Saúde mental: Porque se sofre em silêncio?

Embora haja cada vez mais consciencialização para a importância da saúde mental e para a necessidade de prevenção, a atuação ainda deixa muito a desejar. Com o isolamento provocado pela pandemia, com situações devastadoras para uma boa parte da população, com a privação de vários hábitos, associado muitas das vezes à pobreza e baixas condições nas habitações onde o isolamento foi cumprido, tudo contribuiu para uma situação que poderá ser dramática para milhares e milhares de pessoas que sofrem no silêncio.

A consciencialização tem que continuar, para desconstruir conceitos e que se perceba finalmente que os problemas associados à saúde mental não são algo que “só acontece aos outros”, ou pior ainda, que “só acontece aos fracos”. Todos estamos sujeitos, e é bem provável que todos tenhamos desconforto mental, ou mesmo problemas psicológicos ao longo da vida. Não é algo para se ter vergonha, é algo para se poder falar sem constrangimentos. Se ninguém tem problemas em falar nas dores de costas ou em joelhos que “adivinham o tempo”, porque é que alguém deverá ter problemas em falar no seu desconforto mental? São problemas de saúde como outro qualquer e não escolhem apelidos para aparecer.

Com a maioria da população vacinada a crise pandémica deixa de ser o principal problema, mas ficam os problemas associados, nomeadamente psíquicos, que se continuarmos a ignorar iremos pagar uma elevada fatura no futuro.

Desde os mais diversos trabalhadores e trabalhadoras das diversas áreas profissionais em burnout ou muito próximos de estar, às crianças que se viram privadas do seu maior bem (brincar sem constrangimentos), aos adolescentes e jovens adultos (ou adultos emergentes) que viram dois dos anos mais estimulantes da sua vida serem hipotecados.

Não iremos enfrentar o problema com um/a psicólogo/a para 2000 crianças nas escolas, nem com demoras de meses para uma consulta…Muitas das vezes estes problemas são urgências, e não podem esperar meses ou dias, devem ser tratados como urgências que são, e para isso, só com um conjunto multidisciplinar de profissionais da área no Serviço Nacional de Saúde, em permanência e em número suficiente podem mitigar o problema que insistimos em esconder…

Ninguém nasce com um manual de instruções é certo, e por isso, é normal que apenas aprendamos a lidar com a maioria das coisas pela experiência, mas se ainda não existe consciência clara de que os problemas associados ao desconforto emocional são possivelmente o principal problema de saúde deste século ainda há muito a fazer…Digo deste século, porque nem tudo é mau, e agora temos, mesmo que seja insuficiente, mais alguma atenção sobre isto, porque os problemas associados à mente não surgiram com o aparecimento da psicologia, já estavam na génese da civilização…

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Jóni Ledo, de 29 anos, é natural de Vila Flor, onde fez o seu percurso académico até terminar o secundário. Entrou para a UTAD em 2008, onde se licenciou em Psicologia. De seguida, concluiu o Mestrado em Psicologia da Educação na mesma instituição. Frequenta atualmente a Licenciatura em Economia. Deputado na Assembleia Municipal de Vila Flor pelo BE desde 2009, tendo sido reeleito em 2013 e 2017. É atualmente dirigente distrital e nacional do Bloco de Esquerda. É também ativista na Catarse | Movimento Social.

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