Nos últimos dias fomos presenteados com uma notícia num jornal sobre Trás-os-Montes e Alto Douro. A notícia enaltecia um interior mais moderno, apesar de desertificado. Não. O interior não está mais moderno. Está longe disso.

Importa, primeiro, precisar as regiões de que falamos: Terras de Trás-os-Montes e Douro. Fazer um retrato daquele interior que ninguém quer ou ousa ver não é tarefa fácil. Um retrato do verdadeiro interior. Do interior que ainda está longe de se poder apelidar de moderno.

O norte do país continua a ser aquele onde a população tem mais desempregados à procura de novo emprego (dados INE). O interior continua a ser aquele território onde “o emprego precário fez questão de se enraizar”. Uma vez que é da agricultura que a maior parte dos habitantes vive, são as mulheres aquelas que continuam a ter empregos mais precários e temporários. Analisando o Relatório do Desenvolvimento & Coesão de 2018, da Agência para o Desenvolvimento e Coesão, podemos observar que de 2001 para 2016 pouco se assistiu relativamente a medidas de combate ao desemprego no interior.

Mais uma vez, o interior norte é aquele que apresenta mais município com taxas de desemprego entre os 9,9% e os 18%.

A par, é nas sedes de concelho que está a maioria dos equipamentos dos serviços de emprego (e tudo o que acarreta uma deslocação no interior norte). A acessibilidade a estes equipamentos é especialmente reduzida em Terras de Trás-os-Montes, Ave, Alto Tâmega e Douro (Norte), Beiras e Serra da Estrela e Beira Baixa (Centro) e Alentejo.

O mesmo relatório aponta que interior norte continua a ser aquele onde se assiste ao maior decréscimo (entre os anos de 2005-2006 e 2015-2016) do número de alunos inscritos nos estabelecimentos de ensino público. São menos 39.000 alunos. Menos 30%.

Entre o mesmo período, assistiu-se a um decréscimo acentuado do número de estabelecimentos de ensino básico em todo o interior, com especial acentuação no interior norte e centro. Considerando a existência de hospitais especializados, o interior norte é aquele onde os habitantes têm de percorrer as maiores distâncias para ter acesso a um cuidado especializado. Uma vez que é no interior onde está a população mais vulnerável (física e psicologicamente), é substancialmente crítico o afastamento destas unidades especializadas.

Considerando o relatório do Índice Sintético de Desenvolvimento Regional, do Instituto Nacional de Estatística, de junho de 2018, apesar de os resultados obtidos em 8 das 25 regiões NUTS III estarem acima da média, considerando o índice de coesão (ou seja, o grau de acesso da população a equipamentos e serviços coletivos básicos de qualidade),

o interior norte é aquele onde existe maior disparidade relativamente às regiões litorais, apresentando índices de coesão mais baixos.

O relatório conclui que o Douro é a região onde o índice sintético de desenvolvimento regional é o mais baixo do país.

Relativamente ao investimento público no interior, e observando o Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruturas do Horizonte 2020, podemos concluir que o verdadeiro investimento na via navegável do rio Douro se resume à perpetuação da concessão do equipamento a empresas privadas. São poucos, muito poucos, os transmontanos e durienses que podem usufruir da via navegável do rio Douro (e outros rios estarão, também, nesta situação). A requalificação do IP3 está longe de ser concluída. A par do IP3, a ligação a Bragança pelo interior norte apenas é possível pelo IP2 e que acarreta todos os riscos que um IP desgastado apresenta.

Considerando os investimentos da Ferrovia (Portugal 2020), a Linha do Douro é apenas caracterizada como um “corredor complementar”, onde apenas estão previstas a eletrificação e introdução de sinalização. Onde está o investimento na extensão da linha do Douro? Onde está o investimento na linha do Sabor? Onde está o investimento na linha do Corgo? E onde está o investimento na linha do Tua? Esta última foi entregue de forma desenfreada a um operador turístico que ficará “responsável” pela gestão, exploração, conservação e manutenção da ligação entre a Brunheda e Mirandela. Foi assinado o contrato de concessão que explicita que o comboio circulará com uma vertente de transporte turístico e público.

A CP terá de financiar em 600 mil euros anuais para que a empresa assegure o transporte público.

Esta decisão deixa não só as autarquias locais como os habitantes do interior prisioneiros das decisões de um operador privado.

E não. O interior não é o espelho de um país cada vez mais moderno. O interior é o espelho das consequentes más políticas internas e europeias.

Este interior não é para nós

O interior está longe de ser o espelho do litoral desenvolvido e modernizado. O interior está longe de oferecer às populações a mobilidade, a modernização, a atualização que merecem. Está longe do litoral. Está longe de todos. Para quem reside entre o eixo Vila Real-Bragança e Viseu-Chaves é um quase-felizardo. E os que não habitam nesses eixos? E aqueles que não têm como poder “usar as grandes acessibilidades”?

A notícia que acima apontamos refere um ponto crucial. A desertificação do interior. Mesmo os grandes certos urbanos do interior estão a perder população. A perpetuação de um interior idílico está cada vez mais enraizado. O interior tem tudo para dar. Para dar aos donos disto tudo, ainda!

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Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

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