Foto por Katie Jowett on Unsplash

A atribuição do estatuto de ciência à linguística deve-se, predominantemente, a Saussure1: a língua passa a ser tomada em si mesma, separada de fatores externos e passa a ser vista como uma estrutura independente. Ou seja, para Saussure, a linguística tem como único e verdadeiro objeto a língua considerada em si e por si mesma. Na mesma direção, o generativismo2 concebe a língua como um sistema de princípios universais e passa a ser vista como o conhecimento mental que um falante tem da sua língua a partir do estado inicial da faculdade da linguagem, ou seja, a competência. O que interessa ao generativista é o sistema abstrato de regras de formação de expressões linguísticas.

Tanto o estruturalismo como o generativismo consideram a língua como uma realidade abstrata, desassociando fatores históricos e sociais dessa realidade. Na década de 60, nos E.U.A, cresce uma reação a essas duas correntes: a Sociolinguística, tendo como um de seus maiores expoentes William Labov. Embora o estudo da linguagem e sociedade se tenham desenvolvido na década de 60, existiam já autores no início do séc. XX que postulavam uma conceção social da língua, como o francês Antoine Meillet e os russos Nikolai Yakovlevich Marr e Mikhail Mikhailovich Bakhtin, a título de exemplo.

Segundo Meillet, a linguística seria uma ciência social, pois a língua faz parte da sociedade, ou seja, a língua é motivada por fatores sociais. Para ele, “o único elemento variável ao qual se pode recorrer para dar conta da variação linguística é a mudança social”3. O pensamento de Meillet realça, assim, o caráter social e evolutivo da língua. Ora, se Saussure opõe linguística interna (das relações internas) e linguística externa (as relações entre língua e fatores extralinguísticos), Meillet associa-as. A par, Saussure distingue a abordagem sincrónica (fatores de estrutura) da abordagem diacrónica (fatores históricos), ao passo que Meillet une-as. E esta é uma das grande reações que leva os linguistas a olhar para língua considerando os fatores históricos e sociais.

Do ponto de vista soviético, encontramos, também no início do século XX, posições marxistas acerca da língua. Marr propõe que todas as línguas do mundo tenham uma mesma origem. Desenvolveu uma teoria de que as línguas do Cáucaso eram anteriores às indo-europeias. Com uma forma componente ideológica, o linguista descreve que as línguas são instrumento de poder e que refletem a luta de classes sociais. A teoria ganha força interna quando se pensava que esta representava a ciência proletária, ao contrário da ciência burguesa. Ora, se as línguas fazem parte de uma superestrutura, que passam por fases de desenvolvimento, de acordo com a base económica, as fases das línguas corresponderiam às fases da sociedade. Esta doutrina foi tida como oficial na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, durante quase toda a governação Estalinista (compreendida no período de 1920-50), até ser severamente atacada pela intervenção de Estaline, que passa a negar o caráter de classe e de superestrutura da língua, acusando Marr de antimarxismo.

Ainda na linguística soviética, Bakhtin (e o chamado Círculo de Bakhtin) critica aquilo que é o pensamento estruturalista abstrato (ou seja, a perspetiva saussureana), defendendo alguns pilares sobre os quais toda a conceção de linguagem se ergue: a interação verbal, o enunciado concreto, o signo ideológico e o dialogismo, sendo a interação verbal a realidade fundamental da língua. Desse ponto de vista, a mudança linguística pode ser historicamente justificada pelos diferentes contextos do uso da língua, que acabam por conferir diferentes sentidos à mesma palavra. Assim, as palavras não são neutras, nem imutáveis. Note-se que já Saussure tratava da (i)mutabilidade do signo, referindo que a língua está sujeita à ação do tempo, que assegura a continuidade da língua e altera os signos linguísticos. Ou seja, na visão de Bakhtin, uma determinada forma possuiu um valor para um falante o que faz com o signo seja variável e flexível.

 Para terminar esta primeira parte desta crónica, queremos resumir todas as correntes que estiveram na base dos estudos em sociolinguística. É na década de 60, do século passado que florescem os primeiros estudos que se começam a desvincular do domínio estruturalista até então. A noção de que a língua tem na sua fundação fatores sociais ganha força e começa a explicar a variação e mudança social, não pelas características internas à língua, mas pelas forças externas. Com Bakhtin, renova-se a perspetiva de que a língua é um fenómeno social, cuja natureza é ideológica. Ou seja, a Sociolinguística ocupa-se das questões como a variação e mudança linguísticas, o bilinguismo, o contato linguístico, política linguísticas, entre outras.

Na segunda parte da crónica, iremos abordar as expressões e manifestações culturais e como estas podem influenciar a língua, o pensamento e a forma como vivemos e olhamos o mundo.

1 – Ferdinand de Saussure foi fundador da Linguística, enquanto ciência, e da Semiologia (para uma revisão, ver Semiotics for Beginners de Daniel Chandler). Introduz os conceitos de parole e langue: a langue é apenas uma designação institucional e convencional que se adquire, é um conceito social e essencial, não é uma função do sujeito falante, mas sim um produto que o indivíduo regista passivamente; já a parole é um processo individual de vontade, é a realização, concretização, exteriorização que cada indivíduo faz da língua que domina. O objeto da linguística, para Saussure, é a langue. O pensamento de Saussure esteve na base do estruturalismo do século XX.

2O generativismo (generative grammar) é uma proposta teórica que descreve a estrutura linguística através de regras formais e de princípios e parâmetros universais, apresentada por Noam Chomsky.

3Calvet, Louis-Jean (1993) Sociolinguística: uma introdução crítica. Parábola.

Outros artigos deste autor >

Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

Deixe o seu comentário

Skip to content