sem contrato e que num dia que não trabalha é um dia que não recebe…É o dono do mini-mercado, do café ou de outra qualquer empresa familiar que nem sabe como pagar a renda, a luz e as telecomunicações nem como pagar a si próprio, pois é o seu único trabalhador e empregador…

É certo que todos estamos a sofrer, que já ninguém suporta estar entre 4 paredes, mas de certa forma, se as tivermos já estamos melhor que alguns…estamos todos a sofrer, mas não sofremos todos o mesmo. O espaço público que é dado pelos meios de comunicação social nunca abrange os que mais sofrem, os que mais sentem na pele sempre que a sociedade sofre um abanão. Este abanão está a ser dos fortes e veio para ficar. Que ao menos nos sirva para refletirmos sobre os nossos comportamentos sociais e sobre a sociedade que queremos, para que ninguém, mas ninguém mesmo fique para trás.

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Jóni Ledo, de 29 anos, é natural de Vila Flor, onde fez o seu percurso académico até terminar o secundário. Entrou para a UTAD em 2008, onde se licenciou em Psicologia. De seguida, concluiu o Mestrado em Psicologia da Educação na mesma instituição. Frequenta atualmente a Licenciatura em Economia. Deputado na Assembleia Municipal de Vila Flor pelo BE desde 2009, tendo sido reeleito em 2013 e 2017. É atualmente dirigente distrital do Bloco de Esquerda e ativista na Catarse | Movimento Social.

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