Para finalizar a análise da ascensão da extrema direita em Portugal, muitos devem estar a pensar: “não fala ele da extrema-esquerda”. É o que mais se ouve por aí. Pois deixem-me dizer-vos que dizer que a extrema-esquerda é a outra face da extrema-direita é um absurdo histórico, sem qualquer valor científico. É o mesmo que dizer que a terra é plana. Não há outra face!

Ao contrário do que muitos possam pensar, é no interior que o país deve concentrar o maior investimento. É no interior que se concentram o maior número de desempregados; é no interior que se concentram as maiores desigualdades no acesso à cultura. Mas, por outro lado, é no interior que reside o maior poder de compra, conciliado a uma forma mais sustentável de viver; é no interior Norte que as empresas (aquelas que insistem em ficar) mais sobrevivem.

A abstenção é outro problema crónico. Não por culpa das populações, mas devido às más políticas (ou, pior ainda, à inexistência de políticas) dos deputados que elegemos no nosso distrito. E o interior Norte tem sofrido bastante com isso.

A abstenção é o reflexo de um processo em curso: desacreditar a política em prol de um movimento que vai dividir os portugueses. A abstenção vai ferir a democracia conquistada no 25 de abril.

Tantas vezes me pergunto o que sentirão, por exemplo, os transmontanos com o facto de pertencermos à União Europeia (UE). Se isso contribui em alguma coisa para melhorar a sua vida. Os defensores acérrimos dirão “claro que sim”. Dirão que a UE nos trouxe uma nova forma de viver. Está claro que sim. Não duvido que seríamos bem diferentes do que somos hoje se não estivéssemos na UE. Mas eu insisto na questão: onde estão visíveis tantos dos fundos comunitários? A título de exemplo, só em 2010 é que todo o concelho do Peso da Régua viu alargado o saneamento básico. Em 2010! Foi em 2010 que as populações entre a Régua e Vila Real perderam o mais importante transporte público: o comboio (já a ligação entre Chaves e Vila Real tinha sido desativado há bastante tempo). Estamos em 2021 e a ligação de comboio mais importante do Douro é feita com recurso a gasóleo! Enquanto toda a europa circula a 300km/h, o Douro circula a 60km/h.

“Ah”, mas dirão “ganhámos as melhores autoestradas”. É verdade. Temos, talvez, dos melhores tapetes de alcatrão. E para quem? Para os transmontanos não será de certeza, ao preço que custa a A24 e o túnel do Marão! São autoestradas para outros as usarem.

O que quero dizer com isto é que, desde há muito, o interior tem sido esquecido pelas forças governamentais, bem como pelos deputados eleitos sucessivamente pelo PS e PSD/CDS. E a extrema-direita descobriu a fórmula: espalhar o ódio entre os descontentes no interior para impor a sua equação de autoritarismo e militarismo. Não nos esqueçamos que o número dois das listas do Chega é Diogo Pacheco de Amorim, que pertencia ao movimento de extrema direita que fez explodir o carro do Padre Max na Cumieira.

Penso que não há uma receita para combater a extrema-direita. Há, sim, a necessidade de uma mobilização coletiva antifascista, antirracista e democrática. Democratizar o acesso à cultura e à sociopolítica, e aqui os movimentos sociais organizados e estruturados têm um papel fundamental, é crucial no interior do país. A luta não pode ficar fechada em si.

Para concluir esta reflexão gostaria de lançar um repto a quem nos ouve ou lê: pensar o sistema capitalista. Se olharmos para a História, é ao capitalismo que devemos as duas Guerras Mundiais, é ao capitalismo que devemos a direita radical antissistema. A alternativa é anti-imperialista e anticapitalista, ou seja, o socialismo do século XXI. Este movimento afasta os movimentos do passado, que são burocratas e sectários, e vão recuperar bandeiras revolucionárias de liberdade.

A ascensão da extrema-direita em Trás-os-Montes IV

 

A ascensão da extrema-direita em Trás-os-Montes III

A ascensão da extrema-direita em Trás-os-Montes II

A ascensão da extrema-direita em Trás-os-Montes I

 

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Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

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