Foto retirada de unsplash

Com a industrialização da sociedade nos séculos XVIII e XIX, a população rural diminuiu e observou-se uma migração dos ativos para o mundo urbano. Foram arrastados para um mundo que não seu e para um modo de vida que não conheciam. Provocado pela deslocação em massa para o mundo industrializado, o mundo rural ficou despovoado. Uma vez despovoado, as desigualdades sociais culminaram na realidade que todos hoje conhecemos.

As desigualdades e a exclusão social assumem-se como forma de exclusão económica, política e laboral. Aquela que me traz é a exclusão política e as desigualdades sociais que daí advêm.

Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a votar em Portugal nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte em 1911.O Código Eleitoral determinava que podiam votar os portugueses “que soubessem ler e escrever” e os que “forem chefe de família”. Carolina era médica, pertencia a uma classe social privilegiada, sendo viúva era chefe de família, o que lhe dava o  direito de votar. A 21 de agosto de 1911, a Assembleia Nacional Constituinte, deliberadamente, não consagra na Constituição o sufrágio universal, deixando uma porta aberta à sociedade patriarcal e a alteração ao Código eleitoral em  1913 que limita, agora, que são eleitores “todos os cidadãos portugueses do sexo masculino” (capítulo I, artigo 1º). Esta era a luta de uma elite urbana.

E as lutas das classes rurais?

Essas são as lutas de que poucos falam. Porque essas lutas não as mesmas.

A revolução industrial foi, indiscutivelmente, um marco na viragem do mundo rural para o mundo urbano. Embora tardio em Portugal (a maioria da população viva, ainda no início do século XX, nas áreas rurais), a industrialização vai consolidar o mundo urbano e despovoar o mundo rural (obviamente, porque as políticas não souberam ajustar a realidade à geografia). Aquilo que era o modus vivendi  até ao início do século XX, torna-se a exceção[1].

A luta pela igualdade de género é um dos maiores capítulos do mundo contemporâneo. Recuperando a Verónica Gago, num artigo sobre as Oito teses sobre a Revolução Feminista, “o feminismo, como movimento, deixou de ser uma exterioridade que se relaciona com “outrxs”, para ser tomado como chave para ler o conflito em cada território (doméstico, afetivo, laboral, migrante, artístico, camponês, urbano, feirantes, comunitário, etc). Isso faz com que emerja um feminismo de massas e intergeracional, porque é apropriado pelos mais diversos espaços e experiências”. Ora, esta é a realidade das massas e das organizações urbanas. Do lado, existe um mundo rural que não tem esta consciência de organização (apesar dos avanços que temos presenciado). Por exemplo, ao contrário daquilo que acontece na América Latina, não existe em Portugal um movimento de união de trabalhadoras rurais (veja-se a Marcha das Margaridas no Brasil). Apesar das melhorias sentidas na redistribuição dos rendimentos do trabalho rural, a realidade ainda é bem diferente.

É do senso comum, ou assim esperamos, que as mulheres têm um papel fundamental no desenvolvimento económico. No entanto, esse papel é muitas vezes marginalizado ou subvalorizado: o trabalho excessivo, não remunerado (incluindo os trabalhos domésticos), dificuldade em aceder a recursos (tecnologias e terras) e educação (informação). Este cenário agrava-se quando as mulheres estão acorrentadas a estruturas familiares conservadoras e relações conjugais opressoras.

E é este o cenário no mundo rural.

A divisão dos papéis entre homem e mulher constrói-se dentro dos lares, para lá das vozes de luta que não se ouvem, através da divisão de tarefas masculinas ou femininas. Apesar de a mulher possuir um papel relevante no trabalho rural (seja no trabalho doméstico, na educação dos filhos e no trabalho produtivo), é ao homem que cabe o papel, ainda, dominante[2].

Um novo movimento rural.

É necessário um movimento rural de mulheres articulado e com uma estratégia de ação coletiva para dar conta dos problemas legítimos das trabalhadoras do mundo rural. É necessário não abrir mão das reivindicações históricas das classes que foram oprimidas para pautar novas questões que tendam a ampliar os temas para o universo das relações sociais.

As mulheres têm de se reconhecer como trabalhadoras do e no mundo rural e que a reforma do mundo rural inclua as reivindicações das trabalhadoras na agenda pública e política: reforma agrária que promova ainda mais o acesso a terras às mulheres que as queiram trabalhar; ampliar os direitos como trabalhadoras e, consequentemente, o reconhecimento do trabalho doméstico; o acesso ao pleno-emprego; políticas de saúde; educação (formação técnica e profissional); participação no combate à violência contra as mulheres no mundo rural.

O mundo rural está em transformação. É crucial a construção de uma unidade de mulheres rurais, camponesas, da floresta, do campo que convirjam num movimento que desafie os movimentos de mulheres em geral a olhar o mundo destas como ele é.

[1] Ferrão, João. 2000. Relações entre mundo rural e mundo urbano. Evolução histórica, situação actual e pistas para o futuro. Sociologia, Problemas e Práticas, 33: 45-54.

[2] Engels afirma que o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história é o da opressão do género feminino pelo masculino. Engels, Friedrich (1884) A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder.

Outros artigos deste autor >

Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

Deixe o seu comentário

Skip to content