Imagem de Goran Horvat por Pixabay

Aquilo que nos tem separado é mais forte do que aquilo que nos tem unido.

Não precisávamos de uma epidemia para nos mostrar aquilo que conhecíamos. O Covid-19 transformou as sociedades, isolando as pessoas. 

A revolução industrial foi, indiscutivelmente, um marco na viragem do mundo rural para o mundo urbano. Aquele que era o modus vivendi até ao início do século XX, tornou-se a exceção.

As sociedades estão reféns do mercado que as estupidificou, levando-as a desacreditar as instituições que protegem o Estado Social. Falamos da cultura, do ensino, da ciência. A supremacia dos mercados levou ao colapso da nossa sociedade. O capitalismo tornou o desenvolvimento regional desigual, levando à consolidação do mundo urbano e ao despovoamento do mundo rural.

A cultura

Sabemos que depois desta crise, o país não será o mesmo. E também o setor cultural não poderá ficar igual. Vivemos num tempo de urgência social que também afetou a cultura e as artes. As estruturas do interior sempre estiveram desfalcadas e dependentes de financiamento local e de boa vontade. Os espaços culturais do interior, independentes, são muitas vezes as rampas de lançamento de artistas com menos projeção mediática. O Ministério da Cultura criou, no passado, uma linha de 1M de Euros para financiar o alinhamento de artistas que já participa em grande parte dos festivais por todo o país, deixando para trás todos os outros. 

É urgente definir uma política cultural de apoio às artes e à criação, ao teatro, à dança, à música; à programação; ao associativismo cultural; ao cinema; à internacionalização das artes e artistas. Os museus têm hoje a grande oportunidade de envolver a comunidade nas suas atividades, adotando uma política educativa inclusiva. É preciso que as comunidades sintam que as atividades programáticas as servem e não apenas a um suposto turismo, que muitas vezes é sazonal, ou mesmo um pequeno grupo elitista que usa as instituições públicas apenas com o propósito de se (auto)promover. É preciso que as instituições culturais, e, nomeadamente, os museus, existam para servir a comunidade para que a comunidade se possa servir das instituições.

O ensino e a ciência

Apenas 6,7% dos alunos inscritos no ano letivo 2018/19 estão no interior (universidades e politécnicos de Norte a Sul). No início do ano letivo, era anunciado o fecho de vários cursos: Arquitetura Paisagista nas Universidades de Évora e Trás-os-Montes e Alto Douro, Fitofarmácia e Plantas Aromáticas e Medicinais, Atividade Física e Estilos de Vida Saudáveis do Politécnico de Santarém, Produção de Alimentos e Nutrição Humana do Politécnico de Castelo Branco, Qualidade Alimentar e Nutrição do Politécnico de Viseu. O ensino superior tem de assumir um papel fundamental na valorização do território. Cabe ao Ministério investir no território. Urge aliar a ciência ao território. O curso de Engenharia Florestal da UTAD teve 4 alunos colocados neste ano letivo, ao passo que a Universidade de Lisboa teve 25 alunos. Como é que uma região como o Nordeste, fustigada todos os anos com grandes incêndios, não tem alunos no terreno? Este é o reflexo do descrédito institucionalizado! As instituições do interior não podem funcionar como opções de retaguarda. É necessário um investimento nestas instituições para que os alunos se revejam na importância que estas instituições têm para o desenvolvimento do território.

A universidade de hoje tornou-se num laboratório corporativista, que desenvolve as suas atividades recorrendo ao “exército” de bolseiros de investigação que dá cobrimento ao já velho corpo docente que é, muitas vezes, um entrave à legalização da contratação dos doutorados. Urgem medidas fortes na implementação de uma política para o ensino superior que regule o emprego científico e valorize a inter-relação das instituições, investindo mais naquelas que têm maior influência no território, nomeadamente na contribuição para a fixação populacional e para o combate às assimetrias regionais. As instituições devem cooperar entre si e não competir entre si.

 

1- Dados DGEEC

2- Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais na Universidade de Lisboa

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Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

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